terça-feira, fevereiro 15

"a brutalidade desta foto é acentuada pela serenidade do seu rosto"

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Bibi Aisha foi casada ainda adolescente. A jovem afegã de 18 anos fugiu dos constantes maus-tratos que sofria do marido. Foi encontrada em casa dos seus pais, onde buscou refúgio. Após o veredicto imposto pelo comandante taliban, que como sabemos são fundamentalistas islâmicos que impõem regras e determinam castigos desumanos contra as mulheres que se revoltam contra as suas “leis”, o cunhado da jovem prendeu-a no chão para que depois o marido executasse a mutilação. As orelhas e o nariz foram-lhe brutalmente decepados. Abandonada, a jovem afegã acabou resgatada por militares americanos e equipes de ajuda humanitária e integrada no refúgio para mulheres em Cabul, onde foi fotografada pela repórter fotográfica sul-africana Jodi Bieber. Actualmente Bibi Aisha vive nos Estados Unidos, onde se submeteu a uma cirurgia de reconstrução facial.

A imagem foi capa da revista Time em Agosto de 2010 e foi recentemente premiada com o grande prémio do concurso internacional World Press Photo 2010.

“Queria fotografar a beleza dela apesar do que lhe tinha acontecido”, disse Jodi Bieber em reacção ao prémio, numa declaração áudio publicada no site do World Press Photo. “Não queria retratar Aisha como a vítima. Eu pensei “não, esta mulher é bonita””. “Eu estava muito insegura do modo como a tinha fotografado, porque não era de um modo tradicional”, referiu, elogiando a revista Time pela coragem de publicá-la na capa.

A foto da jovem foi publicada com o título "What happens if we leave Afghanistan" ("O que acontece se deixarmos o Afeganistão"), para uma reportagem com fortes implicações políticas sobre a permanência militar dos Estados Unidos no país asiático, com destaque na situação das mulheres que vivem sob o domínio do regime taliban. Embora o acto de violência retratado cause choque, para o júri do World Press Photo a fotografia demonstra a dignidade da jovem afegã perante um caso de violência contra as mulheres.

Para o crítico norte-americano Vince Aletti, que também integrou o júri, este retrato não é só sobre aquela jovem em particular, “é sobre a condição da mulher no mundo”. “É uma imagem incrivelmente forte. Ela passa uma mensagem enormemente forte ao mundo, sobre os 50 por cento da população que são mulheres, muitas das quais vivem em condições miseráveis e vítimas de constantes violações”.

Aisha diz ter posado para a fotografia por querer mostrar ao mundo as potenciais consequências de um novo governo taliban.


3 comentários:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

É um daqueles casos em que as fotografias nos deixam amarfanhados. Sem foto, a história não teria a mesma força.

Teté disse...

Esta foto mereceu ganhar! Não é só aquela mulher que está retratada nela, mas todas as vítimas de maus tratos por homens cruéis e fundamentalistas, que se julgam serem superiores e com direitos de vida e morte sobre as suas familiares do sexo feminino! E demonstra bem a brutalidade de que são capazes, para estabelecer essa supremacia que lhes vem de leis que eles próprios impuseram, dizendo tratar-se de leis divinas...

Se fosse a favor da pena de morte (que não sou), esses homens seriam sérios candidatos aos corredores da morte! E, diga-se em abono da verdade, a humanidade não perdia muito com isso...

Castanheira Pera disse...

A Teté não é a favor da pena de morte, mas eu sou para casos como estes. Ninguém é dono de ninguém, para se achar com direitos de matar ou torturar, quer seja mulher ou homem. As leis que eles dizem serem divinas deveriam ser aplicadas também a eles e não só às mulheres conforme essas feras humanas fazem.
E, diga-se em abono da verdade, a humanidade não perdia muito com isso...
pois eu garanto-vos que o mundo ficaria muito melhor sem eles.