sexta-feira, novembro 19

uma entre outros

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Dentro dos sapatos, os pés cansados arrastava. Exausta da gincana pelas poças da calçada, os saltos implacáveis feriam-lhe sadicamente os calcanhares. Nas mãos levava um envelope de onde remanesciam duas folhas de papel contendo a sua trajectória de vida. Mal concluíra o ensino obrigatório mas era licenciada na escola da vida. Experiência, sim, tinha e muita. Resolvia tarefas domésticas como ninguém, improvisava uma refeição com parcos alimentos, fazia magia com o dinheiro que poupara, uns míseros euros com que pagava as contas, vestia e educava os filhos. Tinha ampla experiência como mãe, filha, mulher... e esposa que foi outrora. Mas isso não deveria importar muito naquele momento. Foi assim que chegou à agência de trabalho temporário. Aproximou-se do balcão e apresentou-se para a entrevista: Generosa. Bonito nome. Pediram-lhe que aguardasse. Havia umas doze à sua frente, e outro remédio não teve senão esperar de pé e estampar no rosto todo o cansaço acumulado. Em silêncio percorreu com o olhar a sala enquanto muitas dúvidas lhe trespassavam o pensamento: E se lhe exigem um diploma, e se lhe pedem uma recomendação, experiência e alguns anos a menos? As candidatas eram chamadas para uma pequena sala, onde a porta se fechava assim que a transpunham. Não levavam mais de cinco minutos, cada uma, até estarem de volta. Viu chegar mais mulheres, iguais a tantas outras, na sala de espera, com o mesmo olhar perdido, no vazio de um mundo sem esperanças. Semi-desfeita pelos nervos, as pernas iam na mantendo firme, e com um meio sorriso agradeceu a primeira cadeira vaga. Generosa foi chamada. Buscou nas outras a confirmação de que seria mesmo a sua vez. Encaminhou-se confiante, pelo menos assim queria acreditar, em direcção à porta. Pediram-lhe que se aproximasse e se sentasse. O seu corpo exsudava tensão. Maneou a cabeça cumprimentando a senhora que a mirava distante. Olhou-a no fundo dos olhos, tirou os papéis do envelope e entregou-os para análise. Depois, apenas um silêncio sepulcral entretanto interrompido pelo matraquear das teclas do computador. Respondeu a questões de circunstância mas as palavras saíram-lhe cépticas da boca, querendo lhe dissolver a voz. A entrevistadora devolveu-lhe os mesmos papéis, para que os guardasse caso surgisse outra vaga, assegurou-lhe. Resignada, guardou-os com um sorriso suplicante, sabendo que as esperanças de candidata desqualificada se voltavam a esvaziar. Queria poder-lhe oferecer mais, mas não esmoreça Generosa, não esmoreça. Pois não! A sua inexperiência e o bilhete de identidade voltaram a trair-lhe expectativas mas a vida ensinara-a a ser persistente e corajosa. Agradeceu de antemão o favor pela entrevista, inspirou profundamente, vincou mais uma ruga e despediu-se com outro sorriso, agora mais convincente. Retocou a maquilhagem pela lágrima revoltosa e tomou fôlego para voltar a encarar a sua realidade, a ser uma entre outros.


12 comentários:

redonda disse...

Enquanto lia estava a torcer para que a Generosa fosse ter sorte...

Gi disse...

São 31´s das nossas vidas ... porque a vida pode ser assim. :(

Safira disse...

A vida bem podia ser mais...generosa, por vezes. Por isso é que devemos estar gratos, sempre, porque isto que aqui relatas pode acontecer a qualquer um, em qualquer altura...

Teté disse...

Quantas Generosas não existirão por aí? Mundo cão... :(

Bom fim de semana!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Infeelizmente a vida é mesmo assim para um cada vez maior número de pessoas. E quanto às agências de TT, prefiro calar-me.
Vou fazer link, Paulo para a rubrica Pelo país dos blogs, que inicio na segunda feira
Obrigado

Kok disse...

É um desalento, um desencanto, uma revolta, quando sentimos que quem está à nossa frente do outro lado do balcão não nos "vê"; sentimo-nos invisíveis resumidos a um número sem corpo nem alma.
Afinal um balcão é somente um balcão.
A única diferença é que de um lado está quem já tem trabalho e do outro está quem ainda não tem.
Vivemos numa sociedade onde o objectivo primeiro é o lucro, mas isso não devia ser impedimento para que as pessoas sejam valorizadas.
Que as pessoas sejam vistas como gente e não somente olhadas como se fossem ferramentas que é possível pôr de lado.

É lá, hoje estiquei-me...
1 abraço pah!

Catarina disse...

Um texto intenso, uma situação que se pode facilmente visualizar à nossa frente.. e que nos entristece.

Maria Letra disse...

Um texto que relata uma realidade mundial, para cuja solução não encontramos a necessária acção. E enquanto essa acção não surge, muitos textos são escritos na remota esperança de que dias melhores acabem por vencer a mediocridade de quem (des)governa neste mundo cada vez mais caótico.
Parabéns pelo texto e pelo blog.

Helena disse...

Lindo texto, triste realidade.

Turmalina disse...

Que bom que o Carlos indicou-lhe...assim pude ler este texto tão lindo, doloroso e real! Obrigada.

Ana disse...

Obrigada Carlos, pelo País dos Blogs.
O pior é que todos os dias "nascem" Generosas e Generosos!
Gostei do blog!

BlueVelvet disse...

Do melhor que já li sobre este assunto.
De uma veracidade dolorosa.