quinta-feira, agosto 11

refinado prefiro o humor ou o açucar

Partilhar



Há dias resolvi ir bolinar contra a nortada para Leça da Palmeira. A certa altura apeei-me das pedaladas para registar em imagem aquilo que considerei uma série de absurdas contradições. Uma notícia de hoje faz-me então rebuscar a foto e tirar as minhas conclusões.

Como se pode ver a tarde estava convidativa para pedalar. Encostei a bicla ao poste que segura um sinal azul, indicador do início de uma via reservada às bicicletas que do meu ponto de vista, e neste caso, não passa de uma extensão do passeio pedonal à beira mar plantado. Permiti que em primeiro plano ficasse um outro sinal, este de proibição, que julgo saber na teoria limita a velocidade dos veículos motorizados a 20 km/h. Quanto à prática já estamos conversados.

Primeira conclusão a reter: pedalar é mais veloz do que acelerar, até numa via que em princípio seria dedicada às bicicletas mas que têm de coabitar com outros seres e objectos.

Ao fundo vislumbra-se uma floresta de tubos de escape virados para o céu. Para quem não sabe pertencem a uma refinaria que motiva a notícia do dia e que alimenta a combustão de motores que, à partida, pois caso contrário estariam a infligir as regras de trânsito, não podem circular ali mais rápido que um corredor da maratona. A refinaria da petrogal, para além de empestar o ambiente, é uma bomba relógio pronta a explodir a qualquer momento. Em 2004 e a propósito de graves acidentes então surgidos com o pipeline que a liga às instalações do Porto de Leixões, surgiram notícias de que haveria a intenção de, a prazo, encerrar a refinaria. Parece que mais uma vez de boas intenções se encheu o inferno pois tudo permaneceu na mesma. Como sempre não se teve em conta as preocupações da população local, obrigada há décadas a viver com a espada oscilando em cima da sua cabeça devido aos riscos de acidente na refinaria. Ontem a população voltou a não ganhar para o susto com explosões audíveis e visíveis a vários quilómetros de distância. Dizem as más línguas que é obra do terrorista da Noruega!!! Agora fora de brincadeiras, nem é preciso relembrar o perigo que ela representa pois os inúmeros incidentes ao longo dos anos falam por si.

Em jeito de questão, a segunda conclusão a reter será: precisaremos assim tanto daquilo?


terça-feira, agosto 9

a título de desabafo

Partilhar


(clicar na foto para ver melhor)


Ao que parece na madrugada do dia 27 de Fevereiro cometi uma infracção. E qual foi? Ter tido o desplante de utilizar os prestimosos serviços do pavimento do IC24, A41, CREP, ou lá o que lhe quiserem chamar, durante 2 km e tal para levar a minha esposa ao aeroporto, sem pagar. Não obstante tal abuso, parece que passados alguns minutos reincidi gravemente na mesma infracção, no sentido inverso, tentando regressar a casa para voltar a adormecer. Às vezes parece que ando mesmo a dormir na forma porque em nenhuma das ocasiões que utilizei a via detectei o que quer que fosse. Hoje recebi uma amável carta registada, certamente para despertar a minha consciência, dando-me conta que ascendi à categoria dos caloteiros desta simpática empresa que é a concessionária de auto-estradas “SCUT” e “ex-scut” que tem entre os seus valores de “responsabilidade social”: «contribuir para o despertar das consciências para questões que dizem respeito à sociedade em geral e que afectam cada um de nós.» (!!!). Fiquei assim a saber que, sem saber, na referida via existem pórticos electrónicos que nos espiam e nos cobram pela passagem, coisa que não se fez no momento e nas diversas formas de pagamento de portagens que conheço, que é a um portageiro. Ultimamente não tenho conduzido muito, e muito menos para os lados de Pedras Rubras, como tal não entendo a necessidade de adquirir e colar no pára-brisas uma dessas máquinas registadoras que a referida empresa comercializa. Nos termos da legislação que invocam (!) estou notificado a efectuar voluntariamente o pagamento do montante em dívida, sob pena de coimas que se podem multiplicar. Ao que parece devo-lhes a exorbitância de 20+20 cêntimos acrescidos de 2.29+2.29 euros de custos administrativos (!) que representam 900 e tal por cento do valor da portagem. Deve ser isto a que chamam “explorar de forma inovadora e diversificada o negócio de auto-estradas.”


Não vou dissertar agora o facto de que o Governo encapotado nestas empresas esteja a cobrar a utilização de uma via que foi construída com os nossos impostos e com as verbas provenientes da União Europeia, porque esse infelizmente é assunto extrapolado pelas leis abusivas deste país. O que irrita é viver num país que disponibiliza uma determinada estrutura que caso as queiramos utilizar somos obrigados a pagar (o chamado principio do utilizador/pagador), mas que depois inventam estas modas tecnológicas e não disponibilizam nenhum funcionário para receber atempadamente o que se deve no final da utilização desses serviços, não sendo necessária a deslocação aos balcões dos CTT’s, que os substitui na cobrança. Pois se não cobraram na devida altura foi porque não estavam presentes no respectivo local quando eu passei! Seria o chamado “não deixemos para amanhã o que podemos receber hoje”. Mas não, esta é a cultura do “gamanço” institucionalizada, a passos largos para a ditadura financeira. Por mais que insistam eu não vou comprar nenhum desses dispositivos de cobrança, vias verdes e quejandos que tais. Posso realmente fazer o pagamento “postecipado”, conforme me notificam agora, mas que essa verba diga respeito às parcelas dos custos das portagens e... Custos Administrativos! Mais de 900%!!!


Ahhh, e não precisam de me lembrar, “paga e não bufes!” porque já bufei...

sexta-feira, agosto 5

crónica do pedal a Santiago

Partilhar



Três dias, cinco bicicletas, muitas mochilas, duas ladys e três ciclistas malucos: começava o “Plano Ciclístico até Santiago de Compostela” ou “Uma Trip do Carago”, como lhe preferiu chamar o tasqueiro. Poderia dizer que tínhamos resolvido finalmente fazer alguma coisa, que o nosso lado aventureiro falou mais alto que a preguiça que o cagaço e todas as outras desculpas (para cruzar os braços) juntas, mas a verdade é que mais alto o que falou mesmo foi a vontade de andar de bicicleta, da conversa fiada, de amigos que ficamos (já que eu pouco os conhecia), do tempo de ignorar o relógio, o telefone, a esposa e o filho, raras chances de ficar à toa por um caminho em nada aleatório. De chegar lá, afinal. Por alguma razão se desistiu mas nós fomos e vencemos, as subidas, as pedras, a sede, a lentidão. Nada que se pareça com aquela sensação que temos do objectivo alcançado. Não somos melhores nem piores, fomos capazes. Não quero c
onvencer ninguém a nada, nem dar palmadinhas nas nossas próprias costas. Quero mesmo é convidar todos a percorrer o mesmo caminho. Como foi? Incrível.

Engraçado que antes da viagem, descobri que existem perguntas padronizadas e que me foram feitas. Antes de mais nada vamos a elas e às suas respostas politicamente correctas:

1 – Vais pagar alguma promessa?


Não, decidi viajar de bicicleta por prazer, para experimentar novas sensações e conhecer pessoas e lugares.

2 – Quanto tempo de viagem?

O tempo é relativo. Sabe-se que na física t = d/v, ou seja, quanto maior a velocidade, menor o tempo, até mesmo porque a distância é uma constante, relativa mas é. Logo nosso plano foi cumprir parte do Caminho nos dois dias disponíveis. No primeiro de Viana até Redondela e no segundo até Compostela.

3 - Quantas horas de pedal?

Isso aí só saberíamos no dia (contas mal feitas à posteriori foram quase 20).

4 – E como voltarão?

De comboio, isto é, se nos deixarem colocar as bicicletas no porão da carruagem e se a CP mantiver a ligação de Vigo ao Porto.

5 – Vocês são loucos!

Sim, se querer viver e gozar dela é ser louco, então somos!

Vamos ao que interessa…

Então e por imperativos de agenda, tivemos que encurtar a viagem um dia. Assim, e parafraseando o tasqueiro, em vez de partirmos do Porto, decidimos partir de Viana, entrando no Caminho propriamente dito, em Tui.

Após uma curta noite de sono (a minha foi em claro) o despertador dispara, hora de levantar. Corpo ainda pesado pelo sono porém a alma eufórica pela novidade. Banhos tomados, estômagos forrados, hora de prender os últimos penduricalhos na bicla e partir no nevoeiro, cumprindo o trajecto num ritmo bem tranquilo entre Viana e Valença, paralelo ao mar e ao Rio Minho. Já em Cerveira haveríamos de fazer uma pausa em casa de um dos companheiros de route, para almoçar, refrescar e degustar meia melancia que já nos havia proporcionado boas risadas.

Demoramos a retornar à estrada e antes de chegar a Valença tivemos um ensaio da beleza e dureza do que iríamos encontrar em cima de uma bicicleta cheia de tralha. Despedimo-nos de terras lusas e entramos na Galiza, iniciando o Caminho propriamente dito pelas ruas íngremes e medievais de Tui. A minha bicicleta era agora um veículo internacional.

Podem crer, foi bom sentir o peso da bicla nos braços quando fui obrigado a descer as escadas e passar o pequeno túnel do Convento das Clarissas Enclausuradas. Depois o caminho passou a ser feito por belas trilhas rurais, bosques, pontes medievais, subidas e descidas por atalhos de pedra, gravilha e pó. Após sair de Porrinõ chegou a pior parte do Caminho, uma longa e feia recta que rasga uma horrível zona industrial. Neste ponto do percurso o grupo já se havia desagregado, porque a diferença de ritmos entre os bravos do pelotão e as majoretes era abismal.

Antes da alucinante descida para Redondela, onde iríamos pernoitar, tivemos o primeiro grande prémio de montanha, com um metro de língua para fora, e o milagre do dia. Após uma longa e extenuante subida que nos deixou de rastos, vários quilómetros percorridos mais a empurrar a bicla do que a pedalar, assim, no meio do nada, eis que surge o milagre. Não, não era uma visão, era mesmo real. À beira da estrada uma máquina de bebidas frescas esperava a nossa chegada que, à custa duns euritos, nos retribuiu com o justo prémio pelo nosso esforço. A chegada a Redondela fez-se já com as luzes ligadas, em velocidade e ferocidade. Fome saciada fomos dormir e repor um pouco das energias para encarar o dia seguinte que começaria bem cedo.

Com mais de 90 km nas pernas, saltamos da cama com uma disposição óptima para atacar muito cedo os 80 e tal que faltavam do Caminho. Trouxas arrumadas e amarradas depois de um reforçado, o objectivo passava por impor um ritmo mais forte do que o do dia anterior, portantos, combinamos que o grupo seguiria a dois ritmos diferentes, tendo como ponto de encontro Santiago, ou Vigo (onde iríamos dormir). Reinicia um sobe-desce sem fim, cansativo, porém recompensado com uma vista lindíssima que só quem está numa bicicleta pode parar, observar, ouvir os sons, sentir os cheiros e realmente experimentar cada sensação do momento. A Ria de Vigo, a Ilha de S. Simon, Árcade e a medieval Ponte de Sampayo, paisagens lindíssimas, povoados medievos de encantar e descidas perigosas.

Depois, bem, depois é que foram elas. “Estes Romanos eram mesmo loucos”, disso não tive dúvidas. Num dos bosques mais bonitos do caminho, de Canicouba até Briallos, a estrada romana deu-nos cabo do toutiço. Pedras enormes gastas pela erosão do tempo que não nos deram tréguas. Se as biclas já pesavam toneladas, então é que foram elas quando as tivemos de empurrar calçada acima e por bastante tempo. Depois as trilhas amenizaram um pouco o nosso esforço dando uma certa tranquilidade e um certo ar bucólico ao local. Encontramos muitos peregrinos que prosseguiam o Caminho a pé.

Mais tarde decidimos parar e forrar o estômago, tomando um pouco de humildade ao conviver com dois peregrinos oriundos da longínqua região de Natal, no Brasil.

Depois de um constante sube-sube, sígue-sígue, bendita a hora que avistamos a Taberna “O Muiño” à entrada da vila termal de Caldas de Reys. Era chegada a hora de atestar o depósito, deixar as bichas descansar e desenferrujar um pouco o portinhol.

"Precioso, ballé. Bem, e agora como é que me levanto!"

Mas o que tem se ser tem muita força e logo para recomeçar uma sequência de pedala um pouco, desce e empurra a bicicleta. Pedala mais um pouco e empurra novamente, e vai assim até ultrapassar esse obstáculo. Talvez esse trecho tenha sido o mais cansativo da viagem, fisicamente e emocionalmente. Fisicamente porque começa uma sequência de subidas e descidas, emocionalmente logo após uma subida descia um pouco automaticamente se ficava à espera quando viria outra subida.

Incrível era ver aquela plaquinha indicando o caminho e a distância remanescente, que renovava o ânimo no espírito, pois progredíamos e conseguiríamos ir até aonde nossos sonhos permitissem. Pausa para mais um descanso e algumas fotos.

"Falta pouco! Ufa!"

Eis que após mais alguns minutos de pedalada, finalmente chegamos ao nosso destino. Passo pela Porta da Faxeira que dá acesso à Rua do Franco onde o fervilhar de peregrinos e forasteiros circulam nas ruas entre tasquinhas e restaurantes com tapas de encher o olho. Calmamente circulamos no meio já com um ar de satisfação até que eu desmonto da “Etielbina” tiro os sapatos e ponho os pés de molho na Praça do Obradoiro repleta de gente.

O que ganhei com a viagem?

Momentos com amigos, momentos divertidos, convertidos. Experiências novas. Novos lugares, novas sensações. Vi e vivi que quando se quer se consegue. As dificuldades existem, como as que encontramos, o segredo é saber como lutar contra elas.

Existem caminhos que só se descobrem vivendo e eu segui pelo mesmo caminho. O proximo já vem a caminho. Até lá.



terça-feira, agosto 2

a praia da minha vida

Partilhar

Adolescia em meados dos oitentas, no ano do pensamento de Orwell. Alternando os meses de Verão, pois assim exigiam as férias do meu pai, ano após ano a família Almeida enchia o 127 de gáudio e bagagens e abalava estrada fora. Viajávamos por onde calhasse numa incessante e activa curiosidade lusitana. Em antecedentes jornadas por caminhos de Portugal, armávamos barraca e nos banhávamos de sol e mar nos parques e praias do Algarve. Poucos dias antes de uma nova e longa viagem para sul, um acidente sem outras consequências alarmantes, a não ser o Fiat ter ficado de baixa numa oficina, quis a circunstância que fosse alterado todo o plano de veraneio. Mantivemos firme o nosso propósito de espraiar e fomos parar a uma localidade com mar, pinhal, campismo e autocarro mesmo à porta. Descobrimos em Gaia a Praia da Madalena. Nunca antes havíamos sequer ouvido falar desse lugarejo mesmo às portas da cidade, marejado pelo oceano, pela nortada e por bandos de turistas de todas as partes. Passámos um Setembro descontraído, divertido e conquistámos boas amizades. O parque, a praia e toda la mobida invadiram de tal forma os nossos corações que no ano seguinte, em Junho, voltámos e lá acampámos. Espreitando pelos pinheiros, entrevia-se uma pequena casa branca que nos apaixonou e um par de meses depois juntámos os tarecos e fizemos a mudança para a nova moradia que nos haveria de alterar definitivamente o rumo de vida. É para lá que ainda hoje aligeiro a pedalada e recebo com satisfação os graciosos sorrisos paternais.

Tudo começou numa longa troca de olhares. Deitados na areia, aquecida pelo sol de Agosto, na praia onde tudo acontecia. Na verdade, desde a primeira vista que andava enfeitiçado pelo seu rebelde e encantador olhar, só que as coisas levavam um certo ritual que, por mais que queiramos, não se cumpre mais. Aos poucos foi ficando sério, ela de lá me encantando, eu de cá com o meu silêncio, só os olhares se cruzando e a minha cara de tédio pelos comentários dos amigos gozões. E foi ali, naquele domingo ao sol, com a pele salgada e arrepiada pelos cabelos molhados, que tudo começou. As conversas tímidas foram substituídas por beijos enamorados. O que era uma boa amizade virou cumplicidade, afecto e amor. Logo ali o meu coração sussurrou que haveria de se apaixonar por muito tempo. E o nosso livro continua a ser escrito. No dia seguinte foi com uma mesma cara de parvo, mas com a namorada no pensamento, que me apresentei no Quartel de Espinho para porfiar uma outra etapa do obrigatório serviço militar.

Foi na Praia da Madalena que vivemos momentos inesquecíveis, naquele areal coberto de algas pela maré vaza, rodeada de rochas forradas a iodo, com o Titanic dos automóveis que descansava no mar e decorava o horizonte, muitos amigos e turistas de todas as partes que conhecemos, dias e noitadas de festa que há muito terminaram. A praia já não é a mesma, mudou bastante desde esse tempo. Para além das rochas, da nortada e das águas frias, resta pouca areia e lembranças de maravilhosos momentos convividos em todas as estações do ano. E já lá vão 24 enamorados anos. Feliz aniversário amorzinho.

Conhecido o meu lado dengoso e a minha mania estranha de não respirar para contar coisas passadas, esta foi a minha participação ao convite endereçado pelo Carlos, para que cada participante escrevesse sobre a “praia da sua vida”. Eu não poderia ter feito outra escolha.

(Poste agendado. Ainda a recuperar da fantástica pedalada a norte)

segunda-feira, agosto 1

o caminho fez-se pedalando...

Partilhar

... com o alto patrocínio da Santa.