quarta-feira, março 2

a professora

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(pátio interior da Escola Sec. Infante D. Henrique, Porto)

No primeiro dia, a forma como chegou, como se apresentou, a sua timidez inicial, desde logo me prendeu a atenção. Entrava rodeada de alunos, guardava nos seus pequenos braços uma pasta preta de cabedal, cheia de papéis e livros fotocopiados que amavelmente pedia para serem distribuídos pela sala. A doçura das palavras com que respondia às nossas constantes dúvidas, com a sua voz calma e abrangente, tinha o dom de me deixar concentrado nas filosofias de Platão, Sócrates (o verdadeiro), Aristóteles, num estranho anseio de aprendizagem. Durante as aulas colocava questões sempre oportunas, mostrando o seu interesse sobre as nossas rebeldes vidas de adolescentes. Não tecia comentários desnecessários nem desperdiçava palavras. Não era difícil perceber que era inteligente e culta e, por incrível que pudesse parecer, até os alunos indisciplinados permaneciam esbabacados, escutando-a. E eu, como eles, ficava abstraído de qualquer outra distracção, assistia aliciado à sua aula de Filosofia. No entanto, eu sentia-lhe alguma solidão. Por detrás daquela enorme e pesada secretária de madeira ela permanecia sossegada, de rosto tranquilo. Os seus olhos giravam irrequietos, ampliados pela graduação das lentes. Não se levantava nem mexia a cadeira. Era dia de teste e, como tal, não havia aluno que não estivesse munido de uma estratégia, de um truque para se socorrer de um auxiliar de memória. Será escusado dizer que eu também não escapava à cabulice da turma, ainda para mais Filosofia que eu gostava tanto… ui! Mas não, ela não dava a mínima hipótese. Ela via tudo, topava os olhares cúmplices, as expressões angustiadas, os movimentos suspeitos. Sempre sentada, pequena e responsável, atrás da enorme secretária, pedindo educadamente para que não nos enganássemos a nós próprios. Ali naquele canto ela dominava toda a turma, apenas ela e a sua inseparável cadeira de rodas que amparava a sua distrofia congénita, para toda a vida.

(hoje recordei a professora que mais me marcou pela positiva. Um dia destes recordarei o professor que deixou marcas, não só pelas minhas negativas)


12 comentários:

Rui da Bica disse...

É curioso como todos nós tivemos professores que nos ficaram para toda a vida e por motivos diferentes ! Uns pela positiva outros pela negativa !
... e curiosos também os resultados provocados nas notas !
Poderemos concluir o erro em que caíamos quando dizemos (ou pensamos)ainda hoje que não gostavamos da cadeira A ou B ! Na realidade era porque gostavamos ou não dos professores A ou B !
.

ψ Psimento ψ disse...

Sempre detestei filosofia, estranhamente não há nenhuma professora que se evidencie na minha vida escolar pela positiva. Tive bons professores e bons profissionais mas nada de transcendente cuja presença me marque para a vida. No sentido positivo pelo menos porque se formos para o lado negativa há uma ou duas caras que me saltam à memoria… Abraços.

Teté disse...

Com que então com cábulas para os testes, ahn? Suponho que todos nos lembramos de professores que se destacaram nas nossas vidas, tanto pela positiva como pela negativa. O que é facto é que de professores medianos (que são a grande maioria), quase ninguém se lembra nem do nome, nem do rosto... :)

Tó disse...

Sempre foste um Filososo (não precisavas de copiar)

Quanto ao que te marcou pela negativa!!! já sei quem é, de seu nome Mascarenhas não?????

Abç Mano

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Também tive vários professores que me marcaram em ambos os sentidos, mas só na Faculdade encontrei professores absolutamente insuportáveis e que nem quero recordar!

redonda disse...

Parece ser uma professora muito especial.

redonda disse...

Também tive professores que me marcaram pela positiva :)

paulofski disse...

É verdade Tó, o Mascarenhas marcou-nos bem pela negativa, e dele já falei aqui, lembras-te? Mas não, foi outro, e estou certo que mesmo a tua memória se recordará da figura.

Abraço mano

Laura disse...

Oh, que querida, mas na verdade se vos deixasse cabular, assim nem valia a pena estudarem.

Ainda lembro do Nuno ter cábulas em letra tão pequenina, e os meus irmãos também, e isso há tantos anos, toda a vida se cabulou, quem não o fez que atire a primeira pedra...

Tadinha dela, bons professores eram raríssimos...

Um beijinho e um dia bom.

laura

Kok disse...

Professores... professores... não me recordo de nenhum que mereça destaque.
Nem os da primária, que são os que considero mais importantes para o desenvolvimento e interesse que os alunos venham a ter.
Lembro-me de uma ou duas professoras, não por serem boas professoras mas por serem boas... ;)))

Akele abraço pah!

Filoxera disse...

Felizmente, há sempre professores que ficam connosco para a vida, pelas boas recordações que deixaram.
Bom fim-de-semana.

Catarina disse...

Alguns não tinham mesmo nenhuma vocação para o ensino... Eram insuportáveis, enfadonhos.