sexta-feira, abril 24

a senhora professora

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Ontem eu era apenas um rapazinho, que nos meus oito verdes anos de idade caminhava livremente por ruas cinzentas e silenciosas, numa manhã primaveril, encantado com o brilho clareado dos primeiros raios de sol. Lembro que se sentia alguma coisa no ar, e lembro-me porque aquele dia também me marcou muito, mas só mais tarde percebi porquê. Eu gostava da escola. Gostava de lá estar. Aprendia a ler, a escrever, a somar números e colorir desenhos em livros de páginas amareladas. Logo às primeiras contas e ditados da lição, a senhora professora colocou-me com outros colegas a tomar conta da classe e saiu da sala. Voltou mais tarde com um nervosismo indisfarçável nas rugas do rosto e a voz apressada: “meninos podem sair para o recreio”! Lá fora ficava um dos lugares mágicos que o espírito da minha infância agora me trás de volta. Ali, nem tudo parecia tão alto e difícil de alcançar. Era um recinto de terra batida onde brincávamos às corridas e às apanhadas, numa inocente meninice. Entre pontapés a uma bola rasgada, corridas desenfreadas e uma ou outra queda que nos sujava as batas, um muro separava-nos de outro mundo, de outro recreio. Os meninos brincavam ali e as meninas do outro lado! Nessa idade o mundo era muito maior, muito mais haveria para conhecer e tanto para aprender. Nem imaginava que heróis marchavam sobre a capital e não ouvia as vozes que eram libertadas das mordaças. Nessa idade eu prestava mais atenção à caixa de brinquedos e à minha guitarra de plástico, que ganhara no Natal, do que a outras brincadeiras mais sérias. O intervalo no recreio já ia bastante demorado quando a senhora professora, com uma visível expressão de medo, chamou todos os meninos para a sala e escapuliu-se porta fora com um desavergonhado adeus, minimamente preocupa se teríamos alguém que nos fosse buscar. Eu não compreendia nada do que se estava a passar e ninguém me explicava! Imagino que nem os adultos sabiam o que se passava e o que deveriam fazer. Na rua, todos corriam de um lado para o outro, apressados, assustados e no entanto notava-se que havia ali um certo brilho diferente no olhar. Uma canção conhecida de todos tocava nas suas cabeças, murmuravam-se poesias nas gargantas e todas elas rimavam com o mesmo sentimento, com a liberdade. E depois do "adeus" da velha senhora voltei à mesma escola, ao mesmo mundo, mas para um amanhã diferente, para um sorriso simpático e mais colorido da nova senhora professora.

"A liberdade é o espaço que a felicidade precisa"

Um bom fim-de-semana. Aceito palpites na fotografia. :)

Azeituna - E Depois do Adeus

21 comentários:

Gi disse...

Precisamente porque a liberdade é o espaço que a felicidade precisa, ando a descompasso no 25 de Abril.

Perdi, durante muitos anos, tanto da minha liberdade e da minha felicidade!!!!

Ka disse...

lá, ó faxabôre...


Na fila de baixo és o segundo a contar da direita :D


Beijinho

Su disse...

Fila do meio, segundo a contar da direita :-p

Beijo, beijo!

Si disse...

Nesse dia não fui à escola. As notícias souberam-se antes de ir para as aulas, mas também não percebi porquê, embora a minha mãe me tivesse dito que tinha havido uma revolução e que, por isso, tinha medo de me deixar ir.
Lembro-me que fiquei como se fosse noite de Natal, à espera dos presentes, num alvoroço expectante não sei bem de quê.

Quanto à foto: vou arriscar 2 hipóteses, tentando abstrair dos palpites anteriores: O da franjinha, agarrado à professora, ou o 4º a contar da direita, na última fila (nem sei porquê, mas 'tá bem...)

Almeida disse...

Vou revelar o inigma.
Escola da Portelinha.
Turma da 1ª classe (1º ano )
Fila do meio 2º a cntar da direita.
Que saudades.

Um abraço

mariam disse...

Paulo,

sem dúvida! 'A Liberdade é mesmo o espaço que a felicidade precisa' ..

ai, como as(os) nossas mestre-escola nos influenciaram! tive uma querida velhinha até à 3ª classe era 'regente', depois, na 4ª classe uma 'oficial' que era uma peste!

Obrigada por todas estas partilhas, aqui tenho estado a 'lê-lo', todo o atraso que ainda não tinha visto ... a ternura das 'Doces Lembranças' e da homenagem a 'Nanda' emocionaram-me... tenho andado pouco presente :( desculpa.

Obrigª p'las palavras :)

bom fim-de-semana
um grande abraço e o meu sorriso (de sempre) :)
mariam

obrgª p'las palavras :)

Tó (Mano) disse...

Tens que me dizer o que é que andas a tomar, para te conseguires lembrar com tanto pormenor,de coisas de há 34 anos atrás!!! eu não me lembro de nada disto...

Tú és aquele puto da segunda fila
(2º da direita)

Abraço, e VIVA A LIBERDADE, mesmo que ainda algo condicionada nos tempos de hoje.

Gi disse...

Pois andei eu aqui no teu blogue a arrepanhar as fotos todas que aqui havia tuas e de que eu me lembrava;
Ia dizer o mesmo que o teu mano, pá!

Inês Brito disse...

Estas fotos são adoráveis !

Bj,
(i)

mjf disse...

Olá!
Pois eu faltei ao jantar( não te conheço)...mas vou dizer que és o 2º a contar da esq na fila do meio :=9
eheheh

beijocas

Sunshine disse...

Lá .... faxabôre...

Fui procurar a montagem dos gatos na árvore e não há dúvida nenhuma és o puto giro que está na segunda fila.

Um dia inesquecível, nos meus 17 anitos e já com alguns contactos com movimentos pró-revolução foi um dia que foi vivido com muita ansiedade... e esperança.

Obrigado pela "flor" :)

Bjs e um óptimo fim-de-semana

Mónica Pereira disse...

Sem dúvida! És o 2º a contar da direita na fila do meio. Beijinhos

Teresa Queiroz disse...

o que está com a mãp da professora em cima do ombro....


"A liberdade é o espaço que a felicidade precisa"

adorável!!

Teté disse...

Grande professora essa! Fugiu da escola e deixou-vos lá? Cheira-me que deve ter sido saneada... :)

Estava na dúvida, entre o 5º menino ou o 2º da fila do meio, contando da direita! Mas depois de ler os comentários, já percebi qual és...

Beijoca!

Rafeiro Perfumado disse...

Sinceramente não tenho grandes recordações desse dia, mas acho que incluiram sesta, brincadeira e tentar não me espalhar enquanto andava...

Abraço!

paulofski disse...

Sim senhor, eu sou aquele puto baixinho, o 2º a contar da direita na fila do meio. Também não é novidade para quem acertou, pois já me conhecem há muito tempo e não estou assim tão diferente!

Boa Semana para todos.

maria inês disse...

cheguei atrasada mas a tempo de ver a tua carinha laroca!

O dia lembro-me perfeitamente, tomara com 15 anitos!

P.s. à senhora do blog, "não estás esquecida", beijo grande para vocês

Patti disse...

Oh que querido!
Este era o tal colégio que detestavas?

paulofski disse...

Não Patti, passei o dia da liberdade na escola primária perto de casa. No ano seguinte fui frequentar a 3ª classe no colégio onde fiquei até ao 9º ano de escolaridade. Quando saí de lá já fazia parte da mobília.

paulofski disse...

Inês, a senhora do blogue agradece e retribui com um beijinho grande.

VAP disse...

Que escola era essa?