segunda-feira, novembro 23

sexta feira passada...

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... saio do metro e rumo directo a casa. Num passo moderado, são mais ou menos uns dez minutos de caminho, no qual o pensamento insiste fazer-me companhia. E lá fomos nós quando um som forte e abafado de um avião que forçava os motores na sua subida, escondido entre as nuvens, chamou a minha atenção e me assustou o pensamento. Àquela hora da tarde o céu apresentava-se azul, metalizado, irrequieto por umas nuvens apressadas que teimavam entristecê-lo com tons de cinzento cromado. Mais à frente, ao entrar no jardim, dou de novo com o meu pensamento e juntos prosseguimos, ao ritmo das pernas e dos neurónios. O pensamento às vezes é uma coisa muito estranha, é como um microprocessador que debita imagens e sensações misturadas sem nexo. Deixa o raciocínio à deriva, num mar de realidade sem lógica, num ambiente tão perto e ao mesmo tempo tão distante. Então, como dizia, eu atravessava o jardim tranquilo que existe a meio caminho e, ao sentir o vento húmido bater-me na cara, olhei de novo o céu já mais carregado a prometer chuva e da grossa. Naquele momento o pensamento alimentava-me a imaginação e transportava-me através do tempo, de volta a algumas imagens que tinha visto na véspera, no filme 2012, quando sou devolvido à terra pelas palavras de uma senhora que, à minha frente, estende o braço e oferece-me um papel colorido e um sorriso. Importa-se? Eu não, respondo perplexo, reduzindo a cadência. Por favor leia até ao fim, pediu-me com uma voz doce. Claro que sim! Agradeci-lhe, mantive o papel guardado na mão e segui o meu caminho. Nisto, salta-me a pulga detrás da orelha, atiça-me a curiosidade e, disfarçadamente, dou uma breve olhadela ao papelucho.



Mas que titulo mais estranho para uma imagem tão sugestiva! Pensei. Um casal que sorri e um alce tão bem disposto, de que estarão a sofrer? Questionei-me, enquanto ia acelerando o passo antes que começasse a chover. Chego à porta, e enquanto a mão direita procurava as chaves no bolso, a mão esquerda revirava o papel. Percebi que era um pequeno folheto desdobrável com muitos dizeres. Já dentro do elevador abri o folheto e li o seguinte:

Todo o sofrimento ACABARÁ EM BREVE

Outra vez!...

Em algum momento na vida, você provavelmente já se perguntou: “Por que há tanto sofrimento?” Há milhares de anos, o homem vem sofrendo muito devido a guerras, pobreza, calamidades, violência, injustiça, doenças e morte. Nunca houve tanto sofrimento como nos últimos cem anos. Será que um dia isso tudo vai acabar?

Sim, realmente isso deveria acabar, mas onde quererão chegar? Continuei a ler…

Que consolo é saber que vai sim, e muito em breve! A Palavra de Deus… (blá blá blá, só para atalhar) Depois que Deus acabar com a maldade e o sofrimento, a Terra será transformada num paraíso…

Ui, querem ver que já há argumento para uma sequela do filme!?
2013 - Agora é que é!

Eu acho que de deveria haver uma lei, um qualquer programa, sei lá, para nossa protecção contra este tipo de testemunhas. Nunca as palavras PAPEL PARA RECICLAR me fizeram tanto sentido! E depois do poste escrito e publicado fui à casa de banho aliviar o meu sofrimento!


7 comentários:

Kok disse...

Este teu testemunho leva-me a considerar que é melhor eu ir ver o tal filme para ter uma ideia como o mundo vai acabar.
É porque posso morrer antes e não pretendo morrer na ignorância.
Sim, porque essa coisa da terra se transformar num paraíso não vai ser para todos. Olha, olha...

Abraço pah!

Patti disse...

Os portadores desse tipo de folhetos, são sempre facilmente identificáveis. Eu preparo logo o meu 'não obrigada'.

Teté disse...

Eheheh, achei piada a essa do alce bem disposto! :)))

Essas teorias apocalípticas são tidas e mantidas por todo o género de religiões e seitas, induzir as pessoas pelo medo a alinhar nas suas fileiras... e a empochar uns cobres, à conta dos medrosos e aflitos! Talvez seja cinismo demais, mas, francamente, cada vez me parece mais a onda desses "profetas"! Antes o cinema hollywoodesco... ;)

Beijocas!

Gi disse...

Os meus pais sempre me disseram para não aceitar nada de estranhos.

Safira disse...

Eu continuo a achar que a prevenção é o melhor remédio. À cautela é melhor irmos gozando o que temos deste lado, e deixar lá os paraisos para quem quiser ficar à espera :)
Beijinho

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Já os topo de gingeira... o problema é que agora metem os papéis na caixa de correio...

Si disse...

Normalmente apresso o passo e vou abanando a cabeça.
Se o mundo for acabar mesmo, não preciso de avisos, prefiro manter-me na ignorância.

P.S. Não posso é deixar de referir a escrita deste texto. Cadenciado e lido ao ritmo das passadas!!