
Os que me conhecem melhor suspeitarão da minha presença aqui, mas eu não escondo o meu apego aos leitores, aos que me recebem nas suas mãos e procuram em mim pistas para pensar, para despertar o conhecimento. Os electrónicos vidros frios dos computadores nem de longe nem de perto conseguiriam traduzir o calor das minhas palavras. Não vos seria possível lamber o dedo e folhear uma página. Ou entranhar entre elas o vosso marcador de páginas favorito. Nem tão pouco sentir o cheiro guardado no encardido papel como se guardasse um segredo. Entre esta capa de cartão encerro um relicário do saber, da fantasia, da minha história, que com as suas narrativas narram também a vossa história. Um título, uma imagem, a cor que me escolheram permite-me sentir vivo e passar a ideia de que não serei apenas um objecto de decoração, mas talvez de consideração. Eu faço imaginar, viajar, levo a pensar e partilho novos mundos. Estou disponível, entrego-me, crio laços de amizade e de companheirismo. Denunciando o carinho que sentem por mim, nada supera o que eu sinto na palma das vossas mãos, a graça de me aconchegar contra o vosso peito. Depois de ser folheado, ser olhado com olhos de ver, de exibir as minhas ilustrações, noto que deixo no ar alguma suspeita e atiço uma apetitosa aventura apelativa à leitura. E à medida que vou sendo aberto é como se todo um universo de relações pessoais se enredasse entre mim e o leitor. Não sou mais que um livro, para as crianças aprenderem, para os jovens rirem, para as senhoras sonharem, para os chorosos chorarem, e até para me rasgarem, porque ao abrir um livro, novo, usado, velho e gasto, como na vida, chega-se mais além. Sim, sou um velho livro que jaz entre outros, num lugar sublime, uma estante de biblioteca, entre camadas de poeira numa fila de lombadas coloridas, e que aguarda paciente o dia em que volte a ser aberto e as suas folhas se soltem como fruta madura pelo tempo.










