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Quando iniciei as sensações da nicotina, e não pretendendo que meus pais soubessem, utilizava estratégias infantis de disfarce, dissimulava de uma forma ridícula, até que certo dia minha mãe me disse baixinho: “Paulo, quando quiseres fumar, os teus cigarros estão na gaveta da cómoda, escusas de os esconder debaixo do colchão”. Mesmo assim, instintivamente, lá continuava eu a evitar ser surpreendido e ia disfarçando com desculpas e promessas patéticas: “Ó mãe, foi só um pra experimentar! Não, esse maço não é meu, é do José, e olha, prometo não voltar...”
Ontem ao ouvir o Sr. Sócrates, apanhado em falso a violar uma lei apresentada pelo seu governo, a entrar num patético espectáculo de contrição pública, prometendo aos portugueses que vai deixar de fumar, reacenderam na minha memória esses saudosos tempos da minha adolescência.
E o que é que nós temos a ver com isso? Sendo um assunto da sua vida privada, não precisa pedir desculpa que a mamã não castiga. Sendo um assunto público, aí só tem que cumprir a lei e a igualdade dos cidadãos. Se fumou, como reconhece, paga os 750 euros previstos na lei, como deverá acontecer com qualquer cidadão. Agora, fazer uma promessa aos portugueses sobre a sua vida privada é que passa todos os limites do bom senso. E o que é que acontece se não cumprir? E quem é que vai fiscalizar o cumprimento da promessa?
Caro Sócrates, se vir que a coisa está preta para deixar de fumar, recomendo-lhe o Champix. Quanto à multa, se achar que é um valor muito elevado, sempre se pode trocar pela senhora que ainda está raptada pelas FARC, e olhe que não nos importaríamos nada. Mesmo assim se achar estas sugestões muito violentas, então porque não correr a próxima meia-maratona de Lisboa de cigarro sempre aceso.