O que me leva a contar esta cena toda não é bem a minha fatalidade mas a constatação de uma triste realidade. Sábado passado, já bem perto da meia-noite e quando regressava a casa, cai em mais uma das ratoeiras que abundam nas ruas cá do burgo. Tinha chovido bastante todo o dia e, embora não chovesse naquela altura, descuidei-me e fui um azelha na condução. Num cruzamento em Gaia enfiei duas das rodas do carro num buraco coberto de água, pummm…pummm, $%”@ &#£ $@§!#, que foi isto!? Pelo vibrar súbito da direcção da viatura percebi logo qual seria a minha sentença e entretenimento nos minutos seguintes. Por coincidência a estação de serviço de Coimbrões era logo ali e dirigi-me lentamente para lá. Parei o carro junto ao local da bomba de ar, onde por acaso já lá estava outro veículo com alguém a tentar mudar um pneu e um muito alegre grupinho a assistir e a comentar. Inspeccionei os meus estragos, fui buscar o material necessário e pus as mãos no macaco, antes que voltasse a chover. Pela conversa vernácula, histeria colectiva e um cheirete tremendo a charro de haxixe, ou lá o que era aquela merda, vindo da minha momentânea vizinhança, percebi que poderia ter problemas e mais depressa saquei a roda sobresselente. Podem até pensar o contrário mas trocar a roda a um carro é bem mais fácil do que mudar a câmara de uma bicicleta. Pelos vistos os indivíduos tinham chegado de um jantar qualquer, com aqueles neurónios embebidos em alcool e providos de diálogos num tom ameaçador com juras de vingança a alguém que supostamente lhes teria furado o pneu. Como um mal nunca vem só, desata a cair uma chuvada gelada no meu couro e, eu ali com o carro em três rodas e sem hipóteses de fuga, limitei-me a concluir a tarefa o melhor que pude. Nisto os gajos atiram com tudo o que sobrou para dentro da mala da viatura e arrancam a toda a pressa, pelo que percebi, em direcção a Leça. Encharcado e gelado até aos ossos, estou ainda a pagar a factura dessa noite, acabei por trocar a roda e prosseguir viajem constatando aquela triste realidade. O crime, a inconsciência, o atentado que aqueles tipos poderão cometer perante outros pacatos cidadãos. O perigo que é circular junto a eles numa estrada qualquer. Pelo que pude observar nenhum daqueles sujeitos estaria em condições mínimas de caminhar a direito, quanto mais de fazer um "quatro”. Sobretudo nesta altura do ano todos se preocupam com a segurança rodoviária, e está tudo certo, muito certo, só que não bastam as inspecções aos veículos, os limites de velocidade ou as incansáveis campanhas rodoviárias. O real perigo está na falta de civismo, na ausência de qualquer pudor e na inconsciência premeditada em colocar as mãos num volante e o pé num acelerador, mesmo sabendo que com essa atitude irresponsável colocam muitas vidas em perigo.
Desses eu tremo de medo, de muito medo!...
Desses eu tremo de medo, de muito medo!...






