segunda-feira, junho 13

passagem

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... Se achares que precisas voltar, volta!
Se perceberes que precisas seguir, segue!
Se estiver tudo errado, começa de novo.
Se estiver tudo certo, continua.
Se sentires saudades, mata-as.
Se perderes um amor, não te percas!
Se o achares, segura-o!"

Fernando Pessoa


terça-feira, junho 7

nos caminhos do romântico

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A tarde de 6ª feira estava porreira e eu carente de um arejo. Encerrado o expediente, aproveitei para dar uma volta numa zona que é uma autêntica ilha de tranquilidade no Porto, uma cidade de contrastes que contribui para ser uma cidade tão especial. Os Caminhos do Romântico seriam o cenário perfeito para desopilar e testar a resistência dos travões à Etielbina que me levará por outros caminhos até Santiago (mais lá para Julho).

O Porto tem esta primazia, tem duas faces bem diferentes entre si. De repente sai-se da confusão das ruas de D. Manuel II e de Júlio Dinis para a tranquilidade de cenários distintos e esplêndidos com uma vista bucólica sobre o rio Douro. Há pequenas hortas, matas, muros de pedra, quintas da nobreza e burguesia, fontes, chafarizes, lavadouros, gatos sem dono e um silêncio que impressiona. É a aldeia em plena cidade. Mas iniciado o passeio o cenário piora e a decepção rompe o encanto. Aquela que foi considerada uma das obras marcantes da Porto 2001, mereceu relevância no programa eleitoral do edil camarário e posterior promessa de reabilitação desta zona mas nunca teve seguimento. A ambição de transformar este espaço privilegiado num pólo de atracção turística e urbana desvaneceu-se por entre os meandros da burocracia da autarquia portuense. A atracção turística passaria pela delimitação de cinco percursos pedonais, cada qual com um tema ligado à história de Massarelos.

Sem se conseguir decifrar as informações das placas, a curiosidade determina a rota a seguir. Os Caminhos do Romântico apresentam um pouco das contradições do Porto de Oitocentos, romântico e burguês, rural e industrial. Tendo como ponto de partida os jardins do Palácio de Cristal, escolhi o primeiro percurso, Porto do Romantismo. Os outros percursos são: O Aproveitamento da Água, Arqueologia Rural e Industrial e do Gólgota a Massarelos.

Num local abrigado do ruído citadino, protegida por grandes muros, encontra-se Quinta da Macieirinha um dos mais belos espaços verdes da cidade e a Casa Tait, que serve como Gabinete de Numismática municipal. Na estreita Rua de Entrequintas, há um painel a indicar o início caminho. Pouco ou nada se consegue ler, dada a quantidade de riscos e rabiscos que o cobrem. Aliás, os grafitos são uma epidemia nestes caminhos. Não há parede, poste de iluminação ou balde do lixo que tenha resistido às tintas e canetas de quem se esconde. São os grupos que à noite se esgueiram para os recantos dos estreitos Caminhos do Romântico.


Os sinais de abandono e vandalismo roubaram parte do romantismo das ruas e trajectos pedestres traçados no vale de Massarelos. A zona encontra-se muito degradada, multiplicando-se as casas abandonadas e os actos de vandalismo. Já lá não mora quase ninguém, as casas foram ficando em ruína e as pessoas realojadas em bairros. Nos terrenos que escaparam ao abandono resistem pequenas hortas, preservadas para a subsistência das pessoas pobres que lá vivem.


O caminho vai depois desembocar na Rua da Restauração. Desci-a e segui a marginal, dando privilégio uma panorâmica privilegiada ao meu passeio o privilégio da panorâmica na companhia de um velho e leal amigo, o Rio Douro. A autarquia reconhece a degradação e abandono dos percursos dos Caminhos do Romântico no entanto romança paixões barulhentas e esbanja noutros caminhos reservados para as poluentes corridas de carrinhos de choque do seu inquilino!

domingo, junho 5

troika de poder

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Os portugueses voltaram a decidir o truque, como transformar uma rosa numa laranja. Veremos por quanto tempo a ilusão não se transformará de novo em desilusão.


quinta-feira, junho 2

haja saúde

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Certo dia uma colega avistou-me a chegar de bicicleta ao jardim da instituição onde trabalhamos. Mais tarde, numa pausa para o cimbalino, o tema “pedalar para o trabalho” foi assunto de conversa e ela, com um certo ar fascinado, saiu-se com esta: “Hummm, a pedalar tanto assim deves estar com umas boas pernas!”. Não desconversei e respondi: “Sim, e menos barrigudas!”. Ok, eu percebi onde ela pretendia chegar com o “boas”. Será que se nota assim tanto? É que eu uso calças largas!

O facto de pedalar de bicicleta para o local de trabalho sempre gera os mais diversos comentários, o que não acho estranho pelos diferentes hábitos que adquirimos, de práticas que achamos “normais”. Pondo de parte a questão económica e ecológica, a bicicleta chama para si muitos outros ecos de interesse: capacidade física, liberta a mente, dá saúde.

Com o acréscimo de sedentarização no estilo de vida, as escadas rolantes, os elevadores, os automóveis, o ser humano amoleceu, relaxou e acomodou-se. Não importa se gordas ou magras, as pessoas estão enfraquecidas. Ofegam ao subir um vão de escada, enquanto um ciclista a sobe de dois em dois degraus sem dificuldade. Num mundo de pessoas medrosas muitas vezes passa a imagem de poder, que os ciclistas urbanos são enérgicos, fortes e vigorosos, de ser muito corajoso enfrentar o trânsito. Impera algum cagaço na sociedade mas a cultura da bicicleta vai, aos poucos, se sobrepor à indústria cultural do medo. Por isso suamos as estopinhas também a provar que não é preciso assim tanta coragem em pedalar no meio de carros blindados. Eu não pedalo diferente dos demais ciclistas. Não sou super, sou apenas um humano que pedala e, como qualquer outro ciclista, assim o meu corpo funciona melhor.

As pessoas que andam regularmente de bicicleta poupam muitas visitas ao médico. Na saúde, os benefícios das pedaladas são imensos: o exercício aumenta a capacidade respiratória, alivia dores nas costas, diminui o colesterol e a pressão arterial, auxilia o emagrecimento, atenua o stress e as tensões. O prazer proporcionado pela bicicleta contribui para a sensação de bem-estar. Proporcionando a sustentação do corpo através de uma postura correcta, a bicicleta ajuda a fortalecer o abdómen, fortalece e define os músculos, deixa as pernas e o rabo tonificadinhos.

Mover-se é da nossa essência e, portanto, é estético, pois o belo e atraente é o que a natureza nos ensinou a procurar e desejar, não necessariamente jovem, não necessariamente musculado, mas saudável. E mais a mais pedalar é sexy. Não importa a idade, se gordo ou magro, se homem ou mulher, se adolescente ou adulto, querendo ou não, o ciclista é sempre objecto de curiosidade e motivo de desejo… rhummm… rhummm… desculpem, foi a Liz Hatch que me caiu no goto…


E ainda há quem que não goste de bicicletas!!! Haja saúde.


segunda-feira, maio 30

e a caça é da grossa

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A época oficial da caça ao voto prossegue intensa e à lei da troika. Os interessados saem do covil em busca das suas presas, os eleitores indecisos e necessitados. A campanha eleitoral entrou na semana decisiva e os predadores políticos já cercam os redutos eleitorais na ânsia de abocanhar as suas vítimas. Na caça ao voto o caçador é por demais sagaz e sabe muito bem o que quer. A fauna eleitora é ingénua e está desprotegida sempre à mercê dos ataques. O desfile de engodos aquece o entusiasmo, as arruadas sobem à cabeça dos candidatos à governação, e os tiros para o ar misturam-se com os trovões e molhadas que S. Pedro tem ofertado. Está muito renhida a caçada ao ponto das sondagens anunciarem um empate.

José Sócrates, qual caçador furtivo, dispara em todas as direcções, tendo já acertado várias vezes no seu dedo grande do pé esquerdo e em dois ministros que iam a passar. À custa de tanto tiro falhado não se perspectiva repetir a sua melhor época. Espantou a caça toda e anda agora com armamento pesado completamente desadequado. Anda armado até aos dentes com um canhão de optimismo ao melhor estilo dos caça fantasmas. A polvorosa de beijocas e bacalhaus não deixam margem para exercícios de carácter e requerem a mira mais apurada para não dar de caras com um funcionário público. Apesar de as audiências estarem a diminuir os autocarros chegam pejados de reformados à procura da merendinha.

À custa de tanta falta de jeito para as armadilhas, Passos Coelho continua evasivo. Apresentou-se à caça com material titubeante, muita pólvora seca e falta de pontaria, nomeadamente ao calo do seu pé direito. Os seus fiéis perdigueiros partidários farejaram estratégias mas não conseguem convencer os “bichos” a irem de livre vontade para dentro da jaula. Antigos caçadores do PSD foram chamados a aguçar as setas laranjas e saíram com a sua arma de destruição massiva em batida à raposa socialista. Manuela ainda acossa o inimigo e afia as garras a votos caídos por danos colaterais, sabendo que os descontentes com o governo se deixam apanhar mais facilmente.

Paulo Portas elege a pesca submarina. Tudo o que vem à rede é peixe, diz, e lança o arpão aos votos dos desfavorecidos que costumam habitar as feiras e os mercados. Já os eleitos para se empanturrarem em jantares-comício, onde a malha é mais apertada, por não conseguirem fugir são facilmente apanhados. PP até já sonha vir a ser primeiro-ministro garantindo que formará a invencível armada submarina para afundar..., isto é, governar o país. Não, ele não disse isto nos debates, foi mesmo um devaneio que teve. E se não chegar a primeiro-ministro pelo menos quer ser ministro de alguma coisa.

Jerónimo permanece adepto da caça desportiva. Sabe que o voto na CDU nunca o irá levar ao governo mas mesmo assim dá um tirito ou outro enquanto sorve mais um copinho de tinto. Esta época, os caçadores comunistas estão particularmente focados nos votos mais novos, “sobretudo ao pequeno-almoço, porque são mais tenrinhos e dão para fazer uma canja extraordinária”, porque é pelo estômago que se agarram os votos. Ele está ciente que as expectativas excedem em muito tudo o que pensava antes do início da caçada e mesmo que o pecúlio continue escasso virá para a praça pública propagandear a sua vitória.

O caçador mais perigoso de todos é o Louçã porque com aquela voz de seminarista a apontar aos votos intelectualizados, da classe operária à classe média, vai tentando hipnotizar as suas vítimas. É fiel às suas convicções e tácticas de caça do Bloco e acredita que sendo postas em prática de certeza absoluta de que a economia nacional levará a maior implosão de que há memória. Crê que conseguirá a maior colecta de sempre e, embora diga que não se coligará com os socialistas, também ainda não explicou como vai conseguir chegar a ministro para depenar a classe alta.

A caça de subsistência ainda é praticada por outras comunidades indígenas que na ânsia de conseguirem um lugar à mesa no assento parlamentar exploram regiões mais isoladas do universo partidário português. Para todos eles apenas lhes resta a caçada aos gambuzinos.

A caça ao voto não mudou nada nestes 37 anos. Basta recordar como têm sido feitas todas as campanhas. Alguém se lembra de ver um partido a fazer uma campanha eleitoral a falar aos portugueses do que pretende fazer se for eleito para formar governo? Ninguém. e por um motivo muito simples. Porque gastam o tempo de antena só a acusar uns aos outros em vez de falarem deles próprios e dos seus programas. Bem sei que é uma forma airosa de meterem a viola ao saco e não cumprirem as promessas que fizeram na ânsia de obter o voto. Há milhares de votos sem dono, num país deprimido e oprimido, onde vale tudo menos arrancar olhos. Quer dizer, se for preciso arrancar um ou outro, também não seja por isso. As técnicas são muitas e passam por vários meios até o papelucho entrar na ranhura da urna. O político nacional percebe tanto de caça como uma perdiz de finanças públicas. Sai à rua para caçar ursos com fisgas. O ambiente de festa é criado para o momento, nem que para isso seja preciso usar algum fogo amigo, ou seja os meios autárquicos partidários da mesma cor. O ambiente rural, que leva a beber um copinho de tinto às 9 da manhã. O ambiente popular, propício a beijar putos ranhosos e pessoas em geral, algumas de higiene duvidosa. Todos sabemos que a gente se deixa caçar de qualquer maneira. O povo quer e põe-se a jeito. E neste país o cidadão que se põe a jeito já está caçado. Só falta pôr uma maçã na própria boca e deitar-se em cima de uma travessa. O cidadão indeciso, aquele que o político procura apanhar, não está para grandes dissertações sobre a situação económico-financeira do país. O povo que é na sua grande maioria simples, e na sua intelectualidade gente que sente e pouco sabe, está cansado de ser maçado pelas projecções dos querem ganhar a todo o preço. O que deve ser avaliado é o trabalho, a ética, o carácter das pessoas. Apesar de viver com dificuldades, não precisa que gajos que não sabem o que isso é venham dizer que compreendem que tem de pagar contas no final do mês. Compreendem! Exactamente, o quê? Quando gastam milhares de euros na campanha? Os políticos não compreendem nada do que é a vida de um cidadão. O povo está cansado de manipulações políticas, e muitos decidem o voto na hora do voto ou, na larga maioria, nem lá põem os pés. Este estratagema não dá mais resultado. Uma campanha limpa é mais vencedora. Os actuais políticos são os grandes perdedores pois enquanto deveriam apresentar soluções, projectos com uma política séria, perdem tempo com o passado, remoto e recente. Se querem ser bem sucedidos nesta coisa de caçar votos, não podem endrominar ainda mais. Sejam claros na mensagem, empenhados na transparência e digam em verdade o que vão fazer. Sem relambórios. Sem falsos argumentos. Cabe agora a cada um de nós não desiludir estas pessoas que arriscam a honra, o carácter e a idoneidade para nos governarem. Por isso votem e, por muito que vos custe, tentem levá-los a sério.