quarta-feira, fevereiro 4

percepção

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Viana do Castelo, Praia Norte (Dez 2008)


Tudo é ruído à nossa volta. Tudo faz barulho, a cidade, a voz, o vento, a tosse, a chuva na janela. Até o teclado do computador inquieta o silêncio, a concentração. Entre um bom texto e uma data de palavras amontoadas, procura-se no ambiente a fonte de inspiração. Uma música que não sai da cabeça, uma conversa que se escuta no metro, uma notícia no rádio pode até dar uma excelente crónica, um conto. Às vezes procuro o silêncio, aquele que se instala dentro e fora de nós, apenas a ausência de palavras e sons. O que não ousamos perturbar e dele só queremos entender o seu dom, o som do silêncio. Outras vezes desejaria estar a bordo de um veleiro, solitário viajante com o tempo. Sentir uma lufada de vento, parar e tentar adivinhar o lado do rosto que vai ser beijado pela natureza. Ouvir o albatroz e ver o ar a ser cortado por ele, pelo marulhar do mar. Parar e só respirar. Libertar a alma e voar solto por esse mundo fora, no meio da imensidão de azul. Por vezes temos uma necessidade urgente em procurar o silêncio, para nos encontrar-mos, numa espécie de momento sagrado, belo quando o desejamos e terrível quando se nos impõe. Imaginar a vida sem sons, sem luz, sem cores, gostos, cheiros e tacto, não consigo, e quem sabe se não deveria dar mais valor a tudo o que ouço, reconheço, vejo, saboreio, cheiro e toco.


Cat Stevens - Wild World



11 comentários:

DANTE disse...

Ò amigo Paulofski , aquele último parágrafo nem se imagina!
E há lá coisa melhor que ouvir sentir e ver o que se passa á nossa volta? Lá que um tipo ás vezes precise de estar sozinho tudo bem , agora estar só , isso não.

Um abraço

ines disse...

Eu fecho os olhos e o mundo inteiro morre subitamente; eu abro-os e tudo nasce novamente. Excelente escolha musical!

Um xicoração grande

Patti disse...

Experimenta misturar os cinco sentidos e vais ver o resultadão!
Muito bom este teu texto. Gosto de sinestesias.

Vekiki disse...

Temos grande dificuldade em nos concentrar em tudo o que temos de bom e damos como adquirido e nunca desperdiçado, não é?
Mas a Vida é realmente imprevisível e de repente tudo pode deixar de ser o que foi até há cinco minutos atrás, por isso é bom que nos concentremos em tudo o que temos e disfrutemos, com paixão :)

Gi disse...

Pelo que aqui vejo dás valor aos sentidos; misturados, então, ficam em completa harmonia.

Borboleta disse...

Eu diria mesmo para colocares os teus sentidos todos numa só harmonia e de vez em quando a ausência deles...afinal nuitas vezes só quando não temos é que damos pela falta...

Acho que devemos ter de tudo um pouco! Mas sem dúvida que se tivermos os sentidos todos é "do best"

Beijos

liamaral disse...

Delicioso, mais uma vez! Um grande beijinho.

mariam disse...

Paulo,

fantástico texto, este (e os outros também!) :)
lembrei o meu 3º post! rsrs

a música...há que tempos não ouvia isto! ... bommm ...vou ficar mais um bocadinho!

boa semana
um sorriso :)
mariam

Sara disse...

É bom escutar o silêncio. É pen que para tanta e tanta gente o silêncio possa ser ensurdecedor!

Si disse...

Para ouvir o silêncio, todos os cinco sentidos têm que estar apurados, para não deixar passar o momento único em que os sons deixam de ser ruído e passam à dimensão das imagens mentais.

Pedro Barata disse...

Fantástico, Paulo! Mais uma vez... Adorei o post!