A maior ambição do homem é o microfone. Dêem-lhe um microfone e ele falará um qualquer discurso, dirá o que lhe vai na alma, cantará um bailinho da Madeira - e a isso me refiro a dar atenção, abrir os olhos e dar ouvidos, ok, vocês entenderam. Talvez uma estória interessante aqui ou ali, mas de facto, resumindo o texto, haverá um ou outro momento em que sairá uma qualquer asneira. Ah, como o ser humano fala barato. Apontem o microfone à vox populari que o povo opinará absolutamente sobre tudo. Se o assunto for futebol ele chamará a atenção para si. No que toca à política, mesmo que entenda pouco ou quase nada do assunto, fala, fala, fala, e no final não dizem nada. Mas todos têm opinião. Caso goste de discorrer uma conversa da treta então é melhor dedicar-se ao croché pois ele terá uma longa estória para contar. E melhor que a sua. Falar das novela da vida, ui, isso acontece o dia inteiro. Personagens, jargões, cenas divertidas, se não perceber do tema é melhor prestar atenção. Nos primeiros minutos escutamos, ou fingimos bastante bem. Na verdade, vamos juntando argumentos para uma boa desculpa e sair de fininho.
Ou o orador tem o dom de prender audiências ou então está feito. Ele deve ter uma piada preparada para o melhor momento, falar alto, rir mais alto porque o riso contagia, deve dissertar a sua história como a mais interessante do que alguma vez já foi. Até pode ser muito chato mas ele está ali de microfone na mão para chamar atenção. A verdade é que todo mundo tem seu momento de microfone na mão. E não adianta se esconder. Toda a assistência está de olho arregalado e ouvidos bem abertos. “E quem é aquele?!"
Todos temos um momento onde somos ouvintes, mas também tem um momento onde falamos pelos cotovelos. Com a esposa, com os filhos, com os amigos à mesa de jantar. Alguns falam muitas banalidades. Outros possuem um vozeirão e nem necessitam de microfones. Quem tem voz, quer falar, não é mesmo? E que bom seria se todos nós discutíssemos apenas sobre o que entendemos. Se discutíssemos apenas sobre o que entendemos, o mundo teria conversas mais interessantes. Por isso repito, o grande problema do homem é o microfone. E o grande problema, insisto, é que não gosto do microfone. Não tenho dotes oratórios, nem de estar especado no palco. Gosto de ficar na plateia, de ser um entre pares, um tipo simples, humilde e até corajoso, mas quando me dão um microfone para a mão… mas aí fica o silêncio. Tenho vontade é de escrever. Aliás, não sei se deu para perceber, mas isso está a acontecer comigo desde que comecei o texto.



