sexta-feira, fevereiro 13

foi assim

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Estava no terceiro ano do ciclo e faltariam talvez uns três meses para as férias grandes. Nessa época, as crianças ainda não se consideravam gente só porque tinham a chave de casa ou porque voltavam sozinhas da escola a pé ou de autocarro. O pai pesou-lhe os ombros de responsabilidade quando acedeu ao seu pedido de prescindir do transporte escolar do senhor Domingos. Ele achava o máximo a independência de ter umas moedas no bolso para comprar o bilhete da camioneta das 6 horas, ir até à estação de comboios procurar aventuras, rastejar todo sujo em busca da bola perdida, gastar parte dos 5 escudos em gasosa e bolas de berlim. Já sem dinheiro suficiente para a comioneta, voltava a pé para casa, mordiscando umas batatas fritas pála-pála acompanhado de outros amiguinhos mais velhos que também tinham o hábito de caminhar até à Venda Nova. De pasta às costas, ele percorria uns 5 quilómetros até à Portelinha, sem dar por nada, na rebeldia própria da idade, onde ali e acolá tocava nas campainhas e fugia à toa, fintava paralelos da estrada com uma lata de feijão, surrupiava uma ou outra laranja de um pomar. Enfim, livre e feliz saciava a fantasia e o sonho infantil, num tempo em que era bem mais fácil ser criança sem ter que sentir o peso actual desta sociedade.

O colégio que frequentava era privado e murado, com um jardim de cedros enormes e disciplina rigorosa. Depois de entrar, a maioria dos alunos do Externato Camões não tinha passe livre para sair, e poucos ousavam cruzar a portinhola daqueles enormes portões verdes sem a permissão do director. Naquele ano muitos colegas haviam trocado de escola e outros novos chegados à sua turma. Ele era considerado um bom aluno mas não gostava de perder muito tempo com os estudos. Os seus olhos e a janela levavam-lhe os pensamentos para fora da sala de aula. Distraídos, eram atraídos pelo reboliço e pela dança das folhas da tília frondosa que sombreava o recreio, o que deixava os professores em fúria e os colegas com troça. Uma das professoras, achando que poderia salvar a sua alma, recambiou-o para o interior da sala, trocou-o de carteira e de colega, não imaginando que com isso seria pior a emenda que o soneto. Em vez de o fazer regressar à terra, levou-o para perto de um anjo e directo ao paraíso.

A princípio estranhou, tinha naquela fila um grupo de colegas mais calmos e menos incomodativos, o que fez com que melhorasse o rendimento escolar. Ficou mais atento e concentrado, fez bons progressos e até melhorou a nota a matemática. Quando já estava mais ou menos encarreirado, reparou na Marília: nariz afiado, covinhas simétricas em cada sorriso, cabelo preto, e uns olhos cor do mar, chamativos. Nela reencontrou de novo a sua janela, bloqueou tudo e todos ao seu redor e via-se reflectido naqueles olhos, eu… ele, um tímido magricela de voz muda e embargada, cabelo comprido e encaracolado, calças com joelheiras e cara de parvo. Sem que ela desse por nada, ficava pr'ali embevecido e ruborizado a cada olhar seu, directo ou cruzado. O fim-de-semana trazia uma estranha vontade da primeira aula da semana, só para a rever, para lhe pedir explicações de francês e terminar os deveres de ciências. Procurava a sua companhia no recreio, ignorando o saltitar da bola e os olhares intrigantes das funcionárias. Encantado e desajeitado, ficou paralisado quando ela, no último dia de aulas, se despediu com um beijo tão inesperado como efémero. Nunca havia sido beijado antes, nunca por quem tivesse uma paixão tão platónica, inocente e secreta. Guardou para ele aquele momento como o mais precioso dos tesouros, como um presente da primeira namorada.

p.s: Certo Tó, eu usei uma foto tua tirada no jardim do colégio. Sabes que não tenho nenhuma foto dessa época, e aquela imagem estampada na camisola enquadra-se às mil maravilhas neste texto. E até ficaste bem, com aquela tua carinha de safado! Abraço mano.



quinta-feira, fevereiro 12

teorias

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As crises fazem lembrar Darwin, um completo desconhecido para alguns que acreditam mais no poder do capital e do consumo. A ganância e irresponsabilidade tem-se repetido ciclicamente nesta economia globalizada. Na hora de ganhar, consumismo. Na hora de perder, egoísmo. Socializa-se o prejuízo do sistema financeiro, nacionalizam-se os bancos fraudulentos e falidos. E o povo, o que pensa o povinho que nunca ouviu falar em Darwinismo Social, a explicação "científica" do sistema capitalista? Contenta-se com pouco.




Não ligue a estas macadas Xôr Charles, o Homem não sabe o que faz.


quarta-feira, fevereiro 11

dizem...

Partilhar ... os americanos:

"We have Barack Obama,
Stevie Wonder, Bob Hope,
and Johnny Cash."


E respondem os portugueses:

"We have José Sócrates,
no Wonder, no Hope,
and no Cash."

Cartoons de Henrique Monteiro

terça-feira, fevereiro 10

reposte 1 [expectativas]

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Não há perfeição absoluta e, ainda por cima, ser perfeito deve ser chato como caraças!... Ser ou não ser perfeito não tem apenas a ver com o que se é, mas com as expectativas que se criam. Se as expectativas são altas demais, o outro lado pode ser perfeito. Se são baixas, à partida o outro lado será imperfeito. Pior ainda é saber-se que as expectativas, e o que prometem, não terão correspondência da forma que se idealizou.

O que acontece é que tanto os outros criam expectativas sobre nós, como nós criamos expectativas sobre os outros e, querendo ou não, partimos sempre desse pressuposto. Não podemos esperar tudo de todos, mas esperar o nada de alguns e pode ser que sejamos surpreendidos por todos.

E assim é a descoberta... Sem peso algum...

Em Fevereiro do ano passado escrevi e publiquei isto, um pouco por na altura estar a dar os primeiros passos na construção deste blogue, mas mais pela necessidade própria de perspectivar se teria alguma correspondência no que ia publicando aqui. Devo dizer que contínuo a me surpreender, e com muito agrado, cada vez mais.

Obrigado.

segunda-feira, fevereiro 9

uma bela frase

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Há pessoas que decoram muitas frases de famosos, outros como eu não têm muitas frases. De qualquer modo, guardo algumas para reflectir sobre elas. Afinal o que define o carácter de um ser humano? Cuida dos teus pensamentos porque se tornam palavras, escolhe as tuas palavras porque se tornam acções, entende as tuas acções porque se tornam hábitos, estuda os teus hábitos porque se tornam carácter, desenvolve o teu carácter porque ele se torna o teu destino.

Se o carácter designa o aspecto da personalidade responsável pela forma habitual e constante de agir, peculiar a cada indivíduo, o conjunto de traços particulares, a sua índole, natureza e temperamento, é no entanto a adaptação às condições ambientais, familiares, pedagógicas e sociais que moldam essa natureza individual, que o determinam. É aquilo que vamos construindo durante a vida, com os erros e conquistas, perdas e ganhos.

Infelizmente, é cada vez mais certo que todo o mundo desconfia de meio mundo, e para se protegerem as pessoas vestem uma grande colecção de máscaras. No trabalho essa metáfora das máscaras é muito bem empregue, pois no final de contas todos defendemos os nossos interesses e lutamos por uma vida melhor. Mas haverão sempre uns mais "sortudos" que outros. Não me refiro aos que pelo seu esforço e capacidade são competentes, mas dos que se aproveitam dos outros para escalar a árvore hierárquica, nem que para isso se despejem de valores, princípios, e amizade. Sabem aquele tipo de pessoas sempre atenciosas, solícitas e interessadas, que nas alturas de crise acabam por deixar cair a máscara e revelam-se parasitas da pior espécie, que usam o engodo da falsidade como a sua principal característica. E como se atrevem a olhar-se ao espelho todas as manhãs sem um pingo de consciência, questiono-me? O verdadeiro carácter de um homem mostra-se numa situação crítica, e situações destas está cada vez mais o mundo cheio.

Um dia gostaria de conhecer o meu verdadeiro carácter e, até lá, nada me impede de lutar pelo que acredito!

sexta-feira, fevereiro 6

na caminha

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Oren Lavie - Her Morning Elegance

No lado direito da cama habitam desejos, momentos a meia luz que se equilibram entre almofadas, numa serena orgia dos cinco sentidos. No silêncio do quarto uma boca procura a outra, um amo-te é sussurrado, letra a letra, num eco que ressoa lenta e repetidamente de cima a baixo, cabeça, tronco, pele e coração em consonância, dançando juntos ao mesmo ritmo da mesma banda sonora. Encenação de um espectáculo carregado de luz da madrugada com o escuro dos olhos fechados, em que a coreografia não pede apenas as mãos dadas. Quer corpos doados e plenos de reacções, convulsões e vibrações, produzidas por pernas e braços trançados num único novelo. Um dois em um, numa mistura de gosto, prazer e calor de emoções que invadem o colchão. Corações em aceleração que batem a sorrir. Do lado esquerdo abrandam. Lugar onde repousa agora o amor, sereno, juntos nos sonhos, no silêncio e no sono leve desse momento desassossegado. Pedem o ar fresco da lua, a única espectadora dessas cenas passadas em slow motion, e num leve e involuntário suspiro acordam na manhã seguinte, ainda escura. Noite recordada em carícias e conversas de lençóis, deixados vazios, espalhados na cama que agora arrefece.


Faxabôre, tenham um bom fim-de-semana, pois se continuar este temporal assim tão friorento vou fazer como o outro que diz: "de manhã só é bom é na caminha"

quinta-feira, fevereiro 5

mosca morta, eu!

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Quem vos disse que vida de insecto é má? Pois fiquem a saber que eu sou uma mosca muito feliz. Mas para chegar a esta felicidade passei por muitas fases e dificuldades. A vida é dura, nasci como muitos milhões de outras moscas minhas parentes, descendentes de uma grande família. Certa tarde entrei por uma janela entreaberta, dentro de uma casa farta. Pousava ali, pousava acolá, esfregava as patas de satisfação pela comida em decomposição, numa espécie de banquete sem fim, toda ela só para mim. Mas a minha sorte mudou quando à noite alguém entrou em casa para traçar definitivamente o meu destino. Achei que tudo estava perdido, tinham me dito que até haviam casas envenenadas por sprays mortais, no entanto, a luz logo se apagou e ficou um silêncio curto, interrompido por roncos em turbilhão. Voei para o quarto, zumbi-lhe ao ouvido e só para chatear pousava na orelha, e fugia da sua mão em fúria. Fiquei horas naquela patuscada, até que, na manhã seguinte, ele olhou profundamente para mim, me sentenciou e todo o meu mundo rodou. Por instantes achei que tinha terminado a minha boa vida. Mas se aqui estou a contar a minha curta história é porque sobrevivi a esse horror. Querem saber como? Fácil, foi só chamar pelos meus parentes e continuar a chatear. O mata-moscas é ágil mas o medo dá asas. E tu, se estás a ler isto é porque não tens nada melhor para fazer!, não é? Então, clica na foto, entra nessa janela, espera um pouquinho e sacode a mosca. Fui…



quarta-feira, fevereiro 4

percepção

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Viana do Castelo, Praia Norte (Dez 2008)


Tudo é ruído à nossa volta. Tudo faz barulho, a cidade, a voz, o vento, a tosse, a chuva na janela. Até o teclado do computador inquieta o silêncio, a concentração. Entre um bom texto e uma data de palavras amontoadas, procura-se no ambiente a fonte de inspiração. Uma música que não sai da cabeça, uma conversa que se escuta no metro, uma notícia no rádio pode até dar uma excelente crónica, um conto. Às vezes procuro o silêncio, aquele que se instala dentro e fora de nós, apenas a ausência de palavras e sons. O que não ousamos perturbar e dele só queremos entender o seu dom, o som do silêncio. Outras vezes desejaria estar a bordo de um veleiro, solitário viajante com o tempo. Sentir uma lufada de vento, parar e tentar adivinhar o lado do rosto que vai ser beijado pela natureza. Ouvir o albatroz e ver o ar a ser cortado por ele, pelo marulhar do mar. Parar e só respirar. Libertar a alma e voar solto por esse mundo fora, no meio da imensidão de azul. Por vezes temos uma necessidade urgente em procurar o silêncio, para nos encontrar-mos, numa espécie de momento sagrado, belo quando o desejamos e terrível quando se nos impõe. Imaginar a vida sem sons, sem luz, sem cores, gostos, cheiros e tacto, não consigo, e quem sabe se não deveria dar mais valor a tudo o que ouço, reconheço, vejo, saboreio, cheiro e toco.


Cat Stevens - Wild World



terça-feira, fevereiro 3

e não é que é!...

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Uma vida sobre rodas, sempre numa roda viva!


segunda-feira, fevereiro 2

que maravilha

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Porquê todas as noites de Domingo trazem aquela depressão habitual ao som de um suspiro "amanhã já é segunda". As semanas começam quase sempre de véspera com o ligar do despertador, arrancam cedo mesmo que se acorde tarde. A semana já começa errada porque é Segunda-feira e pronto. Sendo o primeiro dia útil da semana, e não o segundo, será uma tentativa bem intencionada de se iniciar a semana dando a ideia que um dia já passou? Não adianta vir para aqui com questões existenciais, a Segunda é o dia em que sempre se acorda com ressaca mesmo sem se ter bebido uma gota. Pelo menos um bom dia é dito com alegria, com vontade em contar as aventuras de uma ensolarada manhã de Sábado, que deu até para desenferrujar as pernas e encher os pneus da bicicleta. Mesmo que não esteja a chover está cinzenta, com aquela morrinha amarga, com mais um Domingo para contar, que nem a vitória do nosso clube ou o cafezinho muda. Toda a Segunda alguém começa uma contagem regressiva, uma expectativa se estabelece, um prazo se esgota. Segunda sim, Segunda sim, um trabalho chatíssimo está à espera. É meio lembrança, meio começo, meio cansaço, meio preguiça, meio esperança. É acima de tudo o dia da realidade, em que se arruma a fantasia e se volta às obrigações que fazem desta vida a coisa tão mágica de ter vontade de trabalhar. Ainda bem que existe o fim-de-semana, o alívio necessário que mantém tanta gente livre do manicómio. Dois dias de paraíso, de festa, sonho e tranquilidade, mas com um único e terrível defeito: terminar numa outra Segunda-feira. Que maravilha! Este sol que agora brilha, é claro!


Bangles - Manic Monday