sexta-feira, outubro 3

memória de acesso aleatório

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Fotografia clássica de Robert Doisneau (1956)

…“que raio, como é que este gajo se consegue lembrar de tudo!”… foi o comentário do meu irmão à recordação da nossa viagem de comboio pelo Douro que aqui postei. De facto tenho uma boa memória, e o Google, mas nem sempre consigo lembrar-me de tudo.

No tempo da outra senhora, quando era estudante num colégio, arghhhh… é melhor nem me lembrar o colégio, havia lá um professor, por sinal director do colégio, arghhhh… mas porque fui eu me lembrar do colégio, que quando chamava um qualquer aluno à pedra, volta e meia saía-se sempre com a mesmíssima expressão. Já vos irei dizer qual era essa, enigmática para mim, “mesmíssima” expressão. Por enquanto vou retratar a postura do dito professor/director/inquisidor, na sala de aula.

Passo pesado, ora para um lado ora para o outro, o profe mantinha a classe suspensa. A certa altura parava, sentava o rabo na esquina da enorme e firme secretária que ficava numa ponta do estrado, uma espécie de cadafalso executório de fedelhos desmamados. Com uma perna suspensa e o tacão do sapato a bater na madeira da secretária, ar mórbido de troça, perscrutava a sala com os olhos à tona das lentes. -Tu aí! Apontava bruscamente o seu amarelado dedo indicador à vítima. -Anda cááááá… zombava enrolando e desenrolando o dedo. Subitamente senti um arrepio enquanto um suspiro de alívio pairava sobre as restantes cabecinhas penteadas da classe. Lentamente, cheio de tremeliques, não, borrado de medo mesmo, levantei-me e deslizei até ao cadafalso, digo estrado. Ali especado, esperava a pergunta como um condenado espera a rajada no momento da execução. Qual era a pergunta? Isso já não me lembro, do que tenho certo é que não sabia a resposta. Nem fazia a mais pequeníssima ideia. Deveria ser sobre História de Portugal e da vida de um descobridor qualquer. -Então, diga lá, os seus colegas também querem saber! E eu nada. -Não sabe? Tirava um molho de chaves do bolso do casaco e, com uma careta indescritível, escarafunchava toda a sua orelha direita com a ponta de uma chave que deveria abrir uma porta qualquer. Eu já nem pensava na resposta só de imaginar a respectiva fechadura daquela chave que certamente deveria estar já muito bem untada por tanta cera que ele retirava. -Mas você sabe que deveria ter a resposta na pontíssima da linguíssima, não sabe? Lembram-se da tal “mesmíssima” expressão de que vos falava no início deste palavreado todo. É essa mesmo, “na pontíssima da linguíssima”. Para este professor antiquado e execrável deveríamos ser decoradores de matéria, engolidores de personagens e vomitadores de datas históricas. Ele não entendia que a sua tarefa não era apenas "enfiar" o livro de História na cabeça das criançinhas, mas acima de tudo fazer entender, ensinar e dar o exemplo à classe.

Ora, e este paleio todo a propósito de quê?

Ahhh… já me lembro, a frase do meu irmão. Bem sei que nem sempre consigo lembrar-me de tudo. Para guardarmos informações bem mais simples de memorizar invariavelmente procuramos um auxiliar de memória que nos ajude nos mais diversos fins. Num computador ou mesmo num telemóvel, hoje em dia guardamos toda a informação fora da nossa memória. Assim, quando não podemos recorrer a esses auxiliares de memória parece que de repente ficamos ignorantes, como naquela sala de aula, sem a resposta na pontíssima da linguíssima.

17 comentários:

Ka disse...

lá, ó faxabôre...


Ahhh excelente! De facto há figuras que nos marcam pela sa postura e com a tua descrição senti-me na sala de aula a olhar para tal personagem.

Engraçado que das piores professoras qe tive foi precisamente uma de história por ter a mesmíssima atitude de vomitar matéria sem ter o mínimo cuidado em motivar ou cativar os alunos.

Beijosssss

ps - quanto á memória, para nºs de telefone que uso regularmente tenho uma memória fantástica (exceptuando algumas gaffes com sms erradas ahahah)

Patti disse...

Oh coitadinhos! Esses professores eram horríveis mesmo. E o pior é que nunca cumpriram a sua função/missão, que era a de ensinar. Criaram foi muitas crianças com aversão à escola e traumatizadas em aprender. A minha professora primária, com cara de Cruela Deville tinha um apito daqueles enormes e prateados pendurado ao pescoço. Quem abria o bico ... Era muito severa mas muito querida connosco.
Um dia, na 3ª classe, não acreditou que tivesse sido eu a escrever uma redacção de tpc, em que eu escolhi o tema "Tristeza".
Eu fiquei tão desesperada e aflita com aquela confrontação que levei toda a manhã a chorar, que ela finalmente acreditou em mim.

Todos temos recordações da escola. Eu também andei num colégio e de freiras católicas irlandesas! Tenho as melhores recordações delas e lembro-me sempre com muitas saudades de tudo o que lá vivi.
Tiveste só azar. Foi isso.

liamaral disse...

Realmente todos nós devemos ter tido um ou outro Profe que nos marcou mais por esta ou aquela razão! Eu lembro me de um que tive no 2º ano do Preparatório( agora é o 6º ano) que ra meu Professor de História, de Português e era meu Director de Turma, também! Ás 2ªs e 5ªs feiras tinha 3 hora seguidas com ele! Era mutio exigente nas aulas mas um bom homem, sem dúvida!
:) Beijinho e bom fim de semana!

Gi disse...

Eu tinha aqui um comentário na pontíssima da linguíssima, quer dizer, no pontíssimo do dedíssmo para pôr ... mas, varreu-se-me

Kok disse...

Que lembranças (e alguma saudade pelas boas recordações) dos tempos de escola; dos professores nem por isso. Mas da escola SIM.
Dos professores lembro-me sempre de dois:
O de português que iniciava sempre as conversas com uma frase em latim; porquê? sei lá!?! eu nunca estudei latim...
A de francês que era rechonchuda, com uns enormes olhos verdes e umas costas que terminavam numa rotunda de quatro vias...
Mas eu sempre fui mais dado aos recreios e intervalos das aulas.
Bem, fica akele abraço pah!

´Tó (Mano) disse...

Olá mano...devia saber na Pontissima da Linguissima, o nome do Prof. que falas, mas a minha memóra Ram, só guarda informação até aos ultimos 5 anos...eh..eh., mas lembro-me da imagem do Prof. a meter o molho de chaves naquelas ventanas de elefante e a limpar a cera com os dedos....estas a minha velhinha memória Ram ainda vai guardando.
Bom trabalho...continua pois tens que me ajudar a repor alguma informação que não fiz os Backup.

Aquele abraço.

joana disse...

Imagino o horror que deves ter passado com esse professor credo,pela descrição da medo imaginar só,como eu detesto professores assim.
Beijinhos e bom domingo

mariam disse...

que lembranças... pois eu tive uma srª profª na 4ª classe, má com'ás cobras, gritava que nem uma bezerra, digo, quem nem uma bruxa má, e pedia para levar-mos uma cana-da-índia bem grande, tadinho do Abílio, era sempre ele que a levava e o primeiro a saber para que era o seu uso, Ela lá da sua secretária, batia na cabeça dos distraídos ou faladores (com ela, era comprida!) ou burros como ela dizia... um horror.... nunca me bateu, mas tive pesadelos dias seguidos, daqueles em que se dão gritos e choros! minha mãe,andava em pânico! LOLOL enfim...

quanto aos "memo" costumo usar as palmas-da-mão, tipo miúda, os talões de multibanco, os guardanapos fininhos e que é difícil de ler depois...

este post, deu-me um sorriso, que que retribuo :)

boa semana

maria

mariam disse...

errata:levarmos :)

paulofski disse...

E que figuras Ka, tenho uma caderneta cheinha delas e todas do mesmo colégio.

Descança, das sms's erradas a gaffe é sempre do telemovel (ahahah).

Beijinhos.

paulofski disse...

Não foi azar Patti, foi sina mesmo, por muitos e longos anos. Quantas histórias poderia eu aqui contar e das boas que passei nesse colégio.
Beijinhos.

paulofski disse...

Que boa memória Lili, até te lembras dos dias da semana!

Beijinhos.

paulofski disse...

A menina Gi deveria trazer o seu comentário bem preparado. Leva uns TPC's para não voltar a esquecer.

Beijo

paulofski disse...

Kok, e porque será que as lembranças mais estranhas da escola envolvem sempre os profes? Por isso mesmo, porque são muito estranhos!

Abraço pah!

paulofski disse...

Tó meu irmão, devia te dar um puxão de orelhas à moda do Silva (profe de Matemática). Não me digas que te não te recordas do Mascarenhas! Recordo-te então que ainda lhe deves um vidro da janela da sala. Tem cuidado que o gajo ainda te aparece a cobrá-la.

Abraço forte.

paulofski disse...

Ó Joana, horror e muitos bons momentos também.

Beijos.

paulofski disse...

Lol Mariam, este não precisava de uma caninha para "acordar os distraídos". Se ele apanhasse algum no mundo da lua, o gajo fazia tiro ao boneco, ou com giz, ou com o apagador, e mesmo com o estojo da mocinha que estava na primeira fila. Numa das vezes era eu o alvo, esquivei-me e o coitado do meu colega na carteira atrás levou com o apagador direitinho nas fuças, e sem saber porquê, eheh.

Sorriso bonito.