sexta-feira, fevereiro 27

admito...

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... sou mesmo um palerma. Querem passar à minha frente na fila do autocarro? Podem ir que eu serei incapaz de armar confusão. Querem deixar-me na seca para ser atendido numa esplanada numa tarde solarenga? Por mim tudo bem, não pedirei o livro de reclamações por isso. Querem gozar com a minha cara quando não me dão prioridade nas passadeiras? E daí, se eu estiver distraído o azar é meu, a rua é pública mesmo! O taxista conduz como se não houvesse amanhã! Coitado, ele deve ter família e para quê prejudicá-lo anotando a matricula e ligar para a empresa onde trabalha? Não costumo incomodar ninguém por tudo e por nada. A vizinha não limpa os dejectos que o seu bobi deixou no patamar do prédio? Um respeitador condómino deve colaborar com seu desinteresse, afinal a senhora não tem culpa de ser porca e do cão ter cu.

Posso me considerar um tipo educado. Respeito as filas, não deito lixo para o chão, cedo o lugar às velhinhas e grávidas, abro as portas e dou passagem às senhoras. Peço por favor, sou agradecido e agradeço sempre. Peço desculpas, perdão até, por pisar um pé alheio. Acho que sou normal. Essas e outras pequenas grandes atitudes fazem com que se tenha sempre razão para reclamar. Infelizmente ou não, raramente interfiro na contenda quando assisto a conflitos. A melhor atitude é ficar quietinho, fazendo o que tenho a fazer, mantendo a minha habitual calma tibetana, deixando os beligerantes com a sua ignorância verbal. Procuro ignorar gente que não se respeita.

Para ser franco, já estou cansado de ouvir tantos queixumes. Estou cheio desta crise, das falências e despedimentos oportunistas, do mau temperamento, dos maus ministros, do treinador, do governo, dos eternos casos de justiça, de tanta injustiça. Confesso, eu estou farto e já não suporto mais ouvir as cenas dessa novela chamada “Freeport”. Não pretendo ser previsível, nem vos aborrecer por dizer que cada vez mais tenho receio de abrir um jornal e já fujo do noticiário das têvês. Estou sem pachorra para discutir o que vem acontecendo neste mundo. Estamos todos equivocados nas pequenas e nas grandes questões das quais falamos todos os dias. Para quê gastar tantas energias a reclamar da vida se ela não quer saber disso para nada! Fingir que tudo está bem é hipocrisia, eu sei, e quem não chora não mama, ok! Mesmo sabendo que há formas mais directas de não estar de acordo com as situações, eu confio na Democracia, e como tal procuro sempre cumprir a minha obrigação cívica e usarei de novo o direito de voto para reclamar. Sou mesmo um palerma.



Um grande fim-de-semana para todos...


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quinta-feira, fevereiro 26

condição

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O que é ser diferente? Qual o padrão que estabelece a diferença? Somos todos iguais e no entanto temos tantas diferenças. Por mais que procuremos ver semelhanças, a diferença está em cada um de nós e essa característica nos torna especiais. Afinal somos todos iguais, e é com as várias diferenças, com as nossas e as dos outros, que temos de viver. Mesmo na dificuldade em saber lidar com o preconceito e a desigualdade dos outros, devemos perceber e aceitar essas diferenças, sejam elas visíveis ou não. A diferença não pode só ser vista pelo lado negativo. Quantas vezes não gostaríamos de ser diferentes, de nos distinguirmos por esta ou por aquela qualidade que não temos? E quando possuimos alguma diferença desejaríamos não tê-la, porque ela distingue e discrimina. Faz com que se olhe com pena e muitas vezes com indiferença. Qualquer que seja a resposta à minha pergunta, a diferença apenas tem o valor que lhe quisermos dar.


p.s: Na busca à minha pergunta "o que é ser diferente?" a net levou-me a descobrir a história de vida do Manuel Francisco. Não o conheço, mas a sua resposta inspirou este poste. Cliquem no link e descarreguem o texto em doc. Aconselho a sua leitura.

quarta-feira, fevereiro 25

não sei se devo

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Depois de um Magalhães se ter despido de preconceitos e ressuscitado a censura no Carnaval de Torres Vedras, a imoralidade chegou a Braga. Desta vez o alvo é um livro que traz na capa a representação da mais famosa pintura de Gustave Coubert, fundador do Realismo, "A Origem do Mundo". De tal forma o livro “Pornocracia” suscitou a indignação a um ou a vários visitantes, mais sensíveis da Feira do livro de Saldo em Braga, que “sensibilizaram” também a autoridade para a defesa acérrima da moral pública e dos bons costumes. Vai daí, foram à feira e levaram para a esquadra todos os cinco exemplares em exposição, no entanto não consta se mostraram igual interesse pelo conteúdo ou estilo literário. Não sei se devo, mas incomoda-me que se confunda o inconfundível, chateia-me que se troque o natural pela cobardia, aborrece-me a prepotência contra a inteligência. Revolta-me a subserviência. Pornocracia versus Democracia, onde está a dúvida?

ps: Sei que deveria estar mais consciente sobre a regulação de conteúdos na Internet pela foto que gamei num site qualquer, daqueles que nunca frequento, e muito provavelmente ilícita pois a jovem não me deu permissão!

sexta-feira, fevereiro 20

a literatura recila-se na mente e não nas entranhas (Rubén)

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Ao contrário de outras, a casa de banho, ou dabliocê, é provavelmente a divisão mais requisitada de qualquer habitação ou local de trabalho. Sendo um espaço de intimidade, local próprio para se estar em pleno contacto com o corpo nas chamadas actividades lúdicas da higiene íntima e de manutenção fisiológica, é por vezes necessário despender lá algum tempo sempre que se é submetido de uma forte dor de barriga. Assim, e para além da execução do acto, um gajo fica ali sentado no trono a fazer o quê? Permanece sentado, libertando a mente, vagueando os olhos pelo espaço exíguo a contar os azulejos, reparando nas manchas estranhas no bidé ou lendo até pérolas de poesia popular escritas na porta. Pois digo que enquanto se promove uma valente cagada sempre se pode entreter com qualquer coisa e não julgar que é uma perda de tempo. Entre o baixar das calças e puxar o autoclismo, sempre se pode contribuir para o nosso enriquecimento pessoal. Uma pessoa moderna e organizada procura sempre gastar o seu tempo conciliando as suas necessidades culturais com as fisiológicas. Um tipo precavido quando vai à retrete nunca vai de mãos a abanar.

Acertaram, estou a falar de literatura de casa de banho, indispensável à reflexão e ao enriquecimento cultural enquanto se faz obra. Pode até ser bastante variada e, como tal, a questão que se coloca primeiramente é qual o tipo de leitura a recorrer. Para quem perfira ler num sítio silêncioso e sossegado é o local ideal, no entanto, e no meu entender, não é propriamente o local mais adequado à fina obra literária. O simples transporte de um calhamaço para o dabliocê pode dar a ideia que se vai estar ocupado por bastante tempo! Entre um passar de olhos pelas gordas e o folhear acelerado dos dedos numa revistinha cor-de-rosa, que nunca ninguém diz querer ler, poderá ser suficiente para o tempo disponível. Aproveitando a altura do dia, até se pode despachar algum expediente, e assim organizar parte da nossa vida, onde um tipo de prosa bem apropriada para a ocasião é a revisão da correspondência indesejada como as contas da água, da luz ou do condomínio. Outra boa hipótese é o tratamento e reciclagem da papelada de caca, para não dizer outra coisa, com que sistematicamente entopem as caixas de correio. O jornal diário é o ideal para uma leitura rápida, actualizada, e barulhenta, no sentido de dar a entender que o local de trabalho ainda está ocupado. É inclusive uma óptima solução para a falta de papel higiénico. A última e revolucionária descoberta, onde se junta o útil ao agradável, consiste em transportar o computador portátil consigo não perdendo tempo precioso na navegação e actualização blogueira. Sabe-se lá se por ventura alguns de vocês não estarão neste preciso momento com o rabo ao léu, sentados na retrete, de pêcê ao colo ou não, a clicar num link enquanto enviam um fax?



Certamente haverá um momento em que chegará a vontade, aquela necessidade de reflectir profundamente, contar histórias e ler metáforas. O uso efémero de uma literatura de rolo poderá ser aquilo que procuram. Voltem ao início do poste e cliquem nos rolos. Muita literatura variada e "en castellano, por supuesto"!

Bom fim-de-semana, bom Carnaval, e afins, pleno de leituras.


quinta-feira, fevereiro 19

quase

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Henry Cartier-Bresson

Amanheço aqui, entre papéis, semi-encerrado num envelope sem coisas lá dentro, com um postal por escrever. Lá, por fora dos vidros, imagino a minha vida. Aqui, imagino-me sempre a tentar, sempre com a mania de vir a ser. Caducado. Uma sensação estranha de nunca ser, de nunca estar. Fotocópia de fotocópia, dobrada em quatro, que circulou por muitas mãos e por muitos olhos. Papel químico dos dias que passam, sempre os mesmos. Numa ideia do que faço disto, procuro partilhar pequenas insignificâncias dos dias, alguém com quem sorrir, de vez em quando. Coisas simples e vulgares que nos tornam cúmplices. Não querer acertar com receio de magoar, a pedir ajuda com os olhos, a desviar a conversa. Quase contar tudo, mesmo os pensamentos mais secretos, mesmo aqueles que coram faces e nos descai o olhar na procura de algo perdido para pontapear e desviar a atenção. Um balão vazio perdido entre papéis. Rasgo o envelope, encho de ar o balão, que foge como um farrapo de nuvem à deriva num pedaço de céu, e rabisco umas letras no postal.
Uma vontade. Ter alguém com quem passear de bicicleta, percorrer todas as ruas e escolher as mais bonitas paragens.
Um sentimento. Na verdade não me sinto adulto.



quarta-feira, fevereiro 18

com todos os mimos

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Após todos estes anos a viver contigo, debaixo do mesmo tecto em perfeita harmonia, custa-me a entender a razão desta traição. Juntos há quase duas dezenas de anos, fui conquistando a tua confiança, função e competência. Minha trabalhadora moderna, simples e "old fashion", tão caseira e miele vezes amiga, puseste-me agora em contra ciclo. Sim, tu minha gulosa. Quem te enche de louça gordurenta para te saciares? Quem te põe a vibrar a cada rotação do programador? E quem te dá a pastilha, quem? E não me venhas dizer que limpas tudo e sempre foste a Maria da casa porque, em contrapartida, eu sempre te mimei com o maior requinte de lavagem, abrilhantado a cada ciclo, perfumado e aquecido a sal. O que tu queres eu sei bem. Queres é ver-me de avental a esfregar pratos e tachos. Pois, que seja, não me importarei com o preço da tua birra, nem com o esfregão verde. Aproveita bem estas férias forçadas que não tarda nada estarás como nova, de cara lavada.




terça-feira, fevereiro 17

no futuro

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O dia de ontem marcou o fim de uma época, e de um género musical, que provocou urticária em muitos. A Muzak, a empresa que universalizou a música de elevador, fazendo chegar os mais pirosos arranjos musicais aos ouvidos indefesos de milhões de pessoas, declarou-se falida. O seu nome, explica o Independent, inspirou-se no da Kodak. E quando apareceu nos anos 30, a muzak destinava-se a dar aos passageiros dos elevadores dos flamantes arranha-céus da América uma ilusão de segurança, com os seus tons doces e relaxantes enquanto subiam, subiam... Mais tarde, invadiu os aeroportos, grandes armazéns, centros comerciais, hotéis, restaurantes, aviões, etc. E a empresa até teorizou que, no local de trabalho, o facto de os funcionários ouvirem as suas músicas, interpretadas pela orquestra da casa, podia fazer aumentar a produção. Aconselhava-se a difusão de trechos musicais de 15 minutos, num crescendo de vitalidade sonora, seguidos de 15 minutos de silêncio. É provável que a música perdure, se alguém vier retomar o testemunho - embora seja de esperar que com arranjos musicais menos delicodoces. Entretanto, saboreemos estes instantes de silêncio... do fim da música de elevador.

Fonte: Publico.pt





segunda-feira, fevereiro 16

bem passado

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Não fujo dele. O passado faz parte de mim, do que fui, do que serei, não o pretendo esquecer e muito menos arrastá-lo como um fardo pesado, que não me deixe viver o presente ou caminhar para o futuro. Gosto muito de abrir velhas gavetas do passado, rever gastos pedaços de vida em papel de fotografia, buscar memórias preservadas no sótão do esquecimento, seguro que o passado não muda, é uma garantia. Olhando para trás, vejo portas que se fecharam, e se estão fechadas foi porque assim as deixei, perdi-lhes a chave. O passado faz de nós o que somos hoje e é impossível ficarmos indiferentes às lições, às histórias alegres, ou menos alegres, aos momentos de um tempo que faz parte da nossa existência. Do meu percurso, opção ou não, guardo um belo passado, num lugar que é sempre presente, e que amanhã já foi ontem.


Flor de Sal, Viana Castelo - 2008

sexta-feira, fevereiro 13

foi assim

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Estava no terceiro ano do ciclo e faltariam talvez uns três meses para as férias grandes. Nessa época, as crianças ainda não se consideravam gente só porque tinham a chave de casa ou porque voltavam sozinhas da escola a pé ou de autocarro. O pai pesou-lhe os ombros de responsabilidade quando acedeu ao seu pedido de prescindir do transporte escolar do senhor Domingos. Ele achava o máximo a independência de ter umas moedas no bolso para comprar o bilhete da camioneta das 6 horas, ir até à estação de comboios procurar aventuras, rastejar todo sujo em busca da bola perdida, gastar parte dos 5 escudos em gasosa e bolas de berlim. Já sem dinheiro suficiente para a comioneta, voltava a pé para casa, mordiscando umas batatas fritas pála-pála acompanhado de outros amiguinhos mais velhos que também tinham o hábito de caminhar até à Venda Nova. De pasta às costas, ele percorria uns 5 quilómetros até à Portelinha, sem dar por nada, na rebeldia própria da idade, onde ali e acolá tocava nas campainhas e fugia à toa, fintava paralelos da estrada com uma lata de feijão, surrupiava uma ou outra laranja de um pomar. Enfim, livre e feliz saciava a fantasia e o sonho infantil, num tempo em que era bem mais fácil ser criança sem ter que sentir o peso actual desta sociedade.

O colégio que frequentava era privado e murado, com um jardim de cedros enormes e disciplina rigorosa. Depois de entrar, a maioria dos alunos do Externato Camões não tinha passe livre para sair, e poucos ousavam cruzar a portinhola daqueles enormes portões verdes sem a permissão do director. Naquele ano muitos colegas haviam trocado de escola e outros novos chegados à sua turma. Ele era considerado um bom aluno mas não gostava de perder muito tempo com os estudos. Os seus olhos e a janela levavam-lhe os pensamentos para fora da sala de aula. Distraídos, eram atraídos pelo reboliço e pela dança das folhas da tília frondosa que sombreava o recreio, o que deixava os professores em fúria e os colegas com troça. Uma das professoras, achando que poderia salvar a sua alma, recambiou-o para o interior da sala, trocou-o de carteira e de colega, não imaginando que com isso seria pior a emenda que o soneto. Em vez de o fazer regressar à terra, levou-o para perto de um anjo e directo ao paraíso.

A princípio estranhou, tinha naquela fila um grupo de colegas mais calmos e menos incomodativos, o que fez com que melhorasse o rendimento escolar. Ficou mais atento e concentrado, fez bons progressos e até melhorou a nota a matemática. Quando já estava mais ou menos encarreirado, reparou na Marília: nariz afiado, covinhas simétricas em cada sorriso, cabelo preto, e uns olhos cor do mar, chamativos. Nela reencontrou de novo a sua janela, bloqueou tudo e todos ao seu redor e via-se reflectido naqueles olhos, eu… ele, um tímido magricela de voz muda e embargada, cabelo comprido e encaracolado, calças com joelheiras e cara de parvo. Sem que ela desse por nada, ficava pr'ali embevecido e ruborizado a cada olhar seu, directo ou cruzado. O fim-de-semana trazia uma estranha vontade da primeira aula da semana, só para a rever, para lhe pedir explicações de francês e terminar os deveres de ciências. Procurava a sua companhia no recreio, ignorando o saltitar da bola e os olhares intrigantes das funcionárias. Encantado e desajeitado, ficou paralisado quando ela, no último dia de aulas, se despediu com um beijo tão inesperado como efémero. Nunca havia sido beijado antes, nunca por quem tivesse uma paixão tão platónica, inocente e secreta. Guardou para ele aquele momento como o mais precioso dos tesouros, como um presente da primeira namorada.

p.s: Certo Tó, eu usei uma foto tua tirada no jardim do colégio. Sabes que não tenho nenhuma foto dessa época, e aquela imagem estampada na camisola enquadra-se às mil maravilhas neste texto. E até ficaste bem, com aquela tua carinha de safado! Abraço mano.



quinta-feira, fevereiro 12

teorias

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As crises fazem lembrar Darwin, um completo desconhecido para alguns que acreditam mais no poder do capital e do consumo. A ganância e irresponsabilidade tem-se repetido ciclicamente nesta economia globalizada. Na hora de ganhar, consumismo. Na hora de perder, egoísmo. Socializa-se o prejuízo do sistema financeiro, nacionalizam-se os bancos fraudulentos e falidos. E o povo, o que pensa o povinho que nunca ouviu falar em Darwinismo Social, a explicação "científica" do sistema capitalista? Contenta-se com pouco.




Não ligue a estas macadas Xôr Charles, o Homem não sabe o que faz.