quinta-feira, outubro 21

a passadeira mata, atravessá-la pode prejudicar a sua saúde!

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Pelo simples facto de ter nascido munido de duas pernas e ao fim de alguns meses de vida ter aprendido a andar, circulando na via pública eu sou considerado um peão. Depois de atingida a maioridade, de ter suportado durante 25 aulas o mau humor do trânsito e do instrutor, e ter sido aprovado em 10 minutos num exaustivo exame de condução, passei a ser mais um automobilista. Estes dois factores incluem-me na classe dos humanos que, mediante a situação em que se encontram, se tornam numa espécie de Dr. Jekyll and Mr. Hyde das ruas e estradas nacionais. Ao que parece estamos englobados num país civilizado, em que algumas ruas têm passadeiras que servem para indicar aos automobilistas e aos peões onde uns devem parar para que outros as possam atravessar. Em Portugal as passadeiras têm, para uma parte de nós os peões, um carácter místico a roçar o sobrenatural. Torna-nos invencíveis. Na perspectiva do peão, desde o momento que coloca o pezinho sobre o tracejado branco sujo e gasto, nada o impede de empreender a hercúlea tarefa de atravessar a rua. A maioria nem se dá ao trabalho de parar, rodar a cabeça e olhar. A perspectiva assertiva de ficar para ali parado, a olhar de um lado para o outro à espera que algum condutor tenha a amabilidade de abrandar e parar, mói-lhes a paciência. E eles correm, correm o risco de encastrar os dentes num qualquer capôt metalizado. Não adianta explicar aos peões que a passadeira não dá garantias de sobrevivência e que tem de haver um compromisso tácito entre eles e os automobilistas. Afinal de contas, a maioria dos peões portugueses também são condutores e sabem o que a casa gasta quando estão atrás do volante. A estrada é deles e os carrancudos peões que se cuidem. Conduzem perfeitamente alheados ao que os rodeia porque, ora estão a olhar para o retrovisor, ora acendem um cigarro, ora sintonizam o rádio e programam o GPS, ora têm que atender o telemóvel, e isso são muitas tarefas para um condutor só. Preocuparem-se com regras de prioridade, limites de velocidade, os ciclistas (tinhas que nos meter ao barulho pá!?), passadeiras ou circular com o mais básico do civismo, são meros detalhes para um alienado condutor ter de controlar tudo com os seus olhinhos, dois bracinhos e dois pezinhos. Saiam da frente ou passo-vos a ferro, grunhem ostensivamente enclausurados nos seus estilosos e potentes popós.

Descontraído a caminho do metro, parei no passeio junto à passadeira do costume. Àquela hora a rua tem pouco movimento, o que quer dizer que é convidativa aos aceleras, sempre atrasados para o que quer que seja. E disso eu já sabia. É uma rua com boa visibilidade, a passadeira encontra-se assinalada mas está mal visível na parte mais estreita da rua, junto a uma velha casa que a estrangula. Do lado direito não vêm carros, do lado esquerdo vislumbro um veículo ao longe com os faróis ligados. Dá mais que tempo para passar, penso. Desço o passeio e empreendo a travessia voltando a olhar para a direita. Mal dou dois passos, viro a cabeça e aquele carro passa mesmo à frente do meu nariz, a toda a velocidade e fora de mão. A deslocação de ar que provocou à sua brutal passagem levanta-me os cabelos e, instintivamente, eu dou um salto para trás, pondo as mãos na cabeça e tentando perceber se ainda estava vivo. Petrificado com o susto, miro para a traseira da viatura que não me deu passagem, e percebi então que os artistas já aprenderam um novo esquema. Num displicente acenar de braço, desculpam-se com o ar mais descontraído do mundo, género a referir, deixe lá, não o vi, ou então aguenta pá, era só o que faltava, travar para o deixar passar!. Por um triz não fui mais um número a acrescentar ao rol de vítimas por atropelamento no Porto. Por um pequeno triz teria de concordar com os fumadores que dizem, sabe-se lá se não morro primeiro debaixo de um carro!


7 comentários:

Sandra. disse...

:)

Imagino o susto, bolaaaaaaaaas!!

Tambem já vi esse escrito imediatamente antes de uma passadeira, ali na avenida dos aliados. Por falar nela: se tu desceres a avenida dos aliados vindo dos correios até ao cruzamento da rua q te leva à praça d. joão I, e tiveres q seguir, a butes obebiamente, pá porto editora, já reparas te na jingajóga q tens q fazer para, no minimo, atravessares com alguma segurança?? Palavra de honra q só me apetecia deitar as mãos a qm fez semelhante. Mas deve ser pq sou tótó q sempre q para lá vou faço esse percurso.

Outra cena, num há avisos para os nossos queridos condutores irresponsáveis pk?? só os peões é q têm q ter em cuidado a condução desses ases do volante??

Maizuma: eu n conduzo, mas andei a fazer o código, digamos q serei uma meia condutora ou uma condutora pela metade, isso faz com q n seja incluida na classe dos humanos??

Por acaso sou mui do cuidadosa ao atravessar qq rua, tentei e continuo a tentar passar esse mesmo cuidado aos meus filhos, e tirando uma ou outra vez, quase sempre me cedem passagem para atravessar, logo até nem sou daquelas q tem mui razão de queixa, talvez pq n atravesso, por exemplo, quando o sinal está vermelho para os peões :)) Mas Paulito...há por aí tanta cabecinha xeia de vento q até me assusta imaginar o sofrimento de q poderão vir a sofrer. O ppl n aprende, só depois de as coisas acontecerem é q VALHAMADEUS!!!

besuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuus

Rafeiro Perfumado disse...

Eu confesso que sou daqueles que, a partir do momento que piso na passadeira (depois de me ter certificado que o posso fazer) considero-a como um domínio meu. Há uns tempos um tipo num Audi não foi da minha opinião e, vendo-me em cima da dita, toca de acelerar, desviar-se ligeiramente e passar a rasar-me os pés. Levou com a pasta na porta, com tal força que fez uma mossa. Parou de imediato e queria explicações. Foi-se embora quando eu lhe disse "Com certeza, chamamos a Polícia para o senhor lhes fazer queixa de que eu atropelei o seu carro na passadeira". Abraço e cuidado, pois todo ainda é pouco!

BlueVelvet disse...

Embora relates isto num tom divertido, apesar do susto, é sempre bom alertar as pessoas porque de facto, todos nós temos um pouco a tendência para achar que por estarmos em cima de uma pasadeira nos tornamos não só intocáveis como imortais.
Não é o caso. Há que parar e olhar, mesmo que esteja verde para os peões, porque devemos sempre contar com a incúria ou distracção dos condutores.
Beijokas

Teté disse...

Ainda bem que não passou de um susto. Sempre lamentável, mas um susto!

Tenho para mim que os portugueses quando estão de mal com a vida - trabalho, familiar, etc. e tal - se vingam ao volante, pisando no acelerador e gritando impropérios a todos os outros automobilistas, julgando que a estrada é só deles. Nos tempos que correm, com a malta tão deprimida (por razões mais que óbvias), a coisa piora um pouco.

Lembro-me sempre do pai de um amigo meu, que tinha uma teoria sobre a importância da massa na circulação automóvel. Que, resumidamente, tratava do seguinte: o sujeito ou veículo de menor massa deve ter atenção em duplicado, porque caso haja embate ele fica sempre a perder. E não é que tinha razão??? :)

redonda disse...

E também pode suceder que numa rua só com um sentido um carro resolva vir em marcha-atrás para cima da passadeira. Está-se a olhar só para a esquerda ou para a direita e lá vem o carro em marcha-atrás do lado oposto.

Dono das galinhas disse...

Quando da publicidade feita para que os peões ficassem a saber que os carros devem parar antes das passadeiras para deixarem passar as pessoas, esqueceram-se de acrescentar que as passadeiras não são o mesmo que os passeios nem são auto estradas para peões!
Há muitos condutores que se estão a ..., que não respeitam as passadeiras. É verdade.
Mas há também muitas pessoas que "entram" nas passadeiras "à la balda" sem se darem ao trabalho de olharem para terem a certeza que é "aconselhável" por o pézinho de fora...
Afinal, para uns e outros a coisa resume-se a: civismo.
Mas com a situaçõn actual, é possível que também esteja em crise...

1 abraço pah!
§-e fazes o favor de abrir bem os olhos (também) quando andares a "penantes". É que não pode acontecer o gabinete ficar abandonado a criar pó eternamente!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Na cidade sou sempre peão e, por aqui, as cenas são as mesmas. No entanto- e vou escrever um post sobre o assunto um destes dias- a loucura dos peões e o desrespeito pelas passadeiras e sinais vermelhos é assustador.