segunda-feira, fevereiro 28

curioso? não!

Partilhar

Lá diz o velho ditado "a curiosidade matou o gato...". O ditado é clássico e verdadeiro. A curiosidade é algo que existe dentro de nós, um mal incurável que raramente nos abandona ao ponto de nem medirmos a ameaça e o perigo. Curioso, não?! Não há solução. A curiosidade é uma praga e faz mesmo parte dos genes dos portugueses atraídos por comportamentos anti-sociais e acontecimentos trágicos. Se há um acidente, se duas pessoas discutem por qualquer motivo, aglomera-se logo à volta uma pequena multidão que acaba por se envolver dando palpites e, por vezes, piorando ainda mais a situação.

Este sábado o mar foi cruel para dois rapazes amigos que se aventuraram nas rochas da Praia de Lavadores em Gaia. Caíram e desapareceram nas ondas revoltas. Desde que o alerta foi dado, decorrem operações de busca, bastante limitadas às más condições do mar. A curiosidade fez com que muitos populares acorressem ao local, parando de propósito os carros para irem espreitar dificultando o acesso e a actuação dos meios de socorro ao local, e detendo a caminhada para dar a sua própria versão dos acontecimentos.

Sendo a curiosidade inata no ser humano, provavelmente não seremos mais curiosos do que outros povos. Afinal deve ter sido por causa da curiosidade que os portugueses se meteram em aventuras além mar, atravessaram oceanos em barcos frágeis e descobriram meio mundo. Mas, provavelmente, andamos a orientar a nossa curiosidade para objectivos que não valem a pena e que não nos levarão nunca a descobrir o bom senso. Como é que se compreende (aqui o link da notícia) que um pai leve um filho de doze anos numa mota de água para junto do perigo? Qual o entusiasmo que os moveu a colocar a própria vida em risco a pretexto da curiosidade?


sexta-feira, fevereiro 25

como um peixe fora de água

Partilhar

Um dia foi pescador, quando ainda morava em Kélibia, uma aldeia branca e solarenga na costa mediterrânica da Tunísia, de onde saiu fugido das maledicências de um regime opressor e de uma sociedade inconformada.

Numa noite de Janeiro, Habib embarcou no pequeno barco de um estranho amigo, por oitocentos Dinar. Consigo, uma dezena de homens atravessaram o Mediterrâneo e desembarcou clandestino, oito horas depois, na costa italiana, para o início de uma nova vida, uma nova sobrevivência, num novo lugar onde provavelmente também seria indesejado, ou com sorte, até tolerado.

Esse renascer é sequela do maldito dia em que apenas ele sobreviveu ao naufrágio do pesqueiro que matou os seus três companheiros. O mar revolto, ao largo da Pantelária, quis que fossem eles e não a si. Devolveu-o à terra para sua desgraça. As viúvas de Kélibia não lhe perdoaram esta vitória. Menos por ter sido ele e não um de seus maridos o sobrevivente, mais pela própria fortuna que a sua fé exprimia. Privilégio de qualquer forma. Excluindo-se de algum modo por não ter sido acolhido pelo mar que o alimenta. A água salgada, o sustento daquela gente sofrida e que lhe ditara as leis durante a vida. Era um homem só e, por isso, mesmo que morresse não haveria viúva que chorasse por si.

Ao cruzar aquela imensidão azul, sem perspectivas e à sua sorte, ele decidiu que seria a última vez que navegava. Hoje, Habib vagueia pelas vilas da Sicília. É mais um entre os refugiados que sobrevivem da caridade humana e parou de sonhar que um dia morreria no mar.


quinta-feira, fevereiro 24

vista das minhas janelas

Partilhar

Acordei sob um céu azul e sol radioso e chego aqui envolto num manto de nevoeiro, que cobre os telhados, dilui a cidade no firmamento e apaga o fio do horizonte. Gosto deste mistério das manhãs de nevoeiro no Porto, deste contrastante despertar que paira sobre a cidade, do brilho de um novo dia a ocidente e a bruma fresca e parda de melancolia a oriente.


quarta-feira, fevereiro 23

testemunho a pedal [3]

Partilhar

A ideia (destes “postes”) foi tentar demonstrar que não é preciso ser-se um super-herói para andar de bicicleta no Porto, nem de empreender nenhuma odisseia quando se pretende pedalar pelos arredores. Além de ser possível fazer, é bastante mais fácil do que aquilo que as pessoas julgam, e vão ver que 50km por semana não é nada de especial. Acabam por ganhar bastante tempo e poupar preocupações nestas pequenas deslocações. Tudo depende do ciclista. Eu fui aprendendo com os erros que cometi e cometi bastantes. Basta haver bom senso para se circular em segurança. Nas ruas pedalar sempre na faixa da direita e permitir as ultrapassagens, se isso não condicionar a nossa segurança. Seguir sempre no mesmo sentido dos carros. Procurar estar atento aos peões, que saltam para a estrada sem olhar, e não esquecer os carros estacionados. Soube através de sites de bike commuting que um dos acidentes mais comuns entre ciclistas acontece quando pessoas abrem as portas dos carros sem verificar se vem alguém atrás (este não experimentei!). Há que saber quando podemos andar depressa e quando devemos andar devagar. Sempre que as houver, devem aproveitar as ciclovias e evitar ao máximo pedalar nos passeios, que podem ser bem mais perigosos do que pedalar na estrada. Prever os movimentos súbitos dos transeuntes, adultos e crianças, contar com carros a sair de garagens e não esquecer os animais. Existem ruas com muitas ratoeiras. O piso pode ter buracos, tampas de saneamento altas ou fundas, pode acontecer por exemplo entalar a roda da frente no carril dos eléctricos (ai como eu sei disso). Convém avaliar as condições do piso quando está molhado e ter cuidado na abordagem a uma rampa ou subir um passeio, que por mais baixo que seja deve-se sempre tentar fazer com um ângulo aberto e com o rabo fora do selim. Depois só falta os cuidados da bicicleta, não esquecer de calibrar os pneus, verificar o estado dos travões, a iluminação, lubrificar as engrenagens. A meu ver, a bicicleta de ciclo-turismo que tem um selim e posição mais confortável, reflectores e luzes, pode ter amortecedor, guarda-lamas, alforges, tudo isso a um preço bastante acessível, é a ideal para quem se queira iniciar nestas andanças.

(Um exemplar de citybike. Não é minha mas poderia ser)

E para finalizar, demonstro com
números o tempo que demoro de casa ao trabalho nas várias hipóteses à hora de ponta e pelo percurso atrás descrito (aqui o mapa do percurso) em vários meios de transporte:

Carro
: 40’ (20 minutos dos quais desperdiçados a procurar uma vaga de estacionamento grátis. Se o deixar nos parques posso dizer adeus a 8€)

Transportes públicos: 30’ (10´a pé + 5´de metro + 15’ de autocarro, excluindo os tempos de espera e o passe mensal)
Bicicleta: 15’, nas calmas, de graça e sem poluir.

Ou seja, há outras alternativas ao individualista automóvel. Os solitários automotorizados ocupam muito espaço nas ruas e todos nós saímos prejudicados. Temos de perceber o quanto somos dependentes de um símbolo de status que é cada vez mais dispendioso e um empecilho das cidades modernas.


* Um agradecimento especial ao Miguel Barbot pelo incentivo.


terça-feira, fevereiro 22

testemunho a pedal [2]

Partilhar

Os meus percursos a pedal podem não ser diários mas são variados. A descoberta é ilimitada. Tanto dá para esporadicamente pedalar até à escola, para as reuniões da Associação de Pais, para ir ao Dragão actualizar a filiação, ou simplesmente para apanhar ar nas trombas, a bicicleta encurta distâncias e junta o útil ao agradável. E o passeio que mais possibilidades me garante é o que faço sempre que vou a casa dos meus pais. De minha casa, na Prelada, desço a Avenida da Boavista até ao Castelo do Queijo. Aproveitando a nortada na marginal, da Foz à Ribeira é um instantinho. Bom, aí há sempre a possibilidade de seguir o rio até à barragem e atravessá-lo lá, mas desta vez estou preguiçoso e cruzo o Douro na ponte para entrar em Gaia. Sempre com a apaixonante tela invicta a acompanhar-me, faço um sprint pela Afurada até ao Cabedelo, reencontro o mar e sigo na orla até à Praia da Madalena para visitar a famelga, ou então para ir muito mais além. Outra pedalada mais ou menos regular é para o trabalho. E para arrepiar caminho, até porque marco o ponto às oito horas, opto por um destes dois trajectos a partir da Prelada: Depois de passar pelo Hospital, viro para o Carvalhido, sigo por Oliveira Monteiro, cruzo a Rua da Boavista até à igreja de Cedofeita e, a partir daí, qualquer direcção serve para o Jardim do Carregal. Este percurso tem o inconveniente do piso ruim e ruas estreitas, mas é quase plano, simples de fazer e encontro menos trânsito; A alternativa é entrar na Rua 5 de Outubro pela Estação de Francos, seguir cuidadoso para a Rotunda da Boavista, descer e subir Júlio Dinis, no Palácio viro para a D. Manuel II e voilá, eis-me no serviço 5km depois. Por aqui as ruas são largas, o piso é melhor, sobe um pouquinho e tem sempre bastante trânsito. Mas nem tudo são rosas quando se pedala na cidade. Há muita falta de respeito por parte de alguns condutores que não conseguem seguir a vida fora das suas caixas metálicas com vidros eléctricos e ar condicionado. Essas pessoas toleram um carro a mais nos incontáveis engarrafamentos, mas não costumam ver com bons olhos um ciclista desprotegido que se locomove à sua frente sem poluir. Mesmo sendo o ciclista um carro a menos! Acredito no entanto que se formos cada vez em maior número até estes se habituarão a conviver com os “maluquinhos” das bicicletas.

(e a pedalada continua…)


segunda-feira, fevereiro 21

testemunho a pedal [1]

Partilhar

O Miguel no seu 1PNPeONP lançou o isco e eu apenas segurei o guiador com ambas as mãos, e acelerei nas teclas motivado a colaborar com o meu testemunho a pedal e "contribuir com umas linhas sobre a minha experiência, percurso realizado diariamente, principais dificuldades que encontrei e sugestões para dar aos ciclistas do Porto".

Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40.

Era apenas mais um dos (auto)imobilizados no engarrafamento urbano. Perdia paciência e euros só para estacionar o popó perto do trabalho, bem no centro da cidade. Com o início da revolução intermodal que o Metro proporcionou à área metropolitana, e dispensado de algumas obrigações paternais, voltei a ser adepto das caminhadas e sócio dos transportes públicos. Sem querer, mas dando-me já conta disso, a obesidade e a ferrugem pesavam-me no corpo e, a partir de uma certa altura da vida, ou se começa a ter alguns cuidados físicos e abandonar maus hábitos, ou então poderá ser mais difícil nos convencermos, se nos queremos sentir mais fortes e saudáveis, que teremos de adoptar outros estilos de vida mais ousados. Vai daí, comprei duas biclas, a Etielbina para mim e Maria del Sol para a minha cara metade, aumentei a frota com a pequena para o meu pequenote e, mais tarde, tive de arranjar espaço para a Gorka lá na arrecadação. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem, é absorver todo o prazer que elas me têm proporcionado.

(e a pedalada continua…)

sexta-feira, fevereiro 18

on/offrio

Partilhar

O sistema informático da instituição teve um colapso grave, geral e globalizado. Desde anteontem que ficou em baixo e apenas hoje voltou a ficar operacional e começou a recuperar as suas anteriores potencialidades. Esta é a razão de algum do meu silêncio. Curioso o ambiente de pânico que por aqui se instalou apenas porque não tínhamos acesso à internet e a sensação de perda por não receber e-mails. Mesmo em casa fui relegado para um período de abstinência blogosférica. Com dois computadores em casa, nenhum é meu, note-se, sou um dependente da família também no que diz respeito a navegar pela rede cibernética. Pensar que há dez anos atrás as nossas vidas decorriam de forma perfeitamente equilibrada, sem computadores, sem internet, telemóveis e esta necessidade constante de estarmos em permanente comunicação, on-line, uns com os outros. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e já ninguém contesta a necessidade de acompanhar a pressa do tempo. Pensar que ainda outro dia o desenrascador para todo o serviço, o meu telemóvel, ficou sem bateria e tive de recorrer a alguns trocos e a uma cabine telefónica! Parecia ser protagonista de um filme já muito antigo!

Bom fim-de-semana


quinta-feira, fevereiro 17

ainda agora...

Partilhar


Chuva que primeiro é mar
Formando ondas sem parar
Numa metamorfose da Natureza
Envolvida e feita de leveza
Agora é nuvem a viajar
Voando sentada no vento
Em constante movimento
Na minha cabeça a desabar...

Foge qu'esta é da grossa!...

(Estou-me a habituar a isto dos "postmóvel",publicar via telemóvel)

quarta-feira, fevereiro 16

uma bicicleta com e-stilo

Partilhar

As bicicletas eléctricas são uma excelente forma de afirmar este meio de transporte como a alternativa para a circulação urbana. Na aparelhagem “corre” um vídeo da Grace Urban e-Bike, a chamada bicicleta do futuro. O velocípede que a firma alemã Grace, desde finais de 2009, pretende comercializar não é, à primeira vista, uma bicicleta qualquer. É um produto de alta tecnologia construído artesanalmente em alumínio, com alguns componentes em fibra de carbono e que, além do mais, é motorizada. Não se trata de um conceito propriamente inovador, mas o que a diferencia das outras é um motor eléctrico de 1300 watts alimentado por um grupo de baterias de iões de lítio recarregadas pelo rodar dos pedais. Dessa forma, quanto mais se pedalar, mais carga a bicicleta adquire, o que permite deslocar-se a uma velocidade máxima de 45 Km/hora.

A e-bike alemã é a reinvenção da bicicleta, que promete ser mais eco-friendly do que um cavalo (está escrito assim mesmo no site da marca). Apresenta um design sofisticado, é exclusiva, bonita, eficiente e ainda por cima bastante ecológica. Mas tem um “pormaior” que lhe retira alguma graça. Por enquanto é um puro objecto de luxo. Só é produzida sob encomenda e os preços variam entre os 4 e os 8 mil e tal euros. É verdade que há bicicletas tradicionais que ultrapassam largamente esses preços mas para o cliente alvo talvez não seja ainda suficientemente atraente para motivar uma mudança de hábitos. Quem sabe um dia, quando as pernas me falharem, eu não tenha uma!



terça-feira, fevereiro 15

"a brutalidade desta foto é acentuada pela serenidade do seu rosto"

Partilhar

Bibi Aisha foi casada ainda adolescente. A jovem afegã de 18 anos fugiu dos constantes maus-tratos que sofria do marido. Foi encontrada em casa dos seus pais, onde buscou refúgio. Após o veredicto imposto pelo comandante taliban, que como sabemos são fundamentalistas islâmicos que impõem regras e determinam castigos desumanos contra as mulheres que se revoltam contra as suas “leis”, o cunhado da jovem prendeu-a no chão para que depois o marido executasse a mutilação. As orelhas e o nariz foram-lhe brutalmente decepados. Abandonada, a jovem afegã acabou resgatada por militares americanos e equipes de ajuda humanitária e integrada no refúgio para mulheres em Cabul, onde foi fotografada pela repórter fotográfica sul-africana Jodi Bieber. Actualmente Bibi Aisha vive nos Estados Unidos, onde se submeteu a uma cirurgia de reconstrução facial.

A imagem foi capa da revista Time em Agosto de 2010 e foi recentemente premiada com o grande prémio do concurso internacional World Press Photo 2010.

“Queria fotografar a beleza dela apesar do que lhe tinha acontecido”, disse Jodi Bieber em reacção ao prémio, numa declaração áudio publicada no site do World Press Photo. “Não queria retratar Aisha como a vítima. Eu pensei “não, esta mulher é bonita””. “Eu estava muito insegura do modo como a tinha fotografado, porque não era de um modo tradicional”, referiu, elogiando a revista Time pela coragem de publicá-la na capa.

A foto da jovem foi publicada com o título "What happens if we leave Afghanistan" ("O que acontece se deixarmos o Afeganistão"), para uma reportagem com fortes implicações políticas sobre a permanência militar dos Estados Unidos no país asiático, com destaque na situação das mulheres que vivem sob o domínio do regime taliban. Embora o acto de violência retratado cause choque, para o júri do World Press Photo a fotografia demonstra a dignidade da jovem afegã perante um caso de violência contra as mulheres.

Para o crítico norte-americano Vince Aletti, que também integrou o júri, este retrato não é só sobre aquela jovem em particular, “é sobre a condição da mulher no mundo”. “É uma imagem incrivelmente forte. Ela passa uma mensagem enormemente forte ao mundo, sobre os 50 por cento da população que são mulheres, muitas das quais vivem em condições miseráveis e vítimas de constantes violações”.

Aisha diz ter posado para a fotografia por querer mostrar ao mundo as potenciais consequências de um novo governo taliban.