domingo, novembro 1

o som da frente

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Foi a companhia de uma geração, a arte de ouvir, uma marca registada. Foram noites bem passadas (não tinha hipótese de adormecer antes das três da matina), embaladas pelo vozeirão do grande António Sérgio! Pelas ondas hertzianas eu mantinha uma “conversa” com o radialista que me acompanhou em muitas madrugadas (e o que eu estudei a ouvi-lo!). Nesses tempos de adolescência ímpia e impune, ouvir O Som da Frente era uma atitude e uma alternativa. O Som da Frente (de 1982 a 1993) foi um programa de rádio que desempenhou um papel relevante na assimilação da música dos anos oitenta, numa forma alegre, intimista, psicadélica, onde ouvir era um vício, um estado de espírito do momento. Noite após noite, tocava as novidades musicais, contava histórias passadas ou futuras, num conceito oposto à estreia mundial, às tabelas de vendas e ao prato forte das “playlists” das estações de rádio. Propôs-se como um projecto de divulgação inovador, funcionou como um estaleiro de som, onde as ideias se transformavam em opiniões, o direito à diferença era simples e vanguardista. Uma tribo de fiéis seguidores chegou ao ponto de lhe dar um toque de magia, trazendo as mais recentes novidades de Londres e emprestando os discos, fazendo do Som da Frente uma montra de som enquanto experiência alternativa. Na época, o circuito de importação e a penetração da industria discográfica em Portugal não tinha a mesma expressão que tem actualmente. Na aparelhagem estava sempre uma cassete, dois dedos no "Rec" e no "Play" e assim fazia os meus “downloads” da época. A memória mantem uma saudosa lágrima de um programa de rádio que moldou alguns dos gostos musicais que ainda mantenho.

Com o passar dos anos a voz grave ganhou modulações, subtilezas e ressonâncias. Reservado e solitário, assim ficava António Sergio quando se sentava atrás do microfone nas quatro paredes de um estúdio de emissão, mas nunca se alheou da vida ou das gentes e sempre recusou estatutos especiais ou lugares privilegiados. O radialista faleceu. mas a voz por trás do microfone não deixou de estender o seu manto habitual.

Shriekback - "This Big Hush"(disco 1, faixa 17)

5 comentários:

Patti disse...

Também eu o ouvi muitas vezes, por essas noites afora...

FM disse...

Mais uma Grande Voz que parte, mas FICA.
Tive oportunidade de trabalhar com ele, embora à distância, na gravação de publicidade para rádio.
E que grande voz, que grande profissional... Gravava em 2 ou 3 takes, e era simpático, aceitava opiniões, sugestões, apesar do seu histórico fantástico.
É uma pena.
Abraço.

Gi disse...

Viverá para sempre, o Senhor.

PB disse...

Um marco no panorama da rádio...

PS -Obrigado pela dica, faz todo o sentido. Já está!

Abraço

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Começou em 68, com u programa cujo nome não me ocorre e deixou logo a sua marca.Era nessa época, juntamente com Jaime Fernandes e o homem que deu o sinal do 25 de Abril, ma das vozes da rádio.
Quando andava por cá, ouvia-o muitas vezes e quantas não foram as noites em que adormeci ao som da música que ele passava