segunda-feira, junho 4

escreve-se direito por guias sem fotoshopas

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sexta-feira, junho 1

reposte [21] doce ocasião

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A caminho de casa entra numa pastelaria para tomar um chá e trincar meia torrada. Na realidade está a adiar o momento de voltar a casa. A perspectiva de encarar os filhos a assusta. Gostaria de lhes levar boas novas, de coroar o final do dia com um “consegui”. Mais um dia nesta desesperante procura de um emprego, um trabalho, um biscate, qualquer coisinha que lhe alterasse o quotidiano e a auto-estima. Da sua ainda curta vida ela pretende apenas recolher algo de útil, fruto da sua prática, que a fizesse mais digna de ser vivida. Nesta busca por um futuro melhor, na constante perseguição do sim, qualquer palavra escutada, qualquer instante testemunhado, a torna numa atenta observadora à primeira oportunidade. Mas, sem nada que lhe prenda a atenção, baixa a cabeça e dá um gole no chá, enquanto lança um último olhar ao seu redor, onde outras almas adejam os seus assuntos em silêncio.

A um canto do salão, numa das mesas vazias encostada à parede, um casal de meia-idade acaba de se sentar. O alinho humilde, a contenção de palavras e de gestos, deixa-se enobrecer pela presença de uma menina, bem pequenina, de laço na cabeça e vestidinho esbatido nas cores, que com eles se senta à mesa. Mal consegue baloiçar as perninhas curtas mas percorre veloz com os olhos, sorridentes de curiosidade, tudo ao seu redor. Generosa fica a observá-los.

O homem, depois de contar as moedas que discretamente retirou do bolso, aborda o empregado, inclinando-se para a frente e apontando para a vitrina do balcão. A senhora, discreta mas impaciente, limita-se a olhar para a pequenota. Suspira enquanto lhe ajeita a fita cor-de-rosa que segura o cabelo. O empregado encaminha o pedido do freguês. Avó... avó..., clama a criança, apontando para o homem que trás um pratinho com uma simples fatia de bolo de chocolate. Contida na sua espera, a menina contempla agora o pratinho e a garrafa de sumo que o empregado deixou à sua frente. Por que não começa a comer?, matuta Generosa. Dá conta que os avós e a neta cumprem um discreto ritual. A avó remexe num pequeno saco de plástico e dele retira qualquer coisa. O avô agita um isqueiro na mão e espera. Quieta, a netinha aguarda também. Mais ninguém os observa além de Generosa e percebe então que naquela mesa se prepara algo mais do que saciar a fome.

São três velinhas, brancas, minúsculas, de tamanhos diferentes que a avó delicadamente espeta na fatia do bolo. E enquanto ela deita sumo para um copo o avô acende as velas. Muito compenetrados e discretos, os adultos balbuciam um cântico em uníssono: "Parabéns a você, parabéns a você...". Como um gesto ensaiado, a menina baixa a cabeça, quase encosta o queixo na madeira, e sopra a chama das velas. Imediatamente sorri e põe-se a bater palmas. A avó retira as velas, torna a guardá-las, a pequena aniversariante agarra finalmente o bolo com as suas mãos inquietas e come. A avó mira-a com ternura e limpa as migalhas e pepitas de chocolate que lhe caiem ao colo. O avô percorre os olhos pela sala e fita Generosa que estática se comove com a celebração. Seus olhos se encontram e ele constrange-se. Baixa ligeiramente a cabeça e ameaça vacilar mas contem-se, abrindo enfim um largo sorriso de satisfação.

domingo, maio 27

foi há 25 anos

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Passa hoje um quarto de século desde o famoso calcanhar de Madjer, o gesto mágico que proporcionou uma genuína reviravolta e uma das maiores alegrias da minha vida. O então desconhecido Futebol Clube do Porto vencia o todo poderoso Bayern de Munique com dois golos que permanecem ainda na memória de todos os portistas e amantes do desporto rei. Afirmação definitiva do clube do meu coração no historial do futebol europeu. E é da memória que bem guardo, que retiro as circunstâncias alegres e emotivas como vivi esse marcante momento.


Uma semana antes na grande final havia eu assentado praça no quartel da Escola Prática de Engenharia em Tancos, para o serviço militar obrigatório. Eu, militar? Só mesmo obrigado! 

Após a alvorada daquele dia, 27 de Maio de 1987, as tropas recrutas fardadas de equipamento de ginástica formaram na parada do aquartelamento do Casal do Pote. A manhã despontou soalheira mas vindo de leste, encanada entre as camaratas, soprava uma fleumática brisa ribatejana de fazer arrepiar os esqueletos. O meu estado de espírito não seria dos melhores, não só porque estava ali numa triste figura, mas sobretudo porque estava certo que não haveria a mínima possibilidade de via a assistir pela televisão à grande final. Aos recos, conhecidos também por recrutas, apenas lhes cabia a disciplina e prestar obediência. Só ao fim de seis semanas de recruta seriamos promovidos a maçaricos e conquistaríamos o direito de frequentar o bar de praças, local onde sabia existir o único televisor disponível. Restava-me pois a fé e um rádio a pilhas para me manter informado das incidências da partida. 

Depois do rancho, já a caminho das camaratas, deram-nos a imprevista e a melhor das notícias. O Sargento Soares, portista dos sete costados e que mal conhecia, mas que a partir desse dia jamais esqueci, havia desenrascado uma autorização superior para que todos pudessem assistir à grande final e lá providenciou um aparelho de televisão no refeitório. Após a ceia, impreterivelmente servida às 18:30h, arrumou-se a sala, alinharam-se as cadeiras e sintonizou-se a antena para vermos a transmissão da bola. 

Quando foi apitado o pontapé de saída, já todos os feijões verdes estavam a dar palpites e a gracejar insultos ao árbitro. A larga maioria era adepta de outras cores, e poucos, muito poucos, roíam as unhas. A primeira parte não nos correu de feição e passou rápida. Ao intervalo, eu e o Neves saímos para verter águas, inspirar um cigarro retemperador e acreditar. Ao apito do árbitro para a etapa complementar, voltaram à sala apenas três fiéis adeptos azuis e brancos crentes numa reviravolta. Eu o Neves e o Sargento Soares, que se juntou a nós dizendo estar farto de ouvir bocas dos sarjentos mouros! Todos os restantes ou foram engraxar botas ou espreitavam para nos fazer troça com piadas da praxe. Mal eles sabiam que esses treze heróis (os onze iniciais mais o Juary e o Frasco) iriam voltar ao campo de batalha para conquistar a mais bela vitória frente aos bávaros. O famoso calcanhar de Madjer e depois a rompante arma secreta do plantel portista, o Juary, conseguiram uma das mais genuínas reviravoltas numa final europeia.

Soado o apito final do jogo e nem foi preciso dizer mais nada. Em delírio, exultados de incontida alegria, abraçados num choro a soluçar como uns meninos, desatamos a cantar "Porto, Porto" em uníssono enquanto alguns dos descrentes voltavam incrédulos, curiosos com o que havia sucedido. O capitão João Pinto corria agora louco pelo relvado, com a taça bem segura pelas mãos pousada na cabeça e eu imitava-o, empunhando firme as garrafas de cerveja mini que iam parar à minha mão em substituição do vasilhame. Subitamente um estranho sentimento, misto de euforia e tristeza, se abateu sobre mim quando me apercebi de que faltava mais qualquer coisa, o mais importante. Não poderia estar junto de quem queria estar, na festa dos dragões a festejar pelas ruas da Invicta rodeado das gentes tripeiras. E ali fiquei, sentado na soleira da porta a nortear o olhar no horizonte que entretanto escurecia, de pensamento perdido até ouvir o soar da corneta para o recolher.

quinta-feira, maio 24

vou ver se os guardo para não me esquecer

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terça-feira, maio 22

menina bonita

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...menina madura, mulher menina.

O teu sorriso encanta e me hipnotiza, o teu beijo me vicia, o teu olhar terno e acolhedor nos conforta.

Faz-me sentir bem.

Faz-me querer ser uma pessoa melhor e pensar só em coisas boas.

Quando abro os olhos depois de um beijo teu só tenho vontade de os fechar de novo.

Porque eu quero que nunca acabe.

Quando embirramos eu me acho um parvo, um ignorante e me arrependo um segundo depois.

Porque te amo...


Feliz aniversário.
 


quarta-feira, maio 16

querer não é poder

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quinta-feira, maio 10

“não tem nada que enganar”…

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… ou do tipo quem tem pernas vai a Roma!

domingo, maio 6

a todas as mães

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Para que este dia não passe em branco, qualquer outro dia serve para dizer palavras carinhosas a todas as mães. Às mães de primeira, às mães de segunda, às mães de muitas viagens, às mães de aluguer, às mães sogras, às mães biológicas, às mães galinhas, às filhas da mãe, às mães Natal, à santa mãezinha, à mãe Natureza...


quinta-feira, maio 3

o Pingo Doce e os corvos marinhos

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Guilin, no Sul da China, é o lugar mais belo onde já fui, as aguarelas fazem-lhe justiça. Em Guilin vi a mais dura das metáforas. À noite, no rio Li, os pescadores saem em jangadas de bambu e levam cormorões, corvos-marinhos, aos quais atam o longo pescoço com um fio. O pássaro mergulha, apanha um peixe e atrapalha-se, não consegue engolir, sufoca. O pescador iça o cormorão para a jangada, tira-lhe o peixe da garganta estreitada pelo fio. O cormorão, aliviado, olha grato o pescador que o vai explorar outra e outra vez. Entre uma e outra, o dono dá-lhe um pedaço de peixe, uma promoção de 50 por cento. Eu conhecia os cormorões de uma canção, Siracusa, que Yves Montand canta como ninguém, e, claro, dos desenhos em Corto Maltese. Mas o olhar explorado e grato dos corvos-marinhos de Guilin vai acompanhar-me pela vida. Como poderia eu criticar os homens e mulheres que foram anteontem ao Pingo Doce? Seria como criticar os anões que aceitam entrar em concursos de lançamento. E eu quantas vezes engoli o que não queria, ao contrário (e igual) da metáfora do cormorão? Mas o protagonista desta história é quem fez a asneira (se calhar nem intenção houve) de humilhar num dia que foi conquistado para o respeito. Por isso, na crónica de ontem, falei da fundação ligada ao Pingo Doce (porque quem faz fundações não pode fazer lançamentos de anões) e falei do Dia de Natal (porque há dias especiais, esse e outros, na vida dos homens).

quarta-feira, maio 2

descubra a diferença

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