quinta-feira, novembro 13

sentir

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Procuro a tua mão. Seguro-a à minha, tão real quanto o ar fresco nas nossas faces e o salgado das ondas que vem molhar os nossos pés. Por breves instantes me distraio para senti-las, para guardá-lo na minha mão, o nosso amor que como elas é vigoroso, vai e volta, forte. Algumas, distantes, pareciam enormes, imensas e quando chegavam à praia, vinham mansas e fracas, só molhavam ao de leve os nossos pés. Outras parecem calmas e inofensivas ao longe, mas chegam turvas e revoltas, quase nos derrubavam, nos levam com elas. Mas as ondas são ondas, vêm e vão, pertencem ao mar.
Sinto a tua mão na minha, firmes teus cabelos esvoaçantes da maresia na minha boca, teus passos junto aos meus compassados por aquelas ondas. A tua mão solta-se da minha e te afastas. Deixa-me envolto em vagas de dúvidas. Serias tu como as ondas, de volta ao teu mar? Te aproximas de novo, trazendo um sorriso no rosto. Ofereces a concha que para mim foste apanhar na areia, pequena resistente na erosão, forte e perdida no sabor das ondas, que como muitas outras, não volta ao mar. Te agradeço com um beijo sorridente.

quarta-feira, novembro 12

será?

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Com este governo a comprar bancos falidos,
o aumento anunciado do salário mínimo para os 450€,
o preço do petróleo e as taxas de juro em queda,
o desejo mundial de mudança com a eleição de Obama,
e com as promessas para as legislativas de 2009,
será que voltaram a ligar a luzinha da esperança?


terça-feira, novembro 11

zé velhote

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Na esquina da praça ele permanece mais a sua carreta fumarenta, a motorizada. Aguenta horas a fio em pé, ao frio, a vender castanhas. Assim é, pelo menos há mais de cinquenta anos. Pode até ser este o último São Martinho de fuligem colada ao rosto. Passeantes de ocasião, pessoas amigas, de sempre, fregueses que dele gostam e ternamente o chamam de Zé Velhote, brincam com ele e compram as castanhas que ele tão bem sabe assar. São cada vez menos os clientes mas as minhas castanhas são sempre quentinhas e boas, não tem uma podre, garante enquanto enrola uma página amarela. Uma dúzia não é? Se tivesse em trocos é que era bom! Até esquece as dores nos ossos das artroses cada vez que guarda os euros, e sorri percebendo as minhas mãos que aquecem do cartucho das suas castanhas. Os anos não lhe roubaram o humor mas o fumo do assador enegrece-lhe a face. Ele sabe como agradar e em cada cartucho põe uma ou outra a mais. A preocupação com a venda faz com que se levante de madrugada, para ir aos fornecedores, para escolher e retalhar as castanhas. O velho corpo há muito que se ressente da dureza do trabalho. Estava a ver que hoje a motorizada não pegava! Danada ainda me fazia perder o dia! É do frio e está velha como eu. A diaba custa a pegar e já não estou com forças para ela. Sabe, sempre ajuda à minha reforma mesquinha! Sempre é melhor que nada, e assim dá para a conta da farmácia. É vida de pobre, solta, resignado. Não tem pregões porque não gosta de chamar ninguém. Os fregueses ainda vêm, sabem quem eu sou. Muitos conhecem-me bem. Até os turistas gostam de provar as minhas castanhas, murmura enquanto desenferruja algum vocabulário castelhano. Este deve ser o último! Já apanhei muito frio e muita chuva, carreguei muitos carregos. Sinto que já não posso! Vou guardar estas aqui, levo-as para mim e para a minha pinga. Bom São Martinho...




À praça, como um íman, me atrai
Essa agulha dos Clérigos barroca.
Deslizo num eléctrico que vai
Deitando chispas verdes pela boca.

Um D. Pedro a cavalo todo ruivo
Da irradiação fantástica do Douro.
O comboio no túnel solta um uivo
Que S. Bento diz ser de bom agouro.

O fuminho cheiroso da castanha
Faz-me perder de vista, de repente.
E comê-las do bolso não me acanha.

Ó fraterna cidade, dá-me a face
Tão velha, sem idade, adolescente,
E que em qualquer pessoa eu te abrace!

José Ames


Eddie Vedder - Guaranteed


sábado, novembro 8

na sorna

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Hoje acordei devagar, sem despertar, sem correr. Andamos sempre preocupados com alguma coisa, mesmo que não queiramos há sempre algo que corre na nossa mente, dá voltas e voltas, e nos deixa ansiosos e inquietos. Despenteado, remelas nos olhos e ensonado, procuro nada para distrair os olhos. Não quero ler, não tenho vontade nenhuma em blogar. É perguiça? Sei lá, simplesmente não me apetece pensar. Quero ficar aqui, quieto, debaixo do edredon e espreitar o céu nublado pela janela da sala, esperar que o tempo pare, sem perder tempo e energia com algo produtivo. Gostaria de estar nas penas daquele pássaro que lá fora voa livre. Queria ser uma das crianças que ouço ao longe a brincar ao faz-de-conta. Quero ficar aqui a ver estes animais que vivem uma vida tranquila, a vida deles enquanto dura. Não sou capaz de controlar o mundo, nem quero que ele me controle. O que tem de acontecer, acontecerá. Por enquanto vou ficar assim, na sorna, a relaxar.

Bom fim-de-semana.





É já segunda-feira e escrevo este post-sciptum no desejo intencionado de permanecer a sornar, mesmo estando a trabalhar. Faxabôre de não contar a ninguém, ok?
Uma excelente semana. Passem bem.


sexta-feira, novembro 7

dahhh...

Partilhar Um velho colega e amigo telefona aqui para o gabinete e é atendido pela minha nova colega de trabalho.
- Estou sim?
- Eu queria falar com o Paulo!
- O Paulo está na casa de banho! Quer deixar recado?
Percebendo a inexperiência da moça, e para a ajudar, ele resolve dar alguns conselhos;

- Olhe, não leve a mal, mas não fica bem dizer que ele está na casa de banho...
- O que é que eu digo então? - pergunta ela, ingénua.
- Diga simplesmente que ele não está, ou então que foi a uma reunião!
Dois dias depois ele volta a ligar e ela volta a atendê-lo.
- Estou sim?
- O Paulo está? - pergunta de imediato.
- Não ele não está, foi a uma reunião!
- E sabe se vai demorar?
- Olhe, da forma como ele saiu daqui, tão rápido e tão contorcido... acho que o assunto ainda vai demorar algum tempo!



quinta-feira, novembro 6

tás a ver

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Ultimamente só se tem falado do pc portátil com nome de família, e assim, aos poucos, vai ficando no esquecimento o tal do acordo ortográfico. Atento à necessidade imperial de aproximação da nossa pobre língua portuguesa à língua brasileira, eis um programa da inteira responsabilidade de um autor que desconheço, para os próximos cinco anos, para se resolver o problema da falta de autoconfiança que o povo brasileiro tem na sua capacidade gramatical e ortográfica. Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal escrever português é mesmo muito complicado. Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, tudo se fará de uma forma gradual:

No primeiro ano, o “Ç” vai substituir o “S” e o “C” sibilantes, e o “Z” o “S” suave. Peçoas que açeçam a internet com freqüênçia vão adorar, prinçipalmente os adoleçentes. O “C” duro e o “QU” em que o “U” não é pronunçiado çerão trokados pelo “K”, já ke o çom é ekivalente. Iço deve akabar kom a konfuzão, e os teklados de komputador terão uma tekla a menos, olha çó ke koiza prátika e ekonômika.

Haverá um aumento do entuziasmo por parte do públiko no çegundo ano, kuando o problemátiko “H” mudo e todos os acentos, inkluzive o til, seraum eliminados. O “CH” çera çimplifikado para “X” e o “LH” pra “LI” ke da no mesmo e e mais façil. Iço fara kom ke palavras como “onra” fikem 20% mais kurtas e akabara kom o problema de çaber komo çe eskreve xuxu, xa e xatiçe. Da mesma forma, o “G” ço çera uzado kuando o çom for komo em “gordo”, e çem o “U” porke naum çera preçizo, ja ke kuando o çom for igual ao de “G” em “tigela”, uza-çe o “J” pra façilitar ainda mais a vida da jente.

No terçeiro ano, a açeitaçaum publika da nova ortografia devera atinjir o estajio em ke mudanças mais komplikadas serão poçiveis. O governo vai enkorajar a remoçaum de letras dobradas que alem de desneçeçarias çempre foraum um problema terivel para as peçoas, que akabam fikando kom teror de soletrar. Alem diço, todos konkordaum ke os çinais de pontuaçaum komo virgulas dois pontos aspas e traveçaum tambem çaum difíçeis de uzar e preçizam kair e olia falando çerio já vaum tarde.
No kuarto ano todas as peçoas já çeraum reçeptivas a koizas komo a eliminaçaum do plural nos adjetivo e nos substantivo e a unificaçaum do U nas palavra toda ke termina kom L como fuziu xakau ou kriminau ja ke afinau a jente fala tudo iguau e açim fika mais faciu. Os karioka talvez naum gostem de akabar com os plurau porke eles gosta de içkrever xxx nos finau das palavra mas vaum akabar entendendo. Os paulista vaum adorar. Os goiano vaum kerer aproveitar pra akabar com o D nos jerundio mas ai tambem ja e eskuliambaçaum.

No kinto ano akaba a ipokrizia de çe kolokar R no finau dakelas palavra no infinitivo ja ke ningem fala mesmo e tambem U ou I no meio das palavra ke ninguem pronuncia komo por exemplo roba toca e enjenhero e de uzar O ou E em palavra ke todo mundo pronunçia como U ou I, i ai im vez di çi iskreve pur ezemplu kem ker falar kom ele vamu iskreve kem ke fala kum eli ki e muito milio çertu? os çinau di interogaçaum i di içklamaçaum kontinuam pra jente çabe kuanu algem ta fazendu uma pergunta ou ta içclamandu ou gritandu kom a jenti e o pontu pra jenti çabe kuandu a fraze akabo.

Naum vai te maiç problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai içkreve çempri çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario uz blogeru uz adivogado uz içkrito i ate uz pulitiko i u prezidenti olia ço ki maravilia.




quarta-feira, novembro 5

números gordos

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Porque razão apenas gostamos de comemorar alguns acontecimentos, alguma efeméride, de um facto assinalável, uma data, só quando se chega ao centésimo, ao milésimo, e assim por diante? A importância e a relevância que é dada à coisa, acto ou facto, só se verifica em certas alturas! Porque não comemorar também a vigésima terceira vez de qualquer coisa quando se chega lá? Por norma são sempre assinalados os números gordos, os pares, redondos! Coitados dos números impares que não têm direito a comemorações, só mesmo se associados a superstições, o 7 da sorte e o 13 do azar! Deixa-me intrigado quando alguém assinala que se atingiu a contagem dos 5000, não sei do quê, e não se releva o feito de já se ter alcançado o número 4999, tão importante como outro qualquer? E se por acaso a contagem ficar por ali, terminar a unzinho do tal número redondo, a comemoração fica assim no esquecimento, por assinalar? De facto é estranha a necessidade que se tem em dar tanta importância a determinadas coisas só pode ser alcançada através da contagem, as bodas de ouro pelos 50 anos de casamento, ou o disco de platina pelos 20 mil cêdês vendidos, e vaiar o treinador pelos 3 jogos seguidos sem o meu clube de futebol ganhar…


Viva o poste nº 237, e para já não há mais celebrações aqui no gabinete!



“A informação que temos não é a que desejamos. A informação que desejamos não é a que precisamos. A informação que precisamos não está disponível.”

John Peers


terça-feira, novembro 4

finalmente

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Não poderei estar indiferente às eleições presidenciais americanas. Num país que se diz "democrático", onde apenas existem dois partidos políticos, claramente conservador, população extremamente consumista e na maioria ignorante, decide hoje qual dos candidatos irá ocupar a sala oval da Casa Branca. Quer queiramos quer não, serão eles a escolher quem influenciará a política mundial. Eu vou “votar” Barack Obama, ou melhor gostaria de votar. O que está em causa é muito mais do que uma simples eleição de um presidente num país qualquer, é muito mais do que isso, e como tal deveríamos, nós a população mundial, ter também uma palavra a dizer. Penso que a vitória de Obama traria uma postura mais democrática, mais séria nas relações exteriores e nos conflitos mundiais, principalmente na diminuição da preponderância militar americana nos conflitos actuais e fazer da diplomacia a arma primordial na procura de soluções. A eleição do primeiro presidente negro poderia também trazer mais equilíbrios culturais e sociais à população norte-americana, uma maior integração, conhecimento e respeito entre classes, entre a população dominante e as minorias negra, hispânica e muçulmana, sem muita representação política. Também nutro alguma simpatia por John McCain, possuidor de uma larga experiência de vida, tanto militar como política. As suas propostas para a solução da grave crise económica americana são importantes e demarca-se claramente das políticas da administração anterior. Obama ou McCain? Não importa quem seja o eleito, o que realmente é de enaltecer é que se ponha termo ao desastre verificado nestes últimos 8 anos. A partir de hoje, seja qual for o escolhido, uma coisa é certa, Bush passará à história como o pior presidente que a América alguma vez teve e de uma vez por todas o mundo vê-se livre dele. É hoje, finalmente!




segunda-feira, novembro 3

juntos

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Depois da minha colecção de carrinhos da Matchbox, se havia brinquedo que me deixava encantado, com que dava largas à minha imaginação, e com eles perdia horas e horas a brincar, eram os legos. O que eu adorava brincar com legos! Ficava lá, distraído no tempo mas concentrado a separar as pecinhas espalhadas no quarto por cores, formatos e tamanhos, calculava as peças necessárias para as minhas construções, encaixava-as uma a uma até se juntarem todas. Como naquela altura os legos não estavam acessíveis a qualquer um, a minha colecção era ainda muito pequena e pouco variada. Lembro que ia para casa de um amigo brincar com os que ele tinha, e eram tantos! Passava lá horas, tardes, a construir palácios, peça a peça até ao resultado final, até que alguém me lembrava que tinha de regressar a casa. Saia de lá sempre com o desejo de recomeçar a encaixar, a desmontar, de voltar para o meu curso de engenheira de plástico. Quanto mais brincava com os legos, maior era o meu desejo de poder aumentar a minha colecção. Sonhava que o meu pai chegaria a casa com uma caixa cheia deles, todinhos para mim, mas quando acordava a realidade não era essa! Enquanto estivesse rodeado de legos, brancos, amarelos ou azuis, rodinhas e portas, de três e seis encaixes, telhados vermelhos e bonecos sorridentes, eu estava no meu mundo, do faz de conta, e tudo o resto me passava ao lado. Tudo o que queria era construir as máquinas mais estranhas, indestrutíveis aos berlindes e às quedas forçadas, construir as casas mais bonitas, pontes e carros, eu sei lá, uma imensidão de coisas que só terminava quando a hora era tardia pois a imaginação levava a tudo. Ainda sou capaz de pegar nesses pedacinhos de plástico e molda-los ao meu jeito. Não tenho já o mesmo interesse nem os mesmos sonhos de criança mas continuo a ter muita imaginação. Pai, que estás a fazer com os meus legos? Olha lá, e se os arrumasses todos como eu te mando? Assim eu não teria de os procurar e remexer no saco do aspirador de cada vez que os aspiro em baixo da tua cama!

Que importa, esses pequenos cubos coloridos de plástico são mágicos, assim espalhados pelo chão, e que nos transportam aos dois, de cócoras no meio do quarto, no nosso desejo de continuar a sonhar e brincar, juntos.


sábado, novembro 1

a voz que veio do futuro

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Peter Murphy é um dos grandes senhores da música independente e quando se fala no seu nome é impensável separá-lo do percurso percorrido com os míticos Bauhaus, ainda uma das maiores referências no meio alternativo. Continua a encantar com a sua potente e característica voz e, talvez mais do que nunca, prova a cada espectáculo estar na sua melhor forma.

Depois do espectáculo, esgotado, em Novembro do ano passado, no Pavilhão Municipal de Gaia, e do concerto no Festival Marés Vivas, também em Gaia, em Julho, Peter Murphy regressa a Portugal este fim-de-semana e vai interpretar músicas que marcaram muito as preferências musicais na minha adolescência, os anos oitenta.

Terminada a etapa dos Bauhaus, em 1983, formou conjuntamente com Mick Karn dos Japan os Dalis Car. Passados três anos após o fim dos Bauhaus, Peter Murphy estreia-se em discos a solo, e em 1990 surge o álbum mais conhecido da sua carreira, "Deep".




O single "Cuts you up" foi um dos êxitos desse ano, tendo-se mantido sete semanas no top, acompanhado de uma grande exposição a nível de rádio e televisão.

Em 2002, é editado "Dust", álbum que recolhe influências da música oriental, o que se deve, em grande parte, ao facto de Peter Murphy viver há muitos anos na Turquia. Em 2005, publica "Unshattered", o seu último disco até agora. O álbum tem canções pop, mas sem abandonar por completo o registo alternativo e as habituais aproximações à world music.

Fonte JN