quinta-feira, janeiro 19

memórias do Reijin

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Assistindo a toda esta tragédia com o paquete italiano Costa Concordia, envolvendo milhares de passageiros e tripulantes com mortes e desaparecidos registados, o que tudo leva a crer tenha ocorrido pela incúria e incompetência do capitão e tripulação, lembro-me do que se passou em Abril de 1988, bem junto à varanda da casa dos meus pais na praia da Madalena com o cargueiro japonês de bandeira do Panamá e tripulação sul-coreana, o Reijin. Na altura eu era um feijão verde, andava na tropa em Espinho, pelo que só vim a saber do acontecimento no dia seguinte, primeiro pela boca de camaradas da tropa e depois pela televisão. As notícias classificavam o Reijin como o “Titanic dos carros”. Com o recente acidente do navio de cruzeiro italiano também já ouvi o mesmo tipo de comparação infeliz, o “Titanic do Mediterrâneo”, talvez pelas semelhanças nas circunstâncias dos acidentes.


O Reijin fazia a sua viagem inaugural. Chegado a Leixões após viagem directa desde Nagóia, no Japão, o navio trazia a bordo uma carga milhares de automóveis japoneses, sobretudo da marca Toyota. Aportara em Leixões dias antes para descarregar algumas centenas de automóveis. Era um navio moderno, munido do melhor equipamento disponível na época. Tinha computadores e sistemas inovadores prontos a dar resposta rápida e adequada às situações, com pessoal supostamente treinado e preparado. Ao que foi dado saber, todo o know how tecnológico acabou por falhar quando foi necessário. Saiu do Porto de Leixões para o Porto de Vigo, a escala seguinte, sem proceder à reposição de lastro nos tanques, manobra essencial para a segurança do próprio navio. Sujeito à ondulação e em mar aberto, o navio tombou para a esquerda (a bombordo) e, incapacitado de recuperar o rumo e o reposicionamento, ficou desgovernado e à deriva. Empurrado lateralmente pelo vento norte, deslizou para sul da Foz do Douro, caindo sobre as rochas da Praia da Madalena que lhe provocaram rombos no casco e lhe fizeram o leito de morte. A tripulação foi salva, havendo a lamentar uma vida.


Nunca a Praia da Madalena havia sido tão popular. Nas semanas que se seguiram eram imensos os visitantes, engarrafamentos de carros, excursões de autocarros, curiosos vindos de longe com o garrafão de vinho só porque queriam ver o enorme barco de perto. Foi nessa altura que a expressão “ir ver o barco” se tornou popular, especialmente à noite no nosso grupo de amigos! E como era habitual no inicio do Verão, a malta juntava-se para uns banhos de sol e de mar na nossa praia, a praia da minha vida, muito diferente do que é agora. Numa dessas tardes quentes, alguns dos mais corajosos lançaram o desafio e decidimos nadar até lá. Foram muitos os que visitaram o gigante adormecido naquele Domingo. À medida que nos íamos aproximando da sombra do monstro de ferro, recordo-me bem do cheiro intenso a petróleo que se sentia. Como fui dos primeiros a chegar ao "ponto de embarque", uma gaiola de protecção de um gerador eléctrico, saquei logo o meu souvenir, uma placa avisadora do perigo em que nos poderíamos meter. As autoridades marítimas não andavam por perto e, mesmo à mão de semear, lá estava uma escada de corda que nos convidava a subir. E subimos. Lá em cima as vistas eram deslumbrantes, tudo enorme, tudo de pernas para o ar. Mais ao fundo, duas portas deixadas abertas nos guiaram para uma visão assombrosa, a dos hangares do navio, escuros e misteriosos, repletos de carros pregados às paredes. Com a adrenalina à flor da pele entramos nos carros e ligamos as luzes. Bem, aquilo iluminado era imenso, estranho e assustador. Entre buzinadelas e gritos de excitação trouxemos de lá vários objectos, desde chaves, ferramentas, escovas, tampões, sei lá mais o quê! Só rezava para que nenhum de nós caísse naquela medonha escuridão. Regressamos depois à praia com o que pudemos trazer, algumas chaves guardadas nos calções e o que pudesse flutuar. Quando chegamos à areia contamos a nossa aventura a quem lá estava,  que nos ouviu incrédulos sem saber o que andávamos a tramar, pois da praia ninguém nos podia ver com o encandear do sol a pôr-se por detrás do navio. 


Começou entretanto o desmantelamento do Reijin. O navio foi considerado perda total, bem como todos os veículos embarcados. À medida que desmantelavam o navio, eram retirados automóveis aos magotes, por gruas enormes, directamente para batelões, sendo depois transportados para uma área onde hoje jaz o maior e único sucateiro do mundo, completamente submerso. Meses mais tarde com as marés vivas e os temporais do Outono e Inverno o mar desfez o que restava da carcaça do navio. O impacto ambiental foi imenso e todas as praias de Gaia, até para lá de Espinho, foram conspurcadas com peças de automóveis, óleos e todo o lixo do navio. Ainda hoje se encontram facilmente alguns vestígios enferrujados dos carros presos às rochas, memórias do que outrora fora uma inesquecível aventura de Verão.



(falta apenas mostrar o souvenir que guardo do Reijin, agora colada na porta do quarto do meu filho)

12 comentários:

Rui da Bica disse...

Há uma pequena probabilidade de eu estar numa das fotos acima ! :)))
Lembro-me também muito bem daquele outro que ficou a arder frente à praia de Matosinhos.
Neste, sobrevoei-o de avião no regresso de uma das viagens que acabava de fazer e era impressionante a altura atingida pelas chamas !
.

paulofski disse...

Rui, desse acidente com o petroleiro, Jacob Maersk de seu nome, que explodiu perto da refinaria e do Porto de Leixões apenas tenho uma vaga memória da coluna de fumo que se via de Rio Tinto. O que restou do navio, a proa, permaneceu anos a fio encalhada nas rochas da praia do Castelo do Queijo, até ser removida.

Rafeiro Perfumado disse...

Uma placa?!? Devias era ter trazido um carro, pá! Era mais complicado de meter nos calções, mas servia melhor como recordação!

paulofski disse...

Eu bem queria trazer aquele Celica preto, até tinha chave na ignição, mas o raio dos japoneses tinham de o deixar pregado à parede!

Teté disse...

Ahahah, este Rafeiro é demais! :)))

Tenho uma recordação (muito) vaga disso, mas lembro-me bem do Tolan, que naufragou aqui no Tejo e ficou ali a "boiar" uns anos...

Bom fim de semana para ti!

Laura disse...

Jasus e tu foste para lá sabendo que havia petróleo a boiar? malandreco este Paulo... tamém acho que o carrito preto não ia caber nos bolsos, ainda se levasses a tua cicla...

beijitos.

laura

Kok disse...

Lembro-me muito bem deste "afundanço" e de ter pensado que aquilo fora propositado por interesses obscuros. Ou outros!
Também me recordo do Tolan (este cheguei a vê-lo) "deitado" na margem do tejo.

Concordo com o Rafeiro: em vez da placa ou juntamente com ela podias ter trazido o celica...
Não terás outra oportunidade pá!

1 abraço!

Nuno Reis disse...

Na época trabalhava como "Caixeiro de Mar" no agente deste navio, e ainda na doca, quando levantaram a rampa de descarga dos carros, o navio adornou cerca de 13 graus para estibordo (lado direito do navio) o que me fez correr por cima dos carros e saltar para a doca a todo o gás... Quando voltei ao navio depois de estabilizado, o comandante estava com uma lata de Coca-Cola na mão a tremer como se tivesse 'Gelado" e acredito que se sentisse assim.....
O único tripulante que faleceu, apareceu o cadáver próximo de Viana do Castelo, e fui acompanhar um familiar que veio das Filipinas identificar o corpo...
A forma que tiveram de o homenagear foi lançando flores para o mar na praia da Madena, nunca esquecerei esse dia....
Não existiu qualquer interesse no naufrágio desse navio, infelizmente foi a primeira e última viagem do mesmo, assim como para o Capitão, até a data os Oficiais desses navios eram japoneses e toda a tripulação filipina. Nesta viagem inaugural, o armador optou por colocar um Capitão filipino, e infizmente correu "muito" mal...
Quando o navio começou a ser desmantelado, e antes de decidiram "afundar" os automóveis e painéis do navio, tinham feito contratos com sucateiros para reciclarem os automóveis e encaminharem os painéis do navio para uma fundição... Centenas, diria até milhares de peças dos automóveis ( rodas, assentos, motores, baterias, etc) foram desviadas para comercio paralelo em vez de serem "recicladas" o que fez com que as autoridades obrigassem a "afundar" tudo...
Tenho muitas mais coisas na memória que poderia contar, mas por agora chega para não pensarem que pretendo escrever um livro...

paulofski disse...

Obrigado Nuno, pelo comentário e contributo ao episódio Reijin. De facto recordo-me de na altura se ter noticiado que haviam descoberto um hangar repleto de objectos provenientes dos automóveis retirados do barco e que não seriam destinados à reciclagem mas para proveitos ilícitos.

Unknown disse...

Só hoje encontrei este site e, ao ler as mensagens, gostaria de responder ao NUNO REIS.
Sim Nuno, era um dos "caixeiros de mar" juntamente com o seu chefe. Eu era a operacional responsável. Lembra-se?
Pois bem, já lá vão 26 anos mas este acidente ficou-me bem gravado na memória. Também lá estive, também me marcou bastante este acidente. Só quero rectificar uma coisa: o navio japonês navegava sob bandeira Panamiana com uma tripulação de 22 homens, todos coreanos (e não filipinos). O único tripulante que faleceu era coreano e quem o veio identificar e levar o corpo era um seu irmão. O comandante, igualmente coreano, ficou impossibilitado para sempre de voltar a comandar qualquer navio, pois foi-lhe retirada a carta de navegação.
Como exigência de qualidade que caracteriza os japoneses, foi decidido desmantelar e destruir tudo, tanto carga como navio. Era proibido retirar fosse o que fosse de bordo, havia polícias na praia, mas ... Carros e acessórios com água do mar, todos sabemos que não duram muito. E produto japonês é sempre de boa qualidade.
Fica-nos a recordação de um acidente memorável que me trouxe tanto trabalho mas também tantos amigos.
Um abraço para si, Nuno.

paulofski disse...

Obrigado pela visita e pelo seu comentário caro amigo, é mais um contributo para arrematar a histórica fatídica do Reijin, de um acontecimento que ficou marcado na memória de muitos nós.

Unknown disse...

Quero cumprimentar o Nuno Reis e o "unknown" que eu sei bem quem é. Eu era a chefe de operações no agente deste navio, portanto conheço-vos a ambos e também conheço bem a história. O que o "unknown" referiu é absolutamente correcto. Foi assim que aconteceu, tanto no cais como no mar, até adornar. Os japoneses são muito ciosos da qualidade dos seus produtos, por isso proibiram que se retirasse qualquer coisa de bordo para posterior uso ou venda. Foi tudo destruído, para preservar essa tal qualidade japonesa. Se alguns objectos foram retirados sem a polícia marítima ver... isso já não sei e nem me admira. O familiar que veio identificar o corpo do único
tripulante morto era também coreano. Apesar de já terem passado quase 30 anos, tenho este episódio bem vivo na minha memória. Embora lamentando a vida que se perdeu, as consequências para o capitão/tripulação e os prejuízos tremendos para o armador, restou-me ficar com várias e boas novas amizades que nunca mais esquecerei.
Um abraço para o chefe "unknown" e para o Nuno! - Mª Isabel