quarta-feira, outubro 26

com pimenta na língua

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E depois de um arroz de frango caseirinho, segue-se uma ementa picante servida pela Dona Márcia, trazida na caixa do correio ainda a queimar a língua.

Uma tasca à moda antiga de Ponte de Lima ganhou uma inusitada popularidade a servir “putinhas”, “meias-quecas” ou “quecas cheias”, “fodinhas quentes” e “cociguinhas feitas à mão”, entre outros… petiscos. A proprietária faz até “muito gosto” em afixar o seu cardápio “picante”, com todas as letras, à porta do estabelecimento.

Lá dentro nada há, porém, de erótico ou de pornográfico, nem a dona da casa precisa de “pimenta na língua” para conter o aparente desaforo. Bem pelo contrário, o forasteiro “até desata a rir e acaba por entrar”, contrapõe Dona Márcia à nossa reportagem. O único “mal” que pode acontecer ao cliente mais ou menos “virgem” em orgias gastronómicas é sair de lá “tombadinho” por “putinhas” em excesso ou enfartado de “fodinhas quentes”.

Um sacerdote que costuma merendar na casa “aprecia-as muito”, garante-nos Dona Márcia. “Está tão habituado que já chega aqui e pede-me com à-vontade uma putinha e uma fodinha quente!”, acrescenta à nossa reportagem.

D. Márcia e o seu cardápio

A brincadeira começou há seis anos por iniciativa da proprietária, Márcia Correia, 44 anos, nascida no Brasil, mas a viver em Ponte de Lima desde criança. “Eu até não sou mulher de dizer palavrões. Só os digo uma vez por outra”, garante Dona Márcia, que chegou a ser dona de um restaurante em Ponte da Barca. Depois de ter aberto a tasca “Os Telhadinhos” em 2001, na Rua do Rosário”, no centro histórico de Ponte Lima, lembrou-se logo de apresentar aquele cardápio sui generis. “Afixei-o à porta, mas o meu marido não gostou da ideia, dizendo que as pessoas podiam levar a mal. Cheguei até a tirar esta emenda da parede. Mesmo assim fiquei triste, porque não via qualquer maldade. Depois enchi-me de coragem e voltei a pôr a ementa à vista de toda a gente. As pessoas acharam graça e hoje o meu marido está todo contente pelo bom acolhimento da ideia”, recorda Márcia Correia.

A tasca ganhou fama e o seu cardápio já corre mundo."Chego a receber excursões de galegos. Muitos telefonam-me com antecedência só para encomendar os petiscos”, garante Dona Márcia. O programa do humorista brasileiro Jô Soares na TV Globo também já a divulgou com destaque. Atraiu até as atenções de inspectores da ASAE que estavam em gozo de folgas e que lá foram ver a novidade das agora afamadas “fodinhas quentes”.

“Aqui em Ponte de Lima está a gerar um gozo miudinho. Tornei-me conhecida e admirada pelas pessoas de cá, que me felicitam pela ideia”, diz Dona Márcia.

Aos fins-de-semana, o estabelecimento “está sempre cheio”. No Verão, é muito procurado por grupos que “trazem concertinas”, conta a nossa interlocutora. “Quando desatam a tocar, isto enche-se de gente. Nessas alturas, a maior parte das pessoas fica lá fora à espera que lhe sejam servidas as fodinhas quentes e ou outros petiscos”, esclarece.

A tasca vacila entre o modesto e o limpo, mas é apertada de espaço. O mobiliário resume-se a uma mesa meia-comprida e a outra mais pequena, além de um balcão rústico.

Os clientes já conhecem de “cor e salteado” os nomes brejeiros de todos os petiscos que se servem na tasca “Os Telhadinhos”. “Ora saiam-se três putinhas!”, pediu um comensal, quando estávamos à conversa com Dona Márcia. “Está a ver…é assim que pedem”, exemplifica-nos a proprietária, com um certo ar de orgulho. De pronto, Dona Márcia pôs em cima do balcão três tigelinhas de vinho verde tinto de lavrador. “São as putinhas…”, esclarece a nossa interlocutora. “A meia-queca é uma tigela de vinho de tamanho médio. As maiores de todas são quecas-cheias de … vinho”, explica-nos. E a “Fodinha Quente?” perguntámos. “Ah, isso é uma patanisca de bacalhau…”, adianta. Dona Márcia não gosta muito de dizer o nome verdadeiro dos petiscos que rebaptizou com a sua criatividade brejeira. “Quero criar o efeito – surpresa. É mais engraçado revelar o tipo de petisco, quando o cliente, por curiosidade, o pede pelo nome que lhe dei”, justifica.

A tasca “Os Telhadinhos” serve quase todos os petiscos tradicionais do Minho. “Os nomes estão tão vulgarizados que achei interessante dar-lhes outros que enchessem o olho e o ouvido. As pessoas já se habituaram a ver em todo o lado pataniscas ou lulas recheadas. Se mantivesse os nomes, não lhes chamavam tanto a atenção. Da forma como os rebaptizei acabam sempre por querer saber o que é. Depois, com a galhofa, decidem provar, o que é o mais importante para mim, pois os petiscos que faço têm outro toque de classe”, explica-nos Dona Márcia. E o qual é, então, o “toque de classe” que ela dá à sua “fodinha quente”? “São pataniscas à moda antiga, daquelas que se faziam, noutros tempos, no Minho, para servir como merenda aos senhores padres, nos intervalos dos confessos, durante a Quaresma. Levam muita salsa traçadinha e cebola picadinha. E mais não digo, porque é segredo”, responde. Dona Márcia garante que tira horas ao sono só para encontrar nomes eróticos para outras especialidades da gastronomia minhota. “Estou sempre a inventar, mas os nomes que arranjo condizem com o aspecto do petisco. Por exemplo, o “Perigoso na racha” é a isca de fígado num pão aberto. Petisco que comece a servir aqui nunca escapa à minha imaginação. O último foi o “Caldo à Puta Pobre, que é segredo da casa”, adianta. A velha “Punheta de Bacalhau” passou a chamar-se “Cociguinhas feitas à mão” na tasca “Os Telhadinhos”. “O nome de punheta deixou de ter piada para o bacalhau desfiado”, justifica Márcia Correia. Um cliente concordou, gracejando até que, nesta tasca, “a punheta é mais cara que a fodinha quente”.

“A “fodinha quente” só custa 70 cêntimos, enquanto as “cociguinhas feitas à mão” servem-se a 10 euros”, lembra o nosso interlocutor, sem se queixar da diferença de preços. “A punheta dá mais trabalho, por ser necessário desfiar o bacalhau”, acrescenta.

Entre muitos outros petiscos, Dona Márcia serve ainda “Biquinhos de Amor”, “Corno na racha”, “Sacola de Reformado”, “Chupões na racha”, “Saquinho Cheio”, “Mamadeiras Quentes”. Só diz o que é “tudo isso” a quem lá for consumir. À nossa reportagem explicou, ainda assim, que a “sacola de reformado” é… a lula recheada. “Por fazer lembrar a “sacola” dos velhos”, graceja. Só o filete de peixe ainda espera por nome mais catita na cabeça de Dona Márcia.

Eina, mas que barrigada! Ó faxabôre, é um cimbalinho com cheirinho ...



6 comentários:

Rui da Bica disse...

Isto é de morrer a rir ! Sabes que a D. Márcia foi entrevistada pela TV um destes dias !? ... Muito me ri com o àvontade dela a descrever cada um dos pratos !... rrrsssss
Isto fez-me lembrar, quando andava a estudar e fui com os meus colegas almoçar por ali, perto do Hospital Santo António a um tasquinho e um colega meu pediu à empregada (muito "apetitosa", por acaso), que lhe fizesse uma "punheta", mas muito bem feita e com muito amor ! ... Eu não sabia onde me havia de meter, escandalizado com a situação que nada tinha de anormal, mas só para os outros ! :))))
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ψ Psimento ψ disse...

Ahahah dá sempre uma imagem engraçada ao estabelecimento ter assim uma ementa. Nunca lá fui mas fiquei com vontade, principalmente porque sou grande adepto de tudo que é doçaria... e picante também vá.
Um abraço

Teté disse...

Olha, o importante é que a mulher suscitou a curiosidade e os clientes não faltaram, nessa espécie de golpe publicitário. E o café também não tem um nome mais adequado ao resto do cardápio, já para não falar no cheirinho?!? :)))

Nanny disse...

Já a conheço à uns anos, ainda que geralmente prefira um bom borrego no forno virado para o rio... já tenho saudades de lá ir (a Ponte de Lima), caramba!

Kok disse...

Com tanta coisa boa estou a salivar...
Tenho que ir ali beber qq coisinha!

À muitos anos que não vou a P. de Lima!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Pois também eu, quando há tempos passei passava por Ponte de Lima me surpreendi com a ementa e entrei. Também fiquei perdido pelas putinhas, que são de cair para o lado e logo me lembrei de uma casa em Lisboa onde há alguns nomes para bebidas quase impronunciáveis.
No entanto, devo dizer-te ( com a tua permissão e dos teus leitores) que uma das que aprecio é o " minete com pentelho". Quando vieres a Lisboa, ali nos Restauradores, perto do Palácio Foz, sugiro-te uma visita