quarta-feira, maio 5

reencontrão

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Após uma noite inquietada pela ansiedade do que me esperava, calo o despertador e salto da cama para um revigorante duche e preparação de um esperado reencontro. No ar sentia uma temperatura amena e o Sábado, mesmo que nublado, parecia prometedor. Com os bilhetes já comprados, tomo um cafezinho apressado no bar da estação e embarco no comboio regional com destino a Mós do Douro, levando o meu filho numa viagem tão tranquila quanto aquele amanhecer.



Os baloiços da carruagem queriam me embalar no sono nos primeiros quilómetros da linha do Douro, calcorreados ferozmente pelo cavalo metálico, mas eu não deixei. A cada paragem os passageiros iam entrando e acotovelando-se na ânsia de encontrar um assento livre. Já na descida para a Pala sou retirado dos meus pensamentos com os “uaaaaauuuus” boquiabertos dos turistas, deslumbrados com as primeiras imagens que viam do rio.


A manhã iluminava-se devagarinho de um azul quente que enfeitava o céu e o Vale do Douro. A linha ferroviária alinhada entre o rio e as montanhas, as vinhas a perder de vista e o sol nascente, causavam imensos reflexos em suaves gradações cromáticas, e em mim uma emoção tão forte como se fosse aquela a minha primeira viagem.



Cinquenta minutos depois estava parado na estação da Régua, numa carruagem já quase esvaziada de gente e toda por minha conta. De máquina fotográfica em riste esperei pelo recomeço da marcha e deixar-me encantar com a mágica beleza da segunda etapa da viagem.


Mas o melhor de tudo aconteceria na minha chegada à terrinha. A expectativa, a inspiração, a vontade enorme de conhecer o Doutor Quadrado de quem já gostava muito através dos seus escritos, o Carlos Pedro cantor e artista dos seus blogues, o "dasMós" e o intenso Varanda do Tempo, que recomendo vivamente uma visita, o Luís "Corticeiro" e a jovem e bonita vereadora camarária Andreia Almeida.


Saber que iria reencontrar quem já não via há quase trinta anos e que até então, depois de eu ser redescoberto pela Cristina, só havíamos trocado e-mails e comentários. Seria o primeiro olhar desde a nossa adolescência, e aconteceu, e superou a expectativa. Quando imediatamente nos reconhecemos e fortemente nos abraçamos sentimos que a admiração era grande e que a saudade era mútua. Depois de uma tertúlia duradoura, ouvindo histórias e sábias anedotas, saímos à noite por algumas horas e calcorreamos as ruas tortuosas e desertas da bela terra dos nossos pais, tirando fotografias e recordando momentos passados em conjunto. Foi pena ter durado tão pouco, mas tenho certeza de que nos encontraremos lá novamente.



É de facto uma emoção redobrada e sentida sempre que percorremos caminhos e lugares que noutros tempos foram palcos das nossas aventuras e brincadeiras de criança. Há por ali um sentimento puro de nostalgia e ao mesmo tempo “um enchente” de calor humano ao revermos os mesmos rostos e sorrisos que o tempo ajudou a envelhecer. Ao fim de tantos anos voltei a sedimentar essa emoção e nostalgia, voltei a um dos meus paraísos e deixei-me levar pelas mais puras recordações.



O comboio, o rio, as paisagens, os campos floridos, os caminhos, a ribeira, o pão, os aromas, as hortas, as velhas casas de xisto, as andorinhas, os seus ninhos e os seus chilreios são elementos inesquecíveis, que apesar dos anos permanecem ali, como que a convidar ao meu regresso.



A aldeia das Mós, toda ela, emana memórias e recordações, do trabalho duro do campo, das folias da festa, dos jogos tradicionais, dos serões em família, do baloiçar no lombo dos animais, da lágrima que sempre escapava no adeus, de algo que se perdeu no tempo.



Mas a memória tem o dom e o condão de ressuscitar esses momentos, de condensar esses instantes, esses lugares que como tal viverão dentro de nós para sempre. E as fotografias que fui colhendo vão dar uma ajuda.





Nota de adenda: O sono e a falta de cuidado levaram-me a esquecer algumas referências que entretanto inclui e alterei parte do texto alusivo à publicação.
Grato pela visita.



18 comentários:

mjf disse...

Olá!
Paisasgens expectaculares que dá vontade de visitar:=)
Uma " Alfacinha de gema" como eu ia adorar!!!

Beijocas

Safira disse...

Tive o privilégio de passear por esse Douro e também guardo boas recordações.

Há reencontros assim, que marcam mesmo. A nostalgia, digam o que disserem, tempera a vida. Eu acho que é bom revisitar tempos idos, volta e meia. Sem exagero, claro está.
Beijinho

Sandra. disse...

:))

O meu avô materno era da régua, ainda lá vive a minha madrinha de nascimento, penso eu q ainda vive. Fui algumas vezes lá, quando der conto te as recordações q guardo.
Nós viajava-mos mui, todos os fins de semana, mas era ao marco de Canaveses, aldeia dos meus avós paternos :) era um lugarejo lindu de morrer, em q toda a gente é ligada por um elo familiar, aí sim, tenho recordações pá vida :))

besuuuuuuuuuuuuuuuuuuus

Patti disse...

Uma maravilha este passeio, Paulo. E pelas imagens o dia estava brilhante!

O vídeo das Mós, um espectáculo. Vi por lá, numa casinha um "Vende-se"; não avanças?

Devemos sempre voltar aos lugares onde fomos felizes.

paulofski disse...

Olá Patti, é tão bom que estejas de novo aqui a bebericar um cafezinho.

Aquela casinha vende-se e outras mais estão também à espera que lhes devolvam alguma rusticidade, modernidade e calor humano. A minha casinha, que foi dos meus avós, espera-me de volta e que lhe abra as janelas de par em par para deixar entrar o ar da sua graça, o ar puro da terra.

E eu que tantos lugares felizes tenho de contar. Vão ler.

Gi disse...

E na varanda do tempo te debruçaste reencontrando-te no teu passado e mostrando-o ao teu futuro.

Rafeiro Perfumado disse...

Conheço (ainda mal) algumas dessas paisagens, e são realmente do melhor que o nosso país tem para oferecer. E a tua reportagem está digna de revista, jove!

Abraço!

redonda disse...

Gostei muito desta viagem :)
Lembrou-me que quando tinha 19 ou 20 anos, anos fui passar um fim-de-semana à Régua com uns amigos (uma amiga é de lá). Fomos de comboio e gostei de tudo.

Kok disse...

Fotografias óptimas. Lindíssimas...
Paisagens de "morrer" (salvo seja).
Depois de te ler, ver a fotos e o vídeo resta-me a enorme inveja por não fazer o mesmo passeio.
Rrrrraios!

Akele abraço, pah!

Teté disse...

Adorei o clip e a música. As fotografias também estão fantásticas, gostei especialmente daquela do pequeno bote na água, que reflecte o céu.

Mas, acima de tudo, o teu texto sobre as sensações que tiveste ao regressar a um local onde não ias à muito e reencontrar tantas pessoas que a vida naturalmente afastou, a nostalgia de cheiros e sabores, a tertúlia com esses "velhos" amigos foi o que mais me impressionou. Pela positiva, naturalmente!

Beijocas!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Ainda há quem diga que não devemos voltar ao local onde fomos felizes!
Belíssima descrição do também meu amado Douro, onde penso voltar no Verão.
O teu reencontro, fez-me lembrar um reencontro que o Rochedo também me proporcionou ao fim de 30 anos, com uma amiga da adolescência.
Os blogs têm destas coisas...

José Alberto Velha Grifo disse...

Amigo Paulo!
Simplesmente fantástico.
Felizmente somos cada vez mais a pugnar e promover esse torrão perdido que dá pelo nome das Mós.
Os meus sinceros parabéns e obrigado pelo trabalho feito.

ψ Psimento ψ disse...

Olá, a viagem parece ter sido realmente fantástica e não precisamos sair de Portugal para ver coisas maravilhosas. É bom reencontrar quem já não vemos há muito tempo e compreendo que o dia tenha sabido a pouco para por tudo em dia. :)
Um grande abraço.

Filoxera disse...

Este post está fabuloso!
Fotos e texto. Adorei!
Beijos.

paulofski disse...

Muito obrigado. O amigo Zé Alberto é que está de parabéns pela sua grande dedicação e generosidade às gentes das Mós.

Bem haja.

Maria Cristina Quartas disse...

Viva Paulo Almeida!
Belo reencontro sem duvida. Foi com muita alegria, que te reencontrei nas Mós, depois de 30 anos passados. E o mais engraçado é que estás na mesma. Como é possível?!
Foi muito bonito o reencontro com tanta gente boa, amiga e familiares. Foi bom o convivio, as conversas e o recordar os tempos antigos.
Obrigada pela partilha do texto que escreveste. Está muito bonito e bem descritivo.
Há momentos felizes na vida. E este foi um deles.
Um grande abraço da tua amiga
Maria Cristina Quartas

FM disse...

SLB

paulofski disse...

Olá Cristina. Adorei este nosso reencontro. Eu estou na mesma! Vá lá, com uns cabelinhos grisalhos que não tinha e bem mais falador, pelo menos :)

Sim, foram saborosos estes dois dias passados na tranquila e saudosa aldeia das Mós na tua companhia, na amizade e alegria sentida e no forte desejo de voltar em breve.


Um caloroso abraço dos meus pais e do teu amigo.

Paulo.