terça-feira, novembro 11

zé velhote

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Na esquina da praça ele permanece mais a sua carreta fumarenta, a motorizada. Aguenta horas a fio em pé, ao frio, a vender castanhas. Assim é, pelo menos há mais de cinquenta anos. Pode até ser este o último São Martinho de fuligem colada ao rosto. Passeantes de ocasião, pessoas amigas, de sempre, fregueses que dele gostam e ternamente o chamam de Zé Velhote, brincam com ele e compram as castanhas que ele tão bem sabe assar. São cada vez menos os clientes mas as minhas castanhas são sempre quentinhas e boas, não tem uma podre, garante enquanto enrola uma página amarela. Uma dúzia não é? Se tivesse em trocos é que era bom! Até esquece as dores nos ossos das artroses cada vez que guarda os euros, e sorri percebendo as minhas mãos que aquecem do cartucho das suas castanhas. Os anos não lhe roubaram o humor mas o fumo do assador enegrece-lhe a face. Ele sabe como agradar e em cada cartucho põe uma ou outra a mais. A preocupação com a venda faz com que se levante de madrugada, para ir aos fornecedores, para escolher e retalhar as castanhas. O velho corpo há muito que se ressente da dureza do trabalho. Estava a ver que hoje a motorizada não pegava! Danada ainda me fazia perder o dia! É do frio e está velha como eu. A diaba custa a pegar e já não estou com forças para ela. Sabe, sempre ajuda à minha reforma mesquinha! Sempre é melhor que nada, e assim dá para a conta da farmácia. É vida de pobre, solta, resignado. Não tem pregões porque não gosta de chamar ninguém. Os fregueses ainda vêm, sabem quem eu sou. Muitos conhecem-me bem. Até os turistas gostam de provar as minhas castanhas, murmura enquanto desenferruja algum vocabulário castelhano. Este deve ser o último! Já apanhei muito frio e muita chuva, carreguei muitos carregos. Sinto que já não posso! Vou guardar estas aqui, levo-as para mim e para a minha pinga. Bom São Martinho...




À praça, como um íman, me atrai
Essa agulha dos Clérigos barroca.
Deslizo num eléctrico que vai
Deitando chispas verdes pela boca.

Um D. Pedro a cavalo todo ruivo
Da irradiação fantástica do Douro.
O comboio no túnel solta um uivo
Que S. Bento diz ser de bom agouro.

O fuminho cheiroso da castanha
Faz-me perder de vista, de repente.
E comê-las do bolso não me acanha.

Ó fraterna cidade, dá-me a face
Tão velha, sem idade, adolescente,
E que em qualquer pessoa eu te abrace!

José Ames


Eddie Vedder - Guaranteed


21 comentários:

Patti disse...

E por acaso é uma profissão que mais tarde ou mais cedo deve acabar, pois só se vê nela, velhos.
Mesmo assim, estes últimos Invernos têm sido pouco rigorosos e menos frios.
Na Baixa de Lisboa, também andam por lá sempre os mesmos todos os anos.

Gi disse...

Aí pelo Norte falta o Verão, não é?
Chovia a cântaros.

Ka disse...

Belíssimo este teu texto!

Uma boa homenagem Paulofski, como só tu sabes fazer. Tenho pena que acabem e sejam substituídos pelos meninos da vodafone a dar castanhas :S

beijinhos

paulofski disse...

Eles, velhos ou novos, marcam o tempo, o calendário da cidade, e melhor do que ninguém sabem como a cidade vive.

Beijinho Patti.

paulofski disse...

E se chovia Gi, agora está um sol lindíssimo.

Beijinho

paulofski disse...

Pois é Ka, deveriam dar telemóveis não achas? :P

Beijinho

Xanda disse...

Bom S.Martinho, já comia uma castanhinha... risos
Bjnhs

Rafeiro Perfumado disse...

Triste país este, onde os velhos não podem ser velhos.

Um abraço.

Gata Verde disse...

Tomara que a figura do assador não desapareça com os tempos modernos...

Bom S.Martinho

FM disse...

Hoje comi umas 8 ou 10 lá na rádio... já estavam frias mas souberam "pela vida". Adoro castanhas assadas na rua... mesmo que sejam a €2 a dúzia + 1 sempre de oferta.
Abraço.

paulofski disse...

E quentinha e boa, não é Xanda?

Beijinhos

paulofski disse...

É mesmo Rafeiro, já não se pode ser velho!

Dois abraços

paulofski disse...

Tomara gatinha, tomara, mas ao jeito que isto vai!

Beijinhos

paulofski disse...

Sabes Francisco, ontem à noite estive na fila do assador na esquina da Praça do Marquês, pelo menos meia hora ali ao frio e ao fumo à espera das minhas 3 dúzias que chegaram a casa ainda bem quentinhas. Estas ficaram-me por 1,5€ a dúzia e sem recheio!

Abraço

Tó (Mano) disse...

Olhar atento de um Homem da "cidade"..bela homenagem a estes homens e mulheres, que além de manterem viva uma tradição com largos anos, também conseguem dar uma lição de vida...sabes, ontem em Braga ví um "amolador",e truxe-me à memória o mesmo som quase todos os sábados passava lá por casa na nossa infância. P.S estes também mereciam uma homenagem.
Abraço Mano

mariam disse...

Paulo,
tirei uma castanha, que sobrou! :)
é bom falar das tradições aos nossos filhos, é bom ir com eles ao encontro das poucas ainda vivas... obrigada por este post!

mariam

Pedro Barata disse...

Parabéns pelo texto, Paulo. Excelente!

paulofski disse...

É verdade Tó, e recentemente ouvi passar um amolador na minha rua. Da próxima vez vou procurá-lo.

Abraço irmão.

paulofski disse...

Mariam, fico feliz por teres gostado.

Bjs.

paulofski disse...

Pedro, fico feliz por teres gostado.

Abraço.

LeniB disse...

É uma época do ano que gosto bastante: as cores misturadas com vários aromas, o fumo, os pregões...enfim, esperemos que certas tradições não desapareçam, embora as castanhas estejam cara comó caraças!!!