terça-feira, abril 14

doces lembranças

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As lembranças não se limitam ao frenesim dos preparativos para a viagem, à paragem habitual que fazíamos a meio caminho, no reencontro com a velha estrada nacional serpenteada por nauseantes yésses, que a minha mãe nos confundia de "terem sido desenhados por um tal engenheiro inglês". Não basta o som explosivo de foguetes, compassado pelo eco que os devolvia da outra banda do rio. As lembranças levam-me à velha casa de pedra, onde o soalho encerado rangia sob os nossos passos e as louças tilintavam no interior do armário da sala. Levam-me ao pequeno buraco redondo, da madeira carcomida do quarto de onde podia espreitar o lagar da loja. Levam-me a uns sapatos finos, brilhantemente polidos de graxa preta, que secavam na soleira da porta. Trazem-me os raios de sol e a recordação infalível à interpelação da avó Madalena, que por nós esperava à porta da cozinha: “já lavaste as mãos?”. As memórias abrem-me uma pequena gaveta, da cómoda do quarto onde um relógio de bolso, prateado e virtuoso, ritmava um ténue tic-tac. Era aos domingos que a corrente metálica adornava e balouçava do bolso proeminente da jaqueta negra. E num sorriso fugaz, a cachimónia traz-me de volta uma prateleira da cozinha, que lá bem no alto segurava um copo de vidro onde a dentadura bicarbonada do meu avô repousava à noite. Até a afiada navalha de barbear, que ele manuseava com mestria em frente à sua janela, me surgiu num ritual intemporal. A mente leva-me a calcular o local exacto onde no pátio da casa estaria o tanque de pedra que, cheio com água do poço, passou a ser um aquário para os peixes dourados trazidos do rio.
A minha memória mais forte, a que o nariz capta. É do aroma trazido no ar e que me aflora num sentimento de nostalgia. É um cheiro bom e inspirador, de um tempo maravilhoso que jamais se apagará. Das doces lembranças de um Domingo na aldeia. Do arroz de forno lentamente cozido num alguidar de barro preto, onde pende a suculenta carne de pasto sustentada em pau de loureiro, e que nos grãos pinga dando-lhes aquele sabor da terra, característico da lenha trazida do mato. Tudo artesanal, tão natural como os temperos e ensinamentos herdados pelos meus tios.
Há cheiros que permanecem inesquecíveis, mas o que me leva de volta ao passado é a divisão da casa onde permanece a pedra. A frescura da loja, com o seu lagar e constante grau de humidade, usada como adega, onde se guardam as pipas, as batatas e alguns objectos em desuso, mas que foram úteis nas mãos sábias dos meus avós, que viveram uma vida dura, lenta e repleta de simplicidade, e que pelo menos uma vez pelo Verão, nas férias grandes, eu e o irmão desassossegavam.

Lembra-me da minha mãe, e que “já cheira a Castelo!”


segunda-feira, abril 13

é urgente! umpf...

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Há dias em que só me apetecia poder controlar o tempo, poder manipulá-lo a meu belo prazer, atrasá-lo quando bem me apetecesse, pará-lo assim que desse vontade, sem ter que dar explicações a ninguém. Ontem foi um desses dias. Queria descrevê-lo mas a nossa permanente corrida com o tempo é incontornável e um pequeno segundo de deslumbramento do ponteiro da memória faz lembrar tanta coisa... e agora não tenho tempo!

O gabinete amanheceu a destempo, com muitos papéis para reciclar... para arquivar. Tenho de dar corda aos neurónios se quero ter tudo pronto a tempo. Alguém tem por aí uns minutinhos que possa dispensar?
Tempo, precisa-se!

Adenda: Dispensei uns minutos da minha hora de almoço para finalmente aprender como se publica uma imagem no modo "espião surfista"(a imagem relaxante veio daqui).

sábado, abril 11

desmistificando o coelho de páscoa

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quinta-feira, abril 9

cuidado com elas

Partilhar O motorista do autocarro de uma excursão sénior sentiu uma das velhinhas bater-lhe no ombro, oferecendo-lhe algumas amêndoas torradas.
- Ah, obrigado! disse ele, enquanto segurava as amêndoas na palma da mão.
Passados uns dez minutos, vem de novo a velhinha que levemente lhe toca no ombro e lhe oferece mais um punhado de amêndoas.
- Obrigado, minha senhora! agradeceu outra vez.
Para encurtar a história, a cena repetiu-se umas três ou quatro vezes. E três ou quatro vezes o motorista comeu as amêndoas. A certa altura, intrigado e já farto de tanta amêndoa, perguntou à atenciosa velhinha:
- Mas porquê a senhora me oferece tanta amêndoa? Até gosto bastante sabe, mas sei também que trouxeram outras coisas boas! Vocês não gostam das amêndoas, é?
- Ah, não é isso meu filho, é que algumas de nós não tem dentes e por isso não conseguem mastigá-las...
- Então porque compraram tantos sacos de amêndoas? perguntou o motorista.
E a velhinha respondeu:
- É que nós adoramos o chocolatinho que têm à volta...


Blogue encerrado para contra-ordenações, coimas recheadas ou amêndoas!

Uma Páscoa muito feliz, ó faxabôre!

quarta-feira, abril 8

chef superstar

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Quem me conhece sabe que me safo na cozinha, fruto de alguma curiosidade e da arte culinária da minha querida mamã, uma chefa da cozinha por excelência. E não só me consigo desenrascar com os tachos, para consumo interno, como também gosto de assistir a um bom programa televisivo de receitas, especialmente se for do Jamie Oliver. Este jovem chef britânico, um dos maiores fenómenos da culinária internacional, conquistou telespectadores em todo o mundo, pela sua simpatia, pratos simples de fazer, preocupação e dedicação com os hábitos alimentares das pessoas, o seu empenho na melhoria das cantinas das escolas inglesas, a luta em que se empenhou contra a industria alimentar do “fast food”, o alerta para os efeitos da má alimentação na saúde das pessoas, para além de vários programas televisivos, livros editados, DVD’s, uma fundação de restaurantes escola para jovens carentes (o projecto Fifteen) e uma cadeia de restaurantes. Com ele, se o azeite for virgem, a pasta for fresca, a carne for de animais de pasto, o peixe vier “vivinho” do mar, sempre o queijo e as ervas aromáticas acabadas de colher, então já temos jantar. Identifico-me muito com aquele à vontade, com a maneira como ele desmistifica os alimentos, aquela paixão que tem pela comida e como demonstra que o acto de cozinhar é a coisa mais simples do mundo.

Na semana passada, os líderes mundiais do Gê20 e restantes convidados do Primeiro-Ministro britânico deliciaram-se num simples jantar oficial, escolhido e preparado pelo popular chef “superstar” Jamie Oliver. A cimeira do ano passado, realizada no Japão, foi então muito criticada por incluir uma refeição composta por 19 pratos quando em discussão estava a crise alimentar mundial! Do menu sabe-se que a entrada incluía salmão e espargos ingleses, o prato principal seria borrego do País de Gales servido com pão, batatas novas e temperado com um molho de hortelã, apimentado com o poderoso alho selvagem que cresce um pouco por todas as florestas do país. Na cozinha a ajudá-lo esteve um grupo de aprendizes recém graduados dos seus restaurantes Fifteen. Do que não houve notícia foi se os donos das barrigas mais poderosas do mundo apreciaram o repasto ou tiveram azia. Imaginem só o poder que ele teve nas mãos naquela noite. E se ele decidia adicionar uma pitadinha extra de tempero apimentado no molho do prato principal, ou apresentava uma irresístivel sobremesa afrodisíaca?

Na madrugada da passada sexta-feira, Jamie Oliver foi pai de outra menina. A criança chama-se Petal Blossom Rainbow, é a terceira filha do casal que já têm duas filhas, Poppy Honey, de sete anos e Daisy Boo, de cinco.

Vejam só este joguinho electrónico que ele criou com algumas dicas culinárias!


terça-feira, abril 7

ferida

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Uma noite como tantas outras e a cidade que dorme, aqui e ali sobressaltada por gatos e pássaros num louco frenesim. Apesar de toda esta agitação, só se ouve o silêncio, um alarme proveniente do poderoso som do vento, como palavras que se sobrepõem umas às outras, ganhando velocidade e descontroladas inundam numa dimensão cada vez maior, cada vez mais grave. Por vezes há avisos subtis que permitem permanecer em alerta, ou reagir e fugir enquanto há tempo! De um momento para o outro um tremor aparece do nada, o chão parece falhar e balança debaixo dos pés como se tudo estivesse sobre um baloiço gigante. As paredes embalam-se perigosas e o tecto faz companhia ao movimento do chão. Qual monstro adormecido, subitamente acordado pelo bater de asas de uma borboleta, reage explosivamente e, sem apelo nem agravo, destrói violentamente tudo à sua volta. Os alicerces tremem, os sonhos são arrasados. São ruas desertas de pessoas e inundadas de uma multidão de destroços. A imprevisibilidade, a inevitabilidade, a morte. A dureza das consequências deixa-nos sem ar, como se nos atingisse em cheio com um murro no estômago. E o penoso tempo vai passando, sentindo e tentando ignorar as réplicas que, apesar de não terem a mesma intensidade, estremecem o temor mas não a esperança. A revolta da terra vai passar. Restará arrumar as palavras que se espalharam, que flutuam e balançam como se fossem as penas perdidas de uma almofada rasgada. Não se sabe o tempo que demorará a repousar a poeira da emoção sobre o chão de sofrimento. Fica um momento na vida, como se tudo tivesse acontecido, imaginário, abstracto. Desabada a serenidade, arrumada a um canto da vida, permanece à espera que a memória a solte e feche a ferida que se abriu no coração.


Katie Melua - I Cried For You


segunda-feira, abril 6

profissão de futuro!!!

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Se, em média, um semáforo mudar de cor a cada trinta segundos (30 no vermelho e outros 30 no verde), não será demasiado optimista imaginar que um pedinte facilmente conseguirá, a cada verde, pelo menos uma moedinha de 0,10 € e ao fim de uma hora auferirá 6 € (0,10 € x 60mim). Se ele marcar o ponto no mesmo cruzamento durante 8 horas por dia (das 7h às 10h, das 12h às 14h e das 17h às 20h), com descanso semanal ao Domingo, ao fim do mês terá facturado 1248 € (8h x 26dias x 6 €). Tudo isso na menor das hipóteses, pois acho até estar a ser demasiado modesto! Os 6 € por hora são uma quantia bastante razoável para quem assenta arraiais numa das principais entradas da cidade, nas horas de ponta. Quem dá 10 cêntimos, evidentemente tanto pode dar 20, 50 ou mesmo 1 €. E mesmo que só facture metade, ou seja 3 € por hora, ao fim do mês terá conseguido 624 € líquidos, o que é bem mais do que um salário mínimo nacional com a mesma carga horária! Sempre que consiga “sacar” uma moedinha de 1 € de um condutor mais benévolo, até se pode dar ao luxo de fazer um intervalo, tirar a cabeça do sol sob a sombra de uma árvore por mais 9 sinais verdes, sem ter nenhum chefe a moer-lhe o juízo por causa disso! É tudo rendimento, sem retenção na fonte, IRS, IVA, descontos para a caixa…

Se nesta época de crise todos os dias há falências, aumenta o desemprego e o desânimo, cada vez mais famílias sobrevivem com dificuldades de toda a ordem, a esmola é uma salvação e não uma vergonha!

Esta é apenas uma teoria irónica, uma ideia disparatada, mas acreditem que não está muito longe da realidade.

sexta-feira, abril 3

ode à preguiça

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Como és bela quando chega a tua tarde
E logo mais outra alegria me invade
O meu amor volta para a minha beira.

Fugir ao encontro do sorriso da manhã
Compartilhar o passeio demorado na cama
Numa aventura de remelas e pijama
Sol ou chuva, não me importa o amanhã.

O tempo é livre para, enfim, brincar
Uma cerveja com amigos, sair a pedalar
Todo o cansaço se acaba de uma vez
Feliz e contente, contra-senso da embriaguez.

Eu quero que o trabalho não me queira
Eu vivo livre, mente, corpo e alma
Relaxa, respira, tem calma...
Não tarda é novamente segunda-feira.

Tenham um bom fim-de-semana, seus preguiçosos...
Aproveitem a música!


Musica Nuda "Fever"


quinta-feira, abril 2

for men

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Ainda com os olhos fechados, estica o braço e tacteia a mesinha de cabeceira, à procura do maldito despertador para retardá-lo. Todos os dias é a mesma luta para se levantar da cama e começar as rotinas. O rádio não desiste em entrar pelos seus ouvidos, insistindo em atordoar que já passam das sete da manhã. Como uma criança, espreguiça-se lentamente e boceja, adiando mais que possível o inevitável. Levanta-se sonolento e segue às apalpadelas pelas paredes até se deter diante do espelho, desfocado e estremunhado. Leva as mãos aos olhos, à cara inchada do sono, e vê-se desconfiado. Não havia como negar, naquele instante o seu reflexo era tudo menos agradável. Num movimento brusco abre a torneira e com a água fria desperta os sentidos. Acordado do seu devaneio matinal enfia-se sob o chuveiro que aquece. Depois segue-se a aventura. Um verdadeiro calvário, quase diário, que deveria encarar com toda a naturalidade. Com alguma paciência, prepara a superfície num momento de delicadeza e carinho para consigo mesmo. Pelas bochechas até ao pescoço, com muita suavidade no queixo e debaixo do nariz, com toda a calma e habilidade raspa a lâmina cortante, esticando bem a pele até ficar lisinha como o rabo de um bebé. Termina, lava a cara com água fria para fechar os poros e, delicadamente, passa um creme hidratante para acalmar o ardor, dando umas palmadinhas ao de leve até secar. Com um pedacinho de papel higiénico estanca o pequeno e indolor corte cutâneo que o sono descuidou. No final, com um ar de desdém, atira a gillette para o lixo com a total garantia de ser aquela a última vez que precisou dela. Daqui para a frente, a sua pele voltará a ficar mais rica em vitaminas e camomila, hidratada e suavizada pelas oscilantes e exclusivas massagens, possíveis até de fazer durante o banho matinal.


Depois lembra-se do relógio e vê que já está atrasado, como sempre!

quarta-feira, abril 1

este blogue tem detector de mentiras

Partilhar Há muitas formas de fazer humor. Um dos aspectos que mais valorizo em alguém é ver nele um apurado sentido de humor, basta para isso considerar que na maior parte das vezes eu não tenho nenhum. E a capacidade e coragem que alguns têm em se tornarem ridículos, só para fazer rir os outros, eu não tenho mesmo! Naquele momento, não achei graça alguma. Era uma simples partida que para mim foi inesperada e sem sentido. Só mais tarde reflecti e então percebi que afinal era uma brincadeira inocente, uma partida de primeiro de Abril. Hoje é o dia consagrado às mentirinhas, que se correrem como se espera, no fim todos acabam na galhofa, rindo dos próprios problemas, o que até ajuda a torná-los menores. Fantástico, daqui até o fim do dia, para além de ter de conviver com esta enervante dor de costas, passarei a desconfiar de tudo e de todos, do que me contarem, do que me proporem. Só os inocentes acreditam à segunda na mesma história, mas também é certo que há histórias fantásticas que são verdadeiras. Quem não sabe rir não sabe viver!