Partilhar

Ele nunca foi de fazer perguntas. Contrariamente às minhas sobrinhas, bem mais curiosas e perguntadeiras como costumo dizer, ele passou pela idade dos porquês sem fazer as habituais sessões de questionários embaraçosos.
As crianças são curiosas por natureza, não conseguem resistir ao impulso de estar constantemente a perguntar, por isto e por aquilo, e a fazerem observações nas ocasiões menos convenientes. “Porque é que a tua cara pica?” ou “Porque é que tenho de ir dormir” e “Porque é que podes dizer meeee e eu não?” entre outras encadeadas, directas e impertinentes de resposta demorada e bem pensada. Por vezes a chuva de perguntas é tão intensa que me deixa sem argumentos e dá vontade de utilizar o famoso "Porque é que não te calas?". Logo eu que tenho resmas de paciência! Quando me vejo confrontado com estes interrogatórios de palmo e meio fico convencido que o meu QI é mesmo muito parecido com o de uma criança de 4 anos. Por vezes até dou por mim a fazer estas mesmas perguntas mas com umas ligeiras nuances: “Porque é que hoje não me apeteceu barbear?” ou “E porque é que fui logo dizer merda à frente dela?”, entre outras.
Como dizia, ao contrário da minha pequena sobrinha, ele nunca foi de fazer perguntas. Tal como eu quando era mais novo, ele é reservado e pouco falador, distraído mas observador. Na maior parte das vezes quando tem dúvidas socorre-se do dicionário ou dos seus livros. Na idade dele, fazia as minhas poucas perguntas principalmente à minha mãe que nos satisfazia a curiosidade com uma resposta adequada à nossa compreensão, mesmo nos assuntos mais destinados ao pai.
Chega uma altura em que os nossos filhos adolescentes já não nos procuram tanto para satisfazerem as suas dúvidas. Assim, uma nova idade dos porquês e um ponto de viragem surge, na qual somos nós a fazer-lhes as perguntas, tipo: “Porque passas tanto tempo a ver televisão?”, ou “Porque não estás a estudar?”, o “Porque não largas a playstation?” e a exaustiva pergunta “Porque nunca queres fazer nada do que nós dizemos?”. Porquê, porquê, porquê? Algumas vezes é desesperante pois nem obtemos a resposta desejada. Eles acham que são perguntas chatas e de retórica. Então como se explica ao avô que o computador serve para a conversar com os amigos?
Sempre que o meu filho solicita ajuda sobre alguma matéria eu não o ignoro, ouço-o com atenção e procuro satisfazer a sua curiosidade. Se não estiver certo da resposta, digo-lhe que mais tarde lhe responderei, depois de reflectir bem ou pesquisar o assunto em questão. Para o esclarecimento de várias outras questões a mãe é a mais indicada, na maior parte delas somos os dois, outras há em que eu estou mais preparado para o fazer, de pai para filho. Ao longo da vida fui aprendendo e percebendo que, como pai, mais tarde ou mais cedo iria ter que ajudá-lo, teria que compreender as mudanças nele verificadas e actualizar-me para que eu lhe soubesse transmitir conselhos e valores, usando a minha experiência de vida. Algo sobre o que é ser quase um adulto, ser um homenzinho. Um dia destes, assim que cheguei a casa, a mãe chamou-me: Paulo, o teu filho tem uma coisa para te perguntar. Ai, sim! Tás fixe, correu-te bem o dia na escola? A mãe disse-me que tu tinhas uma coisa para me perguntar, diz lá? Óh pai, o que é a ejaculação precoce???
Anda cá!!! É hoje que vamos ter a tal conversa, de homem para homem...