terça-feira, agosto 23

era uma vez um computador ligado à rede

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Carlos permanecia à janela. Contemplava a vastidão do seu quarto de pensão e pensava naquilo que não via. Pega no computador e resolve publicar um texto no seu perfil, do que sentia naquele mesmo instante. Era um dia de semana, casual e igual a tantas outras tardes de chuva. Apenas em duas frases, Carlos revela um súbito pensamento, quase sem sentido, só para ficar ali, incógnito e desinteressante. Depois saiu do blogue e espreita o Gmail. Nada de novo. Volta para o deslumbre da janela do seu quarto. Vigia de soslaio o monitor e naquele instante algo lhe desperta a atenção. Alguém comentou o seu texto. O seu ignorado blogue, confidente de longa data, recebia um comentário, o primeiro comentário, coisa nunca antes vista. Era um comentário sagaz e bem humorado. Assinava Flor de Lótus e do lado direito, uma pequena fotografia a preto e branco compunha o avatar. O que poderia ser uma jovem sedutora, dona de um sorriso e olhar distintos era apenas uma flor. Carlos lê com atenção as poucas palavras que a decoram e entra curioso no perfil da sua visitante. Queria saber mais, queria conhecer melhor essa Flor de Lótus, mas o que encontra é escassa informação, apenas suficiente para perceber que também tem um blogue. Ele vai lá, busca saber mais nas entrelinhas sobre o que ela escreve, por onde gosta de se perder no labirinto da blogosfera. Espreita todos os detalhes das imagens, percebe o cariz feminino nos textos publicados. Um texto em particular é tanto do seu agrado que resolve comentar, deixando um sinal de apreço. Imediatamente, como se estivesse à espera, Flor de Lótus retribui de uma forma atenciosa, simpática, singular até. Carlos é um homem acostumado com o concreto, não se deslumbra com palavras meigas, mas crê que em algum lugar algo maior o espera. Desde esse dia passa a publicar todos os dias, várias vezes ao dia, tudo o que lhe passa pela cabeça, e dela recebe sempre uma palavra banal. As confidências são trocadas na intimidade dos e-mails e passam a conhecer-se melhor numa rotina como de mão dada num virtual passeio.

Este texto é todo ele virtual, fruto da imaginação e de uma conversa prévia. É um tema que não será de todo estranho pois é cada vez mais natural ouvir-se certos comentários e notícias sobre este novo tipo de relacionamento que acontece nas redes sociais. Será sinal ou uma forma de fugir à solidão, criando uma certa ilusão de que se encontram novos amigos, se é ouvido e se tem alguém com quem finalmente se pode conversar, mas que na realidade não passam de duas pessoas que embora se comunicando nunca antes se viram, olhos nos olhos. Os seus perfis podem perfeitamente ser fruto de uma falsidade, que é coisa tão comum e facilitada. Basta clicar e ter à disposição centenas de fotos que podem servir na perfeição para montar um interessante perfil, ou não. E na Internet são tantas as possibilidades quando a solidão aperta. Ali ninguém é feio, tem mau hálito ou é aproveitador. Ali só tem gente interessante, bonita, pessoas de bem que querem partilhar sem segundas intenções! Hummm... sabemos que não é bem assim, porque infelizmente há quem adopte essa prática não no sentido de partilhar mas de lucrar às custas da carência alheia. Uma vez que a presença física não é real, na internet o seguro morreu de velho e, quando a esmola é demais, o santo desconfia.

3 comentários:

Laura disse...

Não é por acaso que tenho lindos e queridos amigos virtuais e verdadeiros a quem conheço e com quem comparti pedaços de dias, de tardes, de almoços, passeios... Até te conheci a ti, foi engraçado e tudo à conta dos gémeos e das minhas subidas no caminho para visitar a Soledade, que me levou até ti e a um abraço feliz de conhecer um rapaz maravilhoso... Foi giro, mas sei que há gente que escreve o que nada tem a ver com eles, e gente que anda aqui pelo prazer de magoar, ferir e poucos como sabemos, são aquelas pessoas que conhecemos.
Uma coisa é certa, o tempo voa e a vida passa.

Um abraço da laura

Teté disse...

Uma coisa já descobri há muito tempo: o mundo virtual é uma amostra do mundo real, onde há gente de todas as maneiras e feitios; ou seja, há gente sincera, simpática, divertida, carente, solitária, mas também gente aldrabona, manipuladora e com maus fígados. Nada de novo, portanto! :)

Quanto aos romances internéticos, pois, cada vez haverá mais, mas isso suponho que já é fruto de uma vida cada vez mais isolada que cada um leva! Há gente que não tem mais vida que casa trabalho, outros nem isso! E a tendência será cada vez mais essa, cada um no seu PC, TV, Ipod, consola, etc. e tal, cada vez mais isolado do mundo que o rodeia! Enfim, era bom que estivesse enganada... ;)

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Não me parece que, no plano das relações, o mundo virtual seja muito diferente do real, Paulo. Na vida real também é comum as pax esconderem-se atrás de uma personagem laboriosamente construída, que apenas ao fim de algum tempo é desmontada. A diferença é que, ao contrário d que acontece no mundo virtual, no real as pessoas não mudam de sexo.:-)