terça-feira, julho 14

mensagem numa garrafa

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Ao dobrarmos a esquina das quarenta primaveras, o cabo da boa esperança para alguns ou o das tormentas para outros, lentamente tomamos consciência de que estamos realmente a ficar mais velhos e que o resultado do somatório de todos esses anos está, há já algum tempo, a ser creditado na nossa conta. Aos poucos deixamos de usar as palavras juventude e imortalidade, quase sinónimas, como máscaras para os excessos que fomos cometendo e dar lugar à tal da crise, que tanto pode acontecer antes ou depois dessa idade, não importa. Muitos de nós, quando damos conta dela, usamos a inteligência e a coragem para enfrentar a segunda parte do desafio com uma mentalidade madura, rejuvenescida, presente. Valorizam muito mais as suas potencialidades do que alguma vez o tenham feito. Outros, porém, talvez desconhecedores das suas capacidades ou tacticamente desmoralizados, tardiamente se dão conta que o tempo de jogo já não corre a seu favor e procuram disfarçar o indisfarçável, com alterações de última hora, na tentativa de corrigir erros cometidos, que pouco ou nada irão alterar o resultado final. O facto,é que temos de ser realistas e perceber que todos somos comuns mortais, mas se realmente queremos jogar o jogo da vida de uma forma saudável, com a melhor qualidade possível, precisamos de acertar o caminho e reflectir a nossa estratégia junto daqueles que amamos e connosco convivem. À velhice quase todos haveremos de chegar e, mesmo com saúde, a idade não deve ser motivo de depressão para quem quer que seja. De que adianta termos a sensação de sermos felizes se estamos rodeados de pessoas tristes e amarguradas? Devemos imaginar-nos capazes de continuar a sonhar e a amar, traçar e atingir objectivos, se possível realizar feitos anteriormente impensáveis e, mesmo que seja somente nas nossas mentes, sentir que somos verdadeiramente jovens. A velhice é só para quem a aceita dessa forma. Na figura que emoldura este poste falta a garrafa que melhor defeniria a etapa da vida que me sinto viver. Falta a garrafa de Vinho do Porto que, como se sabe, quanto mais velho melhor!


John Mayer - Message in a Bottle


sexta-feira, julho 10

a grande aventura

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Sábado, seis da manhã. Algures na cidade, um gajo (aquele ali de preto e branco) salta da cama e sem bocejar cumpre o ritual habitual de qualquer manhã, menos o almoço, que em nada é pequeno. Veste uns calções almofadados no rabo e o fardamento apropriado para estas ocasiões. Divide os víveres pelos alforges costurados nas costas da camisola e besunta a pele exposta de camadas de protector solar. Deixa um beijinho à amada e um até já também. Desce até à arrecadação, coloca a restante armadura no corpo, monta na bicicleta e vai ao encontro do amigo e parceiro de longas pedaladas.
Nada preocupados com a distância que têm pela frente, nem se ou quando irão chegar, fazem-se à estrada em direcção ao Sul. O vento no rosto o faz sentir-se vivo e o caminho é lindo ao longo do rio Douro. Mais ou menos no local previsto, juntam-se ao pelotão que já está com os músculos pré-aquecidos desde Paços de Ferreira. Mais uma vez partem ao desafio, pernas leves como plumas, a viagem dentro da viagem segue paralela ao mar. Enquanto os outros deslizam suavemente nas suas lindas e esbeltas bicicletas de estrada, ele segue-lhes na roda, fiel à sua querida e grotesca bicicleta de montanha, verdadeiro tractor com as devidas proporções e adaptações.
Para um passeio cicloturístico até que está uma bela manhã e para surpresa e alívio da malta, desta vez, Éolo apareceu para ajudar. Vento de Norte é uma coisa, vento contra é bem diferente. Mais uma cidade desponta no horizonte. E mais outra e outra, a ondulante estrada nacional 109 rasga o litoral luso de alto a baixo. Fazem pequenas paragens para alimentação e hidratação sem deixar arrefecer a vontade. As pernas já reclamam descanso e até as subidas mais ligeiras, nos momentos em que a cadência das pedaladas fica reduzida ao mínimo indispensável, é precisa concentração máxima para enxergar as curvas, os cruzamentos e eventuais condutores de fim-de-semana.
Avista-se a verdejante e convidativa Serra da Boa Viagem, mas que fique claro que a verdejante serra só é convidativa se forem masoquistas, pois ao fim de mais de uma centena de quilómetros já é bastante exigente, e ter um pneu furado no meio da subida só serve para tornar tudo ainda mais memorável. Na descida a paisagem é tão bonita que compensa tudo.
Estrategicamente, na Figueira da Foz, um grupo de ciclistas famintos e cansados tem finalmente o merecido descanso para reposição de nutrientes. Claro está que gostariam também de repor as pernas e pulmões mas têm de se contentar com uns litros de coca-cola, rissóis e pão com chouriço.
Com um terço do caminho ainda por percorrer logo voltam de novo ao asfalto pelas longas rectas que se seguem. Já não sentem as pernas, quando muito sono e ligeiramente a desconfortável tortura do selim. O nosso herói, esse, continua firme, seguindo o velho truque de se ir deixando ficar para trás, muito de leve, muito aos poucos, segurando subtilmente os seus ímpetos em nome da sobrevivência. Mais paragens para alimentação e hidratação que se fazem agora mais demoradas para descansar. Chegam ao início da derradeira subida da Serra da Santa Catarina e livram-se de tudo o que é peso morto, do corpo e da bicla, para o porta-bagagens do carro-vassoura. Após o derradeiro esforço e a reconfortante descida até à Cova, felizes, chegam todos em grupo, triunfais ao fim da grande aventura.
Para algumas pessoas, estes tipos não passam de um grupo de cotas malucos metidos a radicais. Como assim!? Então, se pedalar por sete ou oito horas, até Fátima, fazem-no apenas por puro prazer e vontade? É, o mais importante para eles não é chegar ao destino, a algum lugar. O que importa é curtir a pedalada, apreciar a paisagem e o espírito de grupo até lá. De outra forma eu não saberia descrever esta mistura de adrenalina, vento, gravidade, sol, curvas, verde, sonho, esforço, contentamento, ar puro, calor, carros apressados, pernas pesadas, natureza, vontade.

E mais uma vez espero sobreviver a ela.



Clica aqui para leres o relato da mesma aventura, a do ano passado.
Bom fim-de-semana.

Adenda após o regresso da grande aventura: É claro que sobrevivi, cada vez com melhores e magníficas sensações. Estou como o aço!

quinta-feira, julho 9

serafim

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confere as horas, retira o casaco das costas da cadeira, olha à volta, desliga as luzes e encerra o expediente. Naquele dia a sorte não quis nada com ele. Que diferença faz mais um dia, pensa! Voltar a enfrentar a solidão, voltar já para casa, está fora de questão. Dá uns passos arrastados pelo passeio, pára mais à frente, apaga o cigarro e entra. Por ali decidiu ficar, sentado a um canto naquela sala castanha. Espera um pouco, atira o casaco para o sofá vermelho roçado e faz o primeiro pedido. Apeteceu-lhe algo um pouco mais quente, mais irónico, assim bem forte, o do costume. A música de fundo toca-lhe ao de leve até lhe arrepiar a pele. Recebe o primeiro com pressa, na ânsia de companhia. Pede-lhe que lhe diga qualquer coisa que não seja preto nem branco. O que ele precisa mesmo é de um doce cor de limão, de um ácido mistura de laranja e morango, do sabor do mistério que lhe dará a provar o sabor do fogo na garganta. Sabes há quanto tempo que não o sinto? Confidencia ao copo. Vá, conta-me lá qualquer coisa diferente, gradiente, do roxo ao violeta, que seja transparente, atraente. Estala os dedos para o empregado e pede outro. Canta uma música batida, de letra desconhecida e bate os pés no chão. Em alucinação pede mais um, de limão. Anda comigo sentar-te àquela mesa aos pés do balcão, pega no copo e aproxima-se. A crepitação da canção já é acidental, desfocada. Um pouco mais de amarelo na boca maleável para que o feitiço funcione, uma visão elástica, transparente reaparece. Olááááá… princesa, hoje demoraste!



First Take performs Jamie Cullum
- What A Difference A Day Makes


(depois de ter a foto e a música, o texto não foi difícil de imaginar)



terça-feira, julho 7

con dulce alegría

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Praça da Galiza, Porto (foto Wikipedia)

A caminho do liceu onde eu estudava, o do Infante D. Henrique, tantas vezes perto de ti passei e nem sequer te conhecia. Mesmo sem que desses conta disso, eu ficava atraído por ti, pela tua firme presença, pela forma como me sorrias quando passava perto de ti, logo tu a quem a vida não sorriu. Mas eu não te conhecia e olhava para ti como se fosses uma deusa da mitologia grega, tão elegante estavas, numa postura tranquila e relaxada. Como as mãos artistas de Barata Feyo tornaram uma rocha de granito frio e inerte numa figura tão graciosa e atraente. Percebia até no teu espelho de água verde uma certa vaidade reflectida das tuas origens, mesmo que fossem lágrimas de saudade das tuas gentes. Não mudaste nada. Os anos passaram por ti e tu continuas na mesma, a sorrir às nuvens e aos pássaros, como se o tempo não existisse. Lembro de uma tarde quente de verão, já com as férias grandes à porta. Eu e alguns colegas de turma fomos refugiar-nos aos teus pés e banhar-nos à descarada no teu pequeno mar. E tu lá estavas, iluminada pela sombra das árvores da tua praça, impávida e serena, como uma pomba ferida que permanece para sempre rodeada dos filhos. Nunca antes eu ouvira falar de ti, e de ti só sabia o nome escrito na pedra, Rosália. Alguns anos mais tarde voltei a passar por perto mas estavas tão atenta ao reboliço da estudantada que nem deste por mim. Depois procurei saber mais de ti e da tua obra, quem foi Rosália de Castro. Procurei ler as tuas poesias, saber do teu orgulho pela terra, pelas tuas gentes, pela tua Galiza. Ouvi os teus Cantares Gallegos e percebi o quanto o teu sorriso é genuíno e feliz, de quem brinca e toca piano para os filhos. Mas quem poderia saber o que te ia na alma se a tua poesia chora tristeza e sofrimento? Mesmo sem teres dado por mim confiei-te o nosso menino, mas nem era preciso porque sei que ali cuidas dos filhos dos outros como se fossem teus. Quando os vês chegar pela manhã, a entrar na escola, dás-lhes sempre os bons dias. Pedes-lhes cuidado para atravessar a rua. Sorris quando eles passam perto de ti, distraídos, para o jardim. É claro que percebeste como eles cresceram tanto. Já passaram cinco anos, sabias? O nosso menino e os colegas vão agora para o liceu, para uma outra etapa da vida. Vão conscientes que o patrono Gomes Teixeira, o dos números e das matemáticas, tem razão no pedido que faz nas paredes na sua escola. Trabalhai e sereis úteis, aprendei e sereis grandes. A ti, à escola, a todas as professoras e professores, profissionais e colaboradores, só temos de estar muito gratos pelo jovem que nos ajudaram a educar.


Xente - Berroguetto


sexta-feira, julho 3

afurada by night

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Virada para a Foz do Douro, a Afurada tem umas magníficas e únicas vistas sobre a margem ocidental da Cidade do Porto e a sua luz, ao fim do dia, é simplesmente deslumbrante. O seu santo padroeiro é o São Pedro e a festa é lhe dedicada com grande devoção. Gentes de trabalho e fiéis às tradições, todos os anos os pescadores prestam a devida homenagem ao Santo, com toda a pompa e circunstância, onde para além das cerimónias religiosas, se procede à bênção dos barcos. Há um par de anos, a vila foi alvo de uma profunda intervenção ao nível paisagístico e de ordenação de território, o que lhe conferiu uma merecida modernidade e, apesar de uma grande mudança, a Afurada está hoje mais bonita mas sempre típica.
Ontem à noite, lá fomos nós em família mais uma vez cumprir a nossa tradição de degustar umas grandes, gordas e suculentas sardinhas assadas à Afurada, muito bem regadas com um verdinho que até trepava pelas paredes.



Depois veio a diversão e, numa espécie de antevisão da próxima final da Liga dos Campeões, disputamos um renhido e sério Porto-Sporting nos matrecos. É claro que o Porto ganhou de goleada



De seguida, já com a taxa de alcoolemia dentro dos limites legais, fizemo-nos à pista de carrinhos de choque para perceber quem teria mais jeito no engarrafamento.



Não, não pensem que foi a mensagem subliminar, que se lê como aviso, que me fez tirar esta foto a um carrossel!



E ao fim da noite não fomos capazes de resistir à gula e assim metemos as mãos a umas gordurosas e doces farturas.
Foi cá uma farturinha!

Um Bom e Festivo fim-de-semana para todos.

quinta-feira, julho 2

ouve... sem preconceito

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Estes são dias das mãos abertas e não serão os últimos. Olha á tua volta. Estes são os dias dos mendigos e dos oportunistas. Este é o ano do homem faminto cujo lugar está no passado, de mãos dadas com a ignorância e legítimas desculpas. Os ricos declaram-se pobres e a maioria de nós não tem a certeza se temos muito, mas aproveitemos todas as oportunidades porque Deus parou de o fazer. Acho que algures, ao longo do caminho, Ele deve ter-nos deixado de fora, a jogar. Virou as costas e deixou os Seus filhos rastejarem pela porta das traseiras.

E é difícil amar, há tanto a odiar, esperançados quando não há esperança para dar. E o céu ferido, sobre nós, diz que já é demasiado tarde! Bem, talvez, todos nós, devêssemos rezar por tempo.

Estes são dias de mãos vazias, agarramo-nos a tudo o que podemos e a caridade é um casaco que usas duas vezes por ano. Este é o ano do homem culpado, a tua televisão toma o seu lugar e tu descobres que o que estava ali, está aqui. Então gritaste por detrás da porta, disseste "o que é meu é meu e não é teu", talvez tenha demasiado mas aproveitei as minhas oportunidades porque Deus parou de o fazer! E dependes daquilo que te venderam, tapaste os olhos quando te disseram que Ele não voltaria mais porque não tem mais filhos por quem regressar.

E é difícil amar, há tanto a odiar, esperançados quando não há esperança para dar. E o céu ferido, sobre nós, diz que já é demasiado tarde! Bem, talvez, todos nós, devêssemos rezar por tempo.




Esta canção, Praying for Time (Rezar por Tempo), aqui com tradução minha, foi o primeiro single a ser extraído do álbum Listen Without Prejudice Vol. 1, de 1990. Com esta música, George Michael quis transmitir uma escura e sombria reflexão sobre os males e injustiças sociais da época. Digam-me lá se não permanece tão actual?



terça-feira, junho 30

ao ar, ao sol, à descoberta

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Imagem rapinada à sucapa do Ares da Graça da Patti

Nem foi preciso um sinal, prémio, ou mesmo um empurrãozito, para que eu me estendesse ao comprido... digo, para que estendesse neste arame alguns segredos meus que a Patti me propôs revelar. Pondo de lado o pouco jeito que tenho para a coisa, coloquei as mãos de molho, sacudi os preconceitos e estendi aos ares frescos da manhã alguns dos meus segredos neste estendal, para que seque a vergonha e brilhem as cores. Prendo-os com molas seguras, não que receie o vento mas antes porque ao prende-los fiquem mais descobertos e verdadeiros.

Mania: não tenho a certeza que seja uma mania mas que por vezes é um mau hábito, lá isso é! Quase nunca tenho pressas, mas não é por isso que teime em não usar relógio;
Pecado: Há algum tempo que a gula bate a preguiça aos pontos. Antes eram ela por ela, unha com carne;
Melhor cheiro do mundo: o aroma da cozinha da minha mãe. Também gosto bastante do cheiro da terra quente depois de uma chuva súbita;
Se dinheiro não fosse problema: o dinheiro é importante mas não é tudo;
Caso de infância: a timidez, que se tornou tão natural que ninguém já dá conta dela;
Habilidade como dono da casa: tenho aspirações a ser um dia dono da casa e também a ter uma empregada de limpeza. Como não a tenho e tendo a certeza de, pelo menos, ser o dono do aspirador, sou eu que aspiro a casa;
Não gosto de fazer em casa: pôr a roupa no estendal, bem disse que não tinha jeito para a coisa, e ter de a passar a ferro;
Frase: Não digo tudo o que penso e não penso em tudo o que digo;
Passeio para o corpo: e não só. Vou por aí sentado na minha bicicleta, com ela, perder o rumo;
Passeio para a alma: com muita calma a sentir o vento, descontrair a mente com o meu amor e a companhia do mar;
Irrita-me: pouca coisa. O egocentrismo, a chico-espertice, a inveja, a impaciência, a intolerância, a arrogância, mas essas péssimas características já estão incluídas na primeira resposta, por isso pouca coisa me irrita seriamente, para além do trânsito;
Frase ou palavra muito usada: o bom dia e o faxabôre;
Palavrão mais usado: o carago e de vez em quando alguns mais universais, os gestuais;
Desço do burro, subo o morro e rodo a roda: quando pedalo a bom pedalar e me fazem parar. É claro que estou a brincar. Dificilmente me viram do avesso e se me virem a visão não deve ser mesmo nada agradável.
Perfume: não é o Patchouli mas é também 100% natural, é a pele;
Elogio favorito: quando é sincero eu aceito mas quando é exagerado digo apenas, vai chatear outro;
Talento oculto: é tão mas tão oculto que ainda não o encontrei. E se alguém o descobrir por mim que me diga qual é;
Nem que fosse a última moda eu não usaria nunca: bigode;
Queria ter nascido sabendo: o que sei hoje.

Agradeço à minha querida vizinha e PresidentA da Associação Recreativa e Cultural deste Blogobairro Social, mas não me apetece agora passar o questionário a outros vizinhos. Com certeza deverá entender que ainda estou com uma enorme perguiça veraneia.

segunda-feira, junho 29

pronto

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Vou ficar por aqui e deixar que as palavras fluam à minha cabeça. Aliás, elas já cá estão, complicado é conseguir fechar os olhos, relaxar e deixar que cada uma delas ocupe o seu lugar, pois no congestionamento de verbos e adjectivos alguém tem que ceder a passagem, não é? Vou deixar que as ideias ganhem o seu espaço e tornem o objectivo mais prático pois caso contrário fica tudo num emaranhado de palavras com sentidos que, de tão diversos se tornam confusos e sem sentido. Não sei bem qual é a ordem mas deve recomeçar pelo princípio, passar pelo meio e deixar-se desenrolar até ao final, numa balbúrdia desordenada ao ritmo da batida dos dedos no teclado. Aliás, fazia-me jeito um teclado novo!


sexta-feira, junho 26

distracção...

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...devaneio; imaginação; pensamento; condição de estar perdido em pensamentos; condição de estar a sonhar acordado... Acho que vos dou razão, este blogue está uma pasmaceira. O gabinete está profundamente mergulhado num marasmo. Tenho andado desligado, não tenho feito as minhas visitas aos blogues amigos. Faz tempo que não deixo um comentário nos vossos cantinhos, uma espécie de síndrome de rejeição apoderou-se de mim e tirou-me qualquer vontade de passar horas à frente do monitor. E quando finalmente me detenho aqui, fico parado, perco-me à procura nos cantos empoeirados da minha massa cinzenta o que escrever neste teclado. Às vezes lá sai qualquer coisa o que nem sempre quer dizer que lhe tenha dado toda a dedicação. Afinal eu não penso só nisto. Tenho procurado dar mais atenção a quem me rodeia, ao que me alimenta. As responsabilidades acumulam-se ao longo da vida, e o trabalho, mesmo sem vontade, tem sido um pouco mais exigente. Apenas troquei o tempo por um prazer diferente. Em frente ao mar procuro descontrair a mente, sentir o vento, sentado na minha bicicleta procuro sentir o corpo, perder o rumo. Examinando o meu álbum fotográfico, detenho-me numa foto antiga e dou por mim a fazer contas de quando teria sido tirada. Espantei-me por constatar que tem mais de vinte anos. Lembro-me vagamente da ocasião, mas o suficiente para entender o significado da passagem do tempo. Sempre e mais uma vez o tempo. Falta uma hora para amanhecer e não tenho sono. Vou ler, olhar mais fotografias, pensar e repensar. Vejamos o que virá a seguir. Sinto falta de vos lêr, bem breve farei uma visita. Estava mesmo a precisar destes dias de férias!

Bom fim-de-semana.



terça-feira, junho 23

a noitada

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À hora marcada, respondendo ao chamamento inebriante de um aroma apetitoso de odores doces e salgados, fortes e quentes que pairavam no ar, lá estávamos nós prontos e esfomedados para uma noite tradicional de euforia. Ao virar da esquina, contornando-se a barraquinha de tiro ao alvo, onde bonecos de variados tamanhos e tipos, caixas de jogos de lençóis, pratos pintados e garrafas de vinho se exibiam em recompensa, logo se descobriam os arredondados bolbos de alho-porro a dançar sobre as cabeças e irritando narizes. O cheiro a sardinhas e pimentos assados era cada vez mais intenso e atraente, um sinal de ansiedade para os nossos estômagos. Depois vinha o caldo verde com broa, as fêveras e o frango assado, tudo muito bem regado com o verde branco da casa e a inseparável Super Bock. O Porto inventou a noitada de São João e ela tinha sempre início nas Fontainhas. Música popularucha a sair alta e distorcida dos altifalantes, misturada com a barulheira de apitos, os vozeirões de cantorias e risadas dos tripeiros, pequenos grupos de todas as idades que se juntavam espontaneamente, formando rusgas de foliões cada vez maiores, de mãos dadas, serpenteando em correrias animadas entre mares de gente com ramos de cidreira e martelos de plástico na mão. Dali à Ribeira era um tirinho, quando se descia em louca correria as calçadas do burgo para se chegar a tempo de assistir à largada de balões e ao fogo-de-artifício. Depois, para voltar, era só escalar a Rua de S. João e a Mouzinho da Silveira até à Praça, sem antes atestarmos as panças com o carburante de cerveja. No palco montado na Praça, o conjunto musical levava a populaça à loucura total, e nem esse bailarico todo levava o pessoal a dar sinais de cansaço pois muito havia ainda a percorrer. Bora lá até ao Palácio? Bora lá! E a noite prosseguia nas voltas dos carrocéis, das cestas, à volta da mesa das barracas de farturas. Entretanto dava-se início ao mini campeonato sanjoanino de matraquilhos. Quem chegasse primeiro tinha o direito de escolher o parceiro, os restantes matrecos ficavam para a equipe adversária. A cada moeda de 5 escudos, o pessoal dava o seu melhor e o bota-fora era o esquema implantado para que ninguém reclamasse do árbitro. Enquanto alguns já jaziam deitados nos jardins do palácio, sucumbindo às marteladas nos braços das amadas, o maralhal rumava alegemente, entre chuvadas de marteladas, em direcção à Rotunda da Boavista, para nova rodada de divertimentos e de louras fresquinhas. Às tantas, já a luminosidade e a orvalhada matinal se faziam sentir, quando os bravos guerreiros se erguiam da ressaca e corajosos, aos pares, davam início à última e longa caminhada Avenida da Boavista abaixo para finalmente sucumbirem, também eles, ao cansaço e extremos báquicos no areal das praias da Foz, assim numa espécie de desfrute final da noitada de festa. Há diversos rituais da noite de S. João que desapareceram ou vão escasseando. Este ritual de percorrer quase toda a cidade, numa longa e bem regada noitada em êxtase, deixei-a para outros mais jovens a fazerem perdurar às mudanças do tempo. Agora, crescido, envelhecido e mais tranquilo, percorro a cidade com outros olhos, junto do meu amor, numa noitada de São João. Só mais uma coisa. Ontem à tardinha, enquanto esperava pelo semáforo verde numa das artérias da cidade, não resisti ao sorriso meigo e pedido tímido que uma linda menina me fez, o tradicional: Ó senhor, dê uma moedinha ao São João!